<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-20990548</id><updated>2012-02-14T23:32:44.048-03:00</updated><title type='text'>moreno capoeira</title><subtitle type='html'>Esse blog contém textos de minha autoria sobre capoeira, é independente; não está ligado a nenhum grupo específico. O objetivo é escrever crônicas sobre capoeira com o intuito de refletir sobre o ambiente do nosso brinquedo.</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Moreno capoeira</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>77</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20990548.post-3984595301660075333</id><published>2012-02-07T09:56:00.003-03:00</published><updated>2012-02-07T10:46:48.290-03:00</updated><title type='text'>Recôncavo ou recôndito</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Mestre Pombo de Ouro sempre nos conta uma história engraçada sobre a forma como uma antiga aluna manifestou o alto apreço que sentia por ele:" Mestre, o senhor mora no &lt;span style="font-style: italic;"&gt;recôncavo&lt;/span&gt; do meu coração!" -- e o mestre, sempre muito espirituoso, teria corrigido a moça, dizendo  --  "Não seria &lt;span style="font-style: italic;"&gt;recôndito&lt;/span&gt;, minha filha?".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De minha parte, sempre achei que o "erro" na declaração de apreço da aluna continha algo mais profundo, que só agora percebi: no universo simbólico da capoeira, o Recôncavo Baiano ocupa um lugar mítico, pois foi ali que se originou algo que reputamos não só como uma luta ou um folguedo, mas como uma visão de mundo que se manifesta através do corpo. Sendo assim, a substituição de &lt;span style="font-style: italic;"&gt;recôndito&lt;/span&gt; por &lt;span style="font-style: italic;"&gt;recôncavo&lt;/span&gt; é um ato falho que demonstra toda a adoração que essa moça sentia pelo mestre: ela liga sua admiração e respeito a um lugar de imenso valor simbólico para o praticante de capoeira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas queria também chamar atenção nessa postagem para o fato de que nossos sentimentos são também historicamente  construídos. A moça não disse, por exemplo: " Mestre, o senhor ocupa uma lapa do meu coração." Para os capoeiristas de hoje, a Lapa carioca possui uma força simbólica menor que a do Recôncavo. Isso chama a nossa atenção para o fenômeno do apagamento da memória da capoeira carioca, referido pela socióloga Letícia Reis e pelo estudioso André Lacê.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E hoje isso é ponto pacífico nos estudos de capoeira: houve, sim, uma disputa entre os modelos baiano e carioca, disputa na qual o primeiro levou vantagem sobre o segundo -- seja por estar organicamente vinculado à fonte de vitalidade que era a cultura popular de Salvador, seja por ter estado em condições de lidar melhor com diversos contextos culturais e assim ter se adaptado às várias exigências que lhe faziam: ser um esporte nacional, ser uma manifestação folclórica, ser um folguedo ou (nos anos 60) ser uma forma de a própria classe média carioca procurar autenticidade e liberdade num momento marcado pelo autoritarismo, e por aí vai.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20990548-3984595301660075333?l=morenocapoeira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/feeds/3984595301660075333/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20990548&amp;postID=3984595301660075333&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/3984595301660075333'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/3984595301660075333'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/2012/02/reconcavo-ou-recondito.html' title='Recôncavo ou recôndito'/><author><name>Moreno capoeira</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20990548.post-2625099729313875917</id><published>2012-01-26T10:51:00.002-03:00</published><updated>2012-01-26T16:25:04.198-03:00</updated><title type='text'>Carta ao Coronel</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span dir="ltr"&gt;Legal, Coronel! Esse livro do Zuma é um marco na  história da capoeira: esta seria a sua primeira sistematização. Depois,  queria que o senhor me emprestasse, hein! &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span dir="ltr"&gt;  Segundo as fontes que tenho, Zuma não era um capoeirista de origem popular, formado nas rodas de  pernada dos malandros; ele tinha o objetivo de "higienizar" ( uma  palavra muito usada na época) a capoeira, transformando-a numa luta  nacional aos moldes do boxe inglês. Ou seja, o objetivo era "desafricanizá-la"; e aí Zuma bane o canto, os instrumentos  musicais, as palmas, a ginga -- e a própria roda, já que a luta deveria  acontecer em um ringue. O caráter festivo da capoeira também seria  combatido: ela não seria mais um híbrido entre brincadeira, dança e luta. Assumiria um caráter marcial e ponto.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span dir="ltr"&gt;  O método de Zuma foi muito influente e inspirou até mestre Bimba: numa  entrevista de 1936, o grande mestre baiano disse que as lutas que ele  faria no Terreiro de Jesus seriam regidas pelas regras de Zuma. Ou seja,  na época, os capoeiristas baianos viam como algo muito prestigioso incorporar algo do projeto da Ginástica Nacional à  sua concepção da brincadeira. Com o tempo, os projetos étnicos e  populares da boa terra (regional e angola) sobrepujariam o elitista e  nacional projeto carioca.&lt;br /&gt;Porém, não dá para desconsiderar o papel da Ginástica Nacional na história da capoeira. Alguns autores,  como o Luiz Renato Vieira, escrevem que a capoeira regional pode ter  sido um projeto marcial incompleto, pois mestre Bimba teria desistindo  de transformá-la numa luta só no final dos anos 40. André Lacé argumenta que mestre Bimba só chamou sua capoeira de  "luta regional baiana" porque reconhecia a existência de uma "ginástica  nacional", mais desenvolvida e prestigiada por ter sido criada num centro cultural mais importante que Salvador. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span dir="ltr"&gt;  Quanto aos militares, seu objetivo foi quase sempre nesse sentido:  higienizar a capoeira, interrompendo sua comunicação com a fonte popular  e afro de sua vitalidade e sistematizar uma luta nacional a partir daí.  O mestre de capoeira, geralmente de origem negra e popular, poderia até ser dispensado, segundo Lamartine Pereira da Costa. Essa  tentativa de apropriação da capoeira pela educação física até hoje gera  pano pra manga -- de fato, o que já está acontecendo hoje em dia é algo no sentido contrário, o que acredito ser muito mais interessante.&lt;br /&gt;Na verdade, uma pitada de nacionalismo e um desejo  de transformar a capoeira em luta esteve presente , em maior ou menor grau, em muitos dos diferentes projetos de capoeira.  Talvez seja nessa permanência que se manifeste a maior herança do  projeto da Ginástica Nacional.&lt;/span&gt;&lt;span dir="ltr"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span dir="ltr"&gt;  Um abraço a todos,&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span dir="ltr"&gt;&lt;br /&gt;                              &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20990548-2625099729313875917?l=morenocapoeira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/feeds/2625099729313875917/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20990548&amp;postID=2625099729313875917&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/2625099729313875917'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/2625099729313875917'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/2012/01/carta-ao-coronel.html' title='Carta ao Coronel'/><author><name>Moreno capoeira</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20990548.post-9196285387531638333</id><published>2011-10-04T17:29:00.004-03:00</published><updated>2011-10-04T17:34:48.129-03:00</updated><title type='text'>Comentariozinho sobre a postagem anterior</title><content type='html'>Queria só fazer mais um comentariozinho sobre minha última postagem. Dizer que mestre Pastinha "orientalizou" a capoeira pode ser anátema para vários grupos de capoeira angola que surgiram nas últimas décadas defendendo uma "africanização" da brincadeira. Mas a verdade é que a concepção da roda de capoeira como um retorno ao "Kalunga", ao mundo dos mortos da mitologia banto, parecia não estar muito na intenção de mestre Pastinha quando propôs sua sistematização do brinquedo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20990548-9196285387531638333?l=morenocapoeira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/feeds/9196285387531638333/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20990548&amp;postID=9196285387531638333&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/9196285387531638333'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/9196285387531638333'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/2011/10/comentariozinho-sobre-postagem-anterior.html' title='Comentariozinho sobre a postagem anterior'/><author><name>Moreno capoeira</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20990548.post-5177400011863851354</id><published>2011-03-24T17:38:00.042-03:00</published><updated>2011-04-12T16:56:34.653-03:00</updated><title type='text'>Mestre Pombo de Ouro: a capoeira como visão de mundo</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;!--[if gte mso 9]&gt;&lt;xml&gt;  &lt;w:worddocument&gt;   &lt;w:view&gt;Normal&lt;/w:View&gt;   &lt;w:zoom&gt;0&lt;/w:Zoom&gt;   &lt;w:hyphenationzone&gt;21&lt;/w:HyphenationZone&gt;   &lt;w:punctuationkerning/&gt;   &lt;w:validateagainstschemas/&gt;   &lt;w:saveifxmlinvalid&gt;false&lt;/w:SaveIfXMLInvalid&gt;   &lt;w:ignoremixedcontent&gt;false&lt;/w:IgnoreMixedContent&gt;   &lt;w:alwaysshowplaceholdertext&gt;false&lt;/w:AlwaysShowPlaceholderText&gt;   &lt;w:compatibility&gt;    &lt;w:breakwrappedtables/&gt;    &lt;w:snaptogridincell/&gt;    &lt;w:wraptextwithpunct/&gt;    &lt;w:useasianbreakrules/&gt;    &lt;w:dontgrowautofit/&gt;   &lt;/w:Compatibility&gt;   &lt;w:browserlevel&gt;MicrosoftInternetExplorer4&lt;/w:BrowserLevel&gt;  &lt;/w:WordDocument&gt; &lt;/xml&gt;&lt;![endif]--&gt;&lt;!--[if gte mso 9]&gt;&lt;xml&gt;  &lt;w:latentstyles deflockedstate="false" latentstylecount="156"&gt;  &lt;/w:LatentStyles&gt; &lt;/xml&gt;&lt;![endif]--&gt;&lt;!--[if !mso]&gt;&lt;object classid="clsid:38481807-CA0E-42D2-BF39-B33AF135CC4D" id="ieooui"&gt;&lt;/object&gt; &lt;style&gt; st1\:*{behavior:url(#ieooui) } &lt;/style&gt; &lt;![endif]--&gt;&lt;!--[if gte mso 10]&gt; &lt;style&gt;  /* Style Definitions */  table.MsoNormalTable  {mso-style-name:"Tabela normal";  mso-tstyle-rowband-size:0;  mso-tstyle-colband-size:0;  mso-style-noshow:yes;  mso-style-parent:"";  mso-padding-alt:0cm 5.4pt 0cm 5.4pt;  mso-para-margin:0cm;  mso-para-margin-bottom:.0001pt;  mso-pagination:widow-orphan;  font-size:10.0pt;  font-family:"Times New Roman";  mso-ansi-language:#0400;  mso-fareast-language:#0400;  mso-bidi-language:#0400;} &lt;/style&gt; &lt;![endif]--&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; text-align: justify; text-indent: 35.45pt;"&gt;Desde que conheci o mestre Pombo de Ouro, venho me fazendo a seguinte pergunta: Como foi que ele desenvolveu uma forma de conceber o mundo que, se deve muito às parábolas e aos treinamentos de prontidão do mestre Bimba, também possui a singularidade de adaptar -- sem fazer concessões -- esses ensinamentos tradicionais ao ambiente da capoeira atual, em que que ela está presente nas escolas, nas academias de ginástica e recebe verbas de projetos sociais? E isso tudo sem ser puro discurso vazio, preparado para ser escrito em documentos para levantar grana ou expandir um determinado grupo. Talvez seja um vício de acadêmico frustrado tentar explicar tudo o que se vê, mas não consigo abandoná-lo. Espero que o mestre encare esse pequeno texto como forma de expor minha admiração.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; text-align: justify; text-indent: 35.45pt;"&gt;É muito difícil ignorar o papel da capoeira na vida do mestre, pois pode-se dizer que foi ela que traçou seu destino: forneceu a ele uma forma de defesa contra ataques à sua dignidade, uma fonte de auto-estima e de segurança afetiva. Além disso, a capoeira apresentou-lhe a uma estratégia para conseguir se defender num mundo onde ele está privado tanto de capital cultural e capital econômico, bases que definem a dominação das classes alta e média na sociedade brasileira.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; text-align: justify; text-indent: 35.45pt;"&gt;A capoeira lhe forneceu, inclusive, uma família substituta. Depois de ter sido expulso da casa do seu padrinho em Salvador, foi seu camarada Sansão que o acolheu em sua casa e foi Waldemar Santana que o trouxe para Brasília e o ajudou a se inserir no ambiente da capoeira da cidade. Foi esse ambiente que permitiu que o mestre se relacionasse com capoeiristas que provinham das classes alta e média brasilienses -- médicos, arquitetos e estudantes de ensino superior -- em pé de igualdade ou até mesmo a partir de uma posição hierárquica mais alta.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; text-align: justify; text-indent: 35.45pt;"&gt;É impossível negar que visão do mundo de mestre Pombo de Ouro está ligada à das classes trabalhadoras brasileiras: "disciplina, autocontrole, pensamento prospectivo" fazem parte dela, como escreve Jessé Souza em seu livro sobre os "batalhadores brasileiros". O que o distingue dos demais membros de sua classe é a capacidade de formalização dessa visão de mundo utilizando o vocabulário e a simbologia da capoeira.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; text-align: justify; text-indent: 35.45pt;"&gt;"O grande mestre é o tempo, a grande roda é a vida, e quem não ginga na roda da vida dança." Este é seu principal ditado. E ele abre uma porta para seu pensamento. Enquanto aquele que ginga possui um certo controle da situação em que está envolvido, quem dança é levado por circunstâncias que estão fora do seu controle. Por outro lado, a ginga na roda da vida não tem a ver com a pura liberdade, mas com auto-controle, auto-conhecimento e capacidade de antecipação necessários para saber lidar com as muitas amarras e limitações que fazem parte da realidade das classes populares no Brasil.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; text-align: justify; text-indent: 35.45pt;"&gt;Para o "batalhador brasileiro", gingar pode significar procurar ser um trabalhador respeitado por sua competência no emprego de modo a não atrair a antipatia dos superiores, o que proporciona maiores oportunidades de inserção e ascensão social. Ainda assim, a revolta continua fazendo parte do repertório de respostas do capoerista em caso de um ataque frontal à sua dignidade, mas deve ser feita de forma muito bem pensada, já que  seria feita num contexto  desfavorável.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; text-align: justify; text-indent: 35.45pt;"&gt; &lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; text-align: center; text-indent: 35.45pt;" align="center"&gt;* * *&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; text-align: justify; text-indent: 35.45pt;"&gt; &lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; text-align: justify; text-indent: 35.45pt;"&gt;Mas o que isso tem a ver com capoeira? Já explico. É que tanto mestre Bimba quanto mestre Pastinha fizeram parte de uma geração de membros das classes populares -- em grande parte afro-descendentes -- que, premidos pelo contexto da modernização do país no começo do século XX, recriaram a forma de ver o mundo de sua classe social. Se, de alguma maneira, acabaram aderindo a novos dispositivos disciplinares que iam no sentido do aumento da docilidade do trabalhador brasileiro, adaptando-o a uma nova fase do desenvolvimento do capitalismo no país, por outro lado, garantiram a renovação de grande parte de suas tradições, a partir das quais poderiam construir novas formas de resistência.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; text-align: justify; text-indent: 35.45pt;"&gt;Entre os principais feitos dessa geração está a recriação de uma noção tão importante para a capoeira como a de malandragem: segundo a nova estratégia das classes populares, o malandro não deveria mais chamar atenção sobre si e seus atos e nem atacar diretamente a ordem estabelecida: "o verdadeiro malandro não diz que é". Foi nessa época que a malandragem e a capoeira puderam ser erigidas em filosofias de vida e concebidas como portadoras de uma visão de mundo: a malandragem torna-se algo pessoal e interior, entranhado na própria personalidade do indivíduo e passível de ser utilizada em qualquer contexto de sua existência.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; text-align: justify; text-indent: 35.45pt;"&gt;As artes marciais orientais passaram por uma transformação semelhante mais de trezentos anos antes da capoeira, no contexto da unificação política e da pacificação interna do Japão. A partir de 1603, proibidos pelo xogum de utilizarem suas armas e técnicas de combate, os samurais passaram a associar o treino e o aprendizado de suas técnicas a uma forma de autoconhecimento e autocontrole que deveria levar ao aperfeiçoamento pessoal e espiritual do praticante.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; text-align: justify; text-indent: 35.45pt;"&gt;O objetivo das artes marciais deixaria de ser matar o combatente adversário na guerra e passaria a ser vencer a si mesmo, lutando contra as próprias imperfeições a cada treino, a cada golpe praticado. Num combate, os movimentos dos lutadores estariam obedecendo aos movimentos das forças vitais que regem o mundo e os princípios fundamentais que animam a natureza estariam se manifestando nos movimentos e técnicas utilizados pelos lutadores.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; text-align: justify; text-indent: 35.45pt;"&gt;É nesse sentido que se pode dizer que a capoeira se "orientalizou" com Bimba e Pastinha. Não é à toa que as "parábolas" de mestre Bimba são comparadas por Dr. Decânio a ensinamentos zen -- "árvore grande pode ter macaco nus gaiu"; "num sentá de costa pra rua"; "queinh dromi in casa di ôtru homi num fêxa us óiu, conta as têia".  Dr. Decânio tem a percepção de que os conselhos presentes em cada uma dessas histórias podem ser extrapolados para vários contextos da vida de uma pessoa. E mais, os treinamentos de prontidão da academia de mestre Bimba complementavam as suas parábolas: serviam para que o discípulo internalizasse a capacidade de antecipação de qualquer tipo de ameaça dentro ou fora da roda de capoeira. Uma vez adquirida, essa capacidade tornava-se parte da forma de o discípulo se relacionar com o mundo.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; text-align: justify; text-indent: 35.45pt;"&gt;É por isso que  mestre Pombo pode ser considerado herdeiro direto de mestre  Bimba. Graças ao treinamento da capoeira regional, ele percebe as interações que existem dentro  da roda de capoeira como uma miniatura daquelas que ocorrem na vida.  Foi também graças à regional que o mestre internalizou faculdades como a prontidão, que podem ser utilizadas tanto  na roda quanto fora dela.&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; text-align: center; text-indent: 35.45pt;"&gt;* * *&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; text-align: justify; text-indent: 35.45pt;"&gt;Interessante é que os ensinamentos de mestre Bimba sofreram um redirecionamento na interpretação que deles fez mestre Pombo. Sou sempre tentado a explicar esse redirecionamento pelo choque que ele sofreu com a expulsão de casa pelo padrinho que o criava quando era um adolescente em Salvador. Talvez tenha sido esse acontecimento o detonador da transformação do mestre, se é que as coisas que têm a ver com a alma humana possuem apenas uma explicação. O trauma sofrido na sua dignidade e os ensinamentos das parábolas de mestre Bimba tê-lo-íam levado a elaborar uma visão de mundo que tem a capoeira como matriz e que tem como princípio básico a preservação da própria dignidade.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; text-align: justify; text-indent: 35.45pt;"&gt;Assim, se para mestre Bimba a capoeira tinha que ver com a preservação da vida do capoeirista frente a inimigos que atacavam de surpresa, para seu discípulo o que deveria ser salvo pela capoeira não era apenas a integridade física do indivíduo, mas também a possibilidade de ele ser respeitado e de se inserir socialmente mantendo a sua dignidade. A capacidade de antecipação para mestre Pombo também não diz respeito apenas à proteção de seu corpo contra a agressões físicas, mas também à defesa contra o perigo de ser colocado em uma posição desfavorável em qualquer contexto de sua vida. Já a capacidade de auto-observação diz respeito a evitar perder o controle sobre os próprios atos, algo muito prejudicial para um membro das classes populares que dispõe de poucos recursos para se impor frente a seus superiores. Para mestre Pombo, fora da roda, o capoeirista luta pela preservação de sua dignidade num mundo hostil. É nessa defesa radical da própria dignidade que está o potencial revolucionário da visão de mundo de mestre Pombo de Ouro.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; text-align: justify; text-indent: 35.45pt;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; text-align: justify; text-indent: 35.45pt;"&gt;Foi também a capoeira que ajudou mestre Pombo a desenvolver uma sensibilidade muito aguçada para as demarcações cotidianas de superioridade e inferioridade que se estabelecem nas relações humanas. É por isso que alguns o chamam de "paranóico". Essa "paranóia" é, simplesmente, um componente fundamental do que o capoeirista chama de mandinga ou malícia: a capacidade de intuir e antecipar os movimentos do adversário, e que precede a sua vitória. Ela também é essencial para a vida fora da roda: utilizando sua malícia, o batalhador pode analisar o contexto no qual toma suas decisões.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; text-align: justify; text-indent: 35.45pt;"&gt;A preocupação com a preservação da dignidade e com o aperfeiçoamento pessoal também foi estendida ao outro e ao aprendiz de capoeira. É aí que esta a originalidade do mestre Pombo como professor: ele constrói em suas aulas um espaço que tem como princípio o respeito entre mestre-aluno e aluno-aluno. É isso o que explica sua desconfiança quanto ao uso da corda na capoeira (ele mesmo não põe sua corda de mestre na cintura), pois a graduação superior pode servir de pretexto para atos de humilhação, menosprezo ou autoritarismo perpetrados contra outro capoeirista de graduação inferior. A excessiva importância dada à graduação é ela mesma um sintoma de imaturidade do capoeirista, pois significa tomar um aspecto exterior por outro, interior e essencial do indivíduo.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; text-align: justify; text-indent: 35.45pt;"&gt;A ética do "capoeirista cidadão" também aparece em suas aulas durante a conversa que realiza com seus alunos no final das mesmas, o "papoeira". Se o verdadeiro malandro não espalha, seu camarada, o verdadeiro capoeirista, é um bom trabalhador e um bom cidadão -- respeitado por todos mas capaz de se revoltar caso sua dignidade seja ameaçada. Se a roda de capoeira é uma miniatura da roda da vida, o objetivo dos treinos não é apenas o aprendizado e o aperfeiçoamento dos movimentos da capoeira, mas também um aprendizado pessoal de amadurecimento, auto-conhecimento e malícia com o objetivo de conseguir uma inserção social digna que esteja ao alcance dos batalhadores brasileiros.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; text-align: justify; text-indent: 35.45pt;"&gt;Foi por isso que, no período que talvez possa ser reconhecido como o ponto máximo de sua carreira até hoje, essa visão de mundo -- desenvolvida a partir de uma interpretação muito particular dos ensinamentos de mestre Bimba -- mostrou ser adaptável também à visão do esporte educacional tal como foi concebida por figuras como César Barbieri e colocada em prática em vários projetos, entre eles os JEB's de meados dos anos 80/começo dos anos 90 e o Capoeira Arte e Ofício, da 2ª metade dos anos 90.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; text-align: justify; text-indent: 35.45pt;"&gt;Isso porque mestre Pombo fornecia algo que era muito valorizado pelos idealizadores de tais projetos: uma concepção de capoeira que ia numa direção oposta à associada ao modelo do esporte de alto rendimento, que ainda contava com alguma força institucional no período imediatamente posterior à ditadura militar. A capoeira de mestre Pombo respeitava a autonomia, a dignidade e a capacidade de convivência harmônica do aluno com seus pares, promovia o autoconhecimento e era informada por uma visão de mundo ligada ao corpo e identificada com um "jeito brasileiro de aprender a ser", uma visão de mundo construída a partir da cultura e da experiência negra e popular no Brasil.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; text-align: justify; text-indent: 35.45pt;"&gt; &lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; text-align: center; text-indent: 35.45pt;" align="center"&gt;FIM&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20990548-5177400011863851354?l=morenocapoeira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/feeds/5177400011863851354/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20990548&amp;postID=5177400011863851354&amp;isPopup=true' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/5177400011863851354'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/5177400011863851354'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/2011/03/mestre-pombo-de-ouro-capoeira-como.html' title='Mestre Pombo de Ouro: a capoeira como visão de mundo'/><author><name>Moreno capoeira</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20990548.post-1759146702689651812</id><published>2011-03-17T18:32:00.011-03:00</published><updated>2011-03-24T15:50:15.953-03:00</updated><title type='text'>A "orientalização" da capoeira</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Como frisaram Vieira e Assunção, codificar uma visão de mundo  própria da capoeira -- uma filosofia de vida baseada na vadiação -- não  deixa de aproximar a capoeira das artes marciais orientais. Tais autores  se referem às várias frases proferidas por mestre Pastinha sobre a  capoeira, tais como: "Capoeira é tudo o que a boca come"; "capoeira é  mandinga de escravo em ânsia de liberdade, seu princípio não tem método e  seu fim é inconcebível ao mais sábio capoeirista."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Essa  "orientalização" da capoeira -- que talvez tenha começado com mestre  Pastinha -- é um fenômeno muito complexo que parece corresponder a um  desenvolvimento interno à capoeira e à própria cultura afro-brasileira.  Isso porque, se mestre Pastinha frisa os opostos que convivem na roda de  capoeria -- a capoeira negativa, defensiva, que guarda em si a surpresa  da capoeira positiva -- à maneira do Yin e do Yang chinês; por outro  lado, quem come tudo o que a boca come é Exu, o orixá mensageiro,  traiçoeiro e enganador que recebe as primeiras oferendas logo no início  da cerimônia do candomblé.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fiz essa digressão em torno de mestre  Pastinha porque também no mestre Pombo percebo essa tendência para a  "orientalização", claramente inspirada em mestres como Bimba e Pastinha,   mas também em sua experiência de vida ligada àquela das classes  populares brasileiras, bem como n o seu acesso à cultura pop  internacional. Essa tendência à orientalização é perceptível na frase  mais pronunciada pelo mestre Pombo: "O grande mestre é o tempo, a grande  roda é a vida e quem não ginga na roda da vida dança." Porém, outro de  seus ensinamentos, "o capoeirista deve ser como a água, adaptar-se a  todas as situações", é claramente inspirado na frase de Bruce Lee sobre o  praticante de kung fu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A aura de misticismo desenvolvida por  mestre Pombo combinou muito bem com o projeto do esporte educacional que  César Barbieri e outros estavam tentando institucionalizar na  Secretaria do Esporte nos anos  pós-ditadura militar no quadro dos Jogos  Escolares Brasileiros: o de uma capoeira mais reflexiva e expressiva na  qual o aluno podia aprender na roda e nos treinos algo sobre a vida,   expressar sentimentos relativos ao processo de ensino-aprendizagem e à  sua própria existência e interagir com outros praticantes de capoeira  para além da pura e simples competição.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A emergência desse projeto tinha muito que ver com a perda de poder do aparato  militar nas instituições que regiam o país como um todo a partir de 1985. Era um momento  no qual não só as idéias libertárias referentes ao esporte, mas também  à  sociedade brasileira em seu conjunto podiam ser formuladas e chegar a  obter espaço no estado recém-democratizado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi nesse contexto  que um praticante da arte como  Nestor Capoeira escreveu o seu "Galo já cantou", também um projeto que  enxergava a capoeira como filosofia de vida  ao lado da Psicanálise  européia e do Zen asiático. Outros escreveram que o corpo do capoeirista  guardava em si a memória da liberdade, sendo uma arma contra a ditadura  e que ensinar capoeira era, naturalmente, ensinar democracia e criar  cidadão livres e críticos a qualquer forma de autoritarismo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje  em dia, o contexto é um pouco diferente. A contracultura foi cooptada e tornou-se modismo. As formas de gestão criadas pelas empresas japonesas já demonstraram que a reflexão do trabalhador sobre seu  próprio trabalho, a expressão das próprias opiniões e a interação com os  colegas para além da simples competição também podem se transformar em forma de controle da mão-de-obra, espalhando-se por qualquer ambiente de trabalho, inclusive no setor  público.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Algo parecido se dá no campo da capoeira. Já li trabalhos de capoeiristas formados em psicologia que comparavam as etapas de graduação de seu grupo com as etapas do desenvolvimento psicológico humano. Eles chegam ao absurdo de defender que quanto mais avançada a graduação, mais madura e desenvolvida seria a personalidade do capoeirista. Ora, como o mestre possui a maior graduação dentro do grupo, ele é  o ser humano mais maduro e desenvolvido que seus alunos conhecem! É isso que defendem esses pseudo-psicólogos em seus trabalhos de puro proselitismo, legitimando  a autoridade dos mestres dentro de seus grupos a serviço de uma nova forma de organização dos  mesmos em franquias multinacionais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esse é um exemplo de como um discurso "místico" e "libertador" pode servir a propósitos outros que eles não expressam de forma evidente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um abraço e até a próxima camaradas,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20990548-1759146702689651812?l=morenocapoeira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/feeds/1759146702689651812/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20990548&amp;postID=1759146702689651812&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/1759146702689651812'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/1759146702689651812'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/2011/03/orientalizacao-da-capoeira.html' title='A &quot;orientalização&quot; da capoeira'/><author><name>Moreno capoeira</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20990548.post-1900687450618896413</id><published>2011-02-16T17:00:00.006-03:00</published><updated>2011-02-17T10:34:22.577-03:00</updated><title type='text'>A formação das charangas nas rodas de capoeira</title><content type='html'>Essa questão da quantidade de berimbaus na roda de capoeira dá muito pano pra manga. Lembro de uma palestra do mestre de capoeira e sociólogo Luiz Renato mostrando várias imagens de diferentes mestres da velha guarda com diversas formações na bateria. De fato, existem cenas de filmes antigos em que mestre Bimba toca acompanhado de outros berimbau alpem do seu. Neste aqui, por exemplo,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; http://www.youtube.com/watch?v=oxZexuDY_PQ&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ele aparece aos 4 minutos e 18 segundos acompanhado por mais um berimbau e apenas um pandeiro. Ou seja, parece mestre Bimba admitia algumas exceções à regra que ele mesmo criou dentro de sua academia. Para citar outros mestres importantes, menciono que no filme "O pagador de promessas", vemos uma roda formada pelos mestres Traíra, Canjiquinha e Gigante e pelo ator/capoeirista Antônio Pitanga com 4 berimbaus e dois pandeiros em sua bateria. Para ver, é só acessar esse endereço:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; http://www.youtube.com/watch?v=PJpKawSXlG4&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O próprio Mestre Pastinha escreve que apreciava muito as rodas de capoeira cujas charangas eram formadas por castanholas e violões além de berimbaus e pandeiros. Porém, ele rompeu com essa tradição para criar a charanga com três berimbaus, um atabaque, um reco-reco, um agogô e um pandeiro que, como se vê em algumas imagens, parece que também não era respeitada em todas as rodas que ele comandava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acho que isso serve para abrir nossos olhos para a a excessiva formalidade que às vezes é valorizada no nosso meio. Em muitas ocasiões, ela serve como pretexto para desqualificar outros grupos e mestres como "impuros" ou "ignorantes". Muitas vezes, prestamos atenção nas formalidades e nos esquecemos de que elas foram criadas por homens de carne e osso como nós e de que elas possuem uma história. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Podemos dizer dos mestres Bimba e Pastinha que ambos são inventores de duas tradições de capoeira criadas nos anos 30 -- a invenção de Bimba, pasmem, sendo anterior. As duas invenções estão baseadas na seleção de elementos pertecentes ao amplo substrato de golpes, instrumentação e visão de mundo da vadiação baiana. Sendo assim, acho que é possível que, no que diz respeito à formação da bateria, algo da ausência de sistematização da vadiação repercuta nas rodas dos mestres da velha guarda baiana. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Iniciados na brincadeira naquele ambiente mais livre da primeira metado do século XX, nomes como Bimba, Pastinha, Traíra, Canjiquinha e Gigante talvez se importassem menos do que imaginamos com a composição das charangas de suas rodas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com isso, não estou querendo dizer que devemos acabar com qualquer sistematização ou que aquelas criadas pelos antigos não fazem nenhum sentido: não dá para negar que o "clima" de uma roda cuja charanga é formada por dois pandeiros e um berimbau afinados à maneira de mestre Bimba e tocando o São Bento Grande da Regional é completamente diferente daquele de outra roda composta por três berimbaus -- o gunga tocando angola, o médio invertendo e o viola improvisando ou caindo para o São Bento Grande -- ajudados por um atabaque, um reco-reco, um pandeiro e um agôgo. E ambos são diferentes daqueles das rodas em que o atabaque soa mais alto que os berimbaus tocando "mosquitinho doidão". Energias diferentes estão ligadas, sim, à qualidade da bateria de uma roda. Todo capoeirista sabe disso. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que não dá para fazer é ficar paranóico com o número de berimbaus de uma roda. Afinal, não existem só esses três tipos de roda e a formação da instrumentação não determina por si só a boa qualidade da música e da natureza da interação que vai ocorrer entres os praticantes. Muitas vezes, basta um berimbau bem tocado com uma galera disposta a fazer um jogo de camaradagem e pronto. Não tem muita complicação. E talvez essa postura mais aberta combine mais com a tradição da vadiação, se é que existe uma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um abraço a todos,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;     Moreno&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20990548-1900687450618896413?l=morenocapoeira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/feeds/1900687450618896413/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20990548&amp;postID=1900687450618896413&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/1900687450618896413'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/1900687450618896413'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/2011/02/formacao-das-charangas-nas-rodas-de.html' title='A formação das charangas nas rodas de capoeira'/><author><name>Moreno capoeira</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20990548.post-2997232271624618894</id><published>2010-04-29T12:32:00.004-03:00</published><updated>2010-04-29T15:05:43.190-03:00</updated><title type='text'>Besouro e Madame Satã</title><content type='html'>Analisando as formas de filmagem da capoeira de "Besouro" e de "Madame Satã", percebi que este se inspira naquelas gravuras de Kalixto-- bem conhecidas no meio da capoeira -- datadas de 1906 onde aparecem desenhos de malandros se enfrentando. Tais desenhos, além de retratarem aqueles personagens das ruas cariocas, acabam reproduzindo também alguns dos trejeitos de corpo por eles utilizados na luta da capoeira. O próprio figurino do personagem corresponde aos desenhos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O corpo de Satã não é filmado por inteiro durante as cenas de luta, mas não para disfarçar a -- improvável -- inabilidade de Lázaro Ramos na capoeira, mas para dar a idéia de rapidez e do caráter inesperado dos golpes, os quais só são percebidos pelo espectador no momento em que atingem o alvo. Em suma, o objetivo da câmera é retratar a "mandinga" e a violência presentes na capoeira dos malandros da Lapa do começo do século XX.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já Besouro se aproxima da capoeira de outra forma. No início do filme, vemos uma cena de luta entre Besouro e os assassinos de mestre Alípio. O herói é filmado de corpo inteiro, seus golpes e sua base são aquelas identificadas com a atual capoeira regional, com golpes esticados e base formada a partir de músculos tensionados. As rodas também seguem o modelo da regional de hoje em dia. E isso também é uma escolha, pois afinal sabemos que havia outros tipos de roda que poderiam ter sido escolhidos: a vadiação no barracão de mestre Waldemar,a capoeira jogada nas docas de Salvador, as rodas dos mestres Bimba e Pastinha, e por aí vai. Mas isso é o de menos, o diretor tem o direito de filmar a capoeira da forma que ele desejar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que chama atenção no filme é mesmo o filmar a capoeira como se faz com as artes marciais orientais em fitas que tiveram grande sucesso comercial. O próprio diretor argumenta ter feito uma tentativa de se criar um super-herói nacional, que pratica uma luta brasileira. Ou seja, “Besouro” faz uma interpretação da capoeira ao modo de “Matrix”, “O tigre e o dragão”, Jackie Chang e Jet Li. E nisso não estou fazendo nehum juízo de valor. É a saga do herói contada de forma bem convencional, utilizando elementos da cultura afro-brasileira. Não chega a ser ruim, mas também não é um estouro.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20990548-2997232271624618894?l=morenocapoeira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/feeds/2997232271624618894/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20990548&amp;postID=2997232271624618894&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/2997232271624618894'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/2997232271624618894'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/2010/04/besouro-e-madame-sata.html' title='Besouro e Madame Satã'/><author><name>Moreno capoeira</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20990548.post-517125225027782805</id><published>2010-04-27T15:07:00.002-03:00</published><updated>2010-04-27T16:03:10.498-03:00</updated><title type='text'>O homem que engarrafava nuvens</title><content type='html'>Assisiti ontem no cineclube dos bancários o documentário "O homem que engarrafava nuvens", dirigido por Lírio Ferreira, que conta a biografia de Humberto Teixeira, o "doutor do baião", responsável, junto com Luiz Gonzaga pela estilização e popularização do ritmo nordestino.Mas esta postagem não é sobre o filme, é sobre uma inspiração que ele me deu. É que, nele, percebi a tradução em imagens daquele "salto de tigre que o passado faz sobre o presente" de que fala Benjamin em suas teses sobre a história. &lt;br /&gt;Quando a internacionalização do baião é abordada, lá pelo terço final do filme, o diretor mostra imagens antigas de Caetano Veloso no exílio cantando a versão de "Asa Branca" que ele havia recém-gravado. Ouvimos Caetano executando a música de forma bem arrastada e no final da música soltando alguns grunhidos e gemidos. Logo depois, a câmera volta para os dias atuais, quando o cantor comenta sua gravação e explica que tais gemidos eram referência à voz dos cegos nordestinos que cantavam nas feiras pedindo dinheiro. &lt;br /&gt;Ora, essa seria a origem mesma do baião: os desafios dos repentistas, o cantar dos cegos nas feiras, o tocador de rabeca que veio da Península Ibérica. Se Humberto Teixeira e Gonzagão adaptaram essa origem, imagem sonora, ao meio urbano brasileiro, Caetano utilizou-a para exprimir o exílio numa cidade européia. É a partir dessa seqüência que o filme apresenta a idéia de que o baião é universal. Em seguida, vemos Otto comaparando a parceria Teixeira e Gonzagão com uma explosão que tomou o mundo -- e nesse ponto o diretor foi muito feliz ao sincronizar a voz do cantor com as imagens de um cogumelo atômico no deserto. &lt;br /&gt;Percebemos então que, se duas interpretações podem ser feitas sobre o baião, correspondentes a diferentes contextos, gerando diferentes significados, então várias outras podem ser feitas: a de David Byrne cantando "Asa Branca" em inglês e relacionando-a à migração dos americanos pobres para a Califórnia, a da cantora japonesa que canta "Paraíba masculina" em sua língua, a de Bebel Gilberto cantando "Juazeiro" com uma pitada de bossa nova. O baião, assim, conhece uma nova explosão, podendo ser interpretado por vários artistas em todos os lugares do mundo segundo suas diversas condições de vida.&lt;br /&gt;Mas o que esta postagem sobre o baião está fazendo num blog dedicado à capoeira?&lt;br /&gt;É que o mesmo se passa com a vadiação: segundo Assunção, ela hoje está ligado ao estilo de vida "cool" associado ao capitalismo avançado nos países da Europa; mas ela também está associada ao afrocentrismo dos militantes negros dos EEUU; ou à somaterapia; ou ao turismo e à exposição dos estereótipos sobre os brasileiros e por aí vai.&lt;br /&gt;Como diria Benjamin, o historiador não deve fechar os olhos para nenhum fato do passado, pois todos eles podem romper com o continuum temporal para fazer sentido num outro presente carregado de contradições. Ou como afirma Veyne, tudo é histórico, todos os fatos históricos estão enredados em inúmeras tramas que só podem ser descobertas pelo historiador atento a elas.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20990548-517125225027782805?l=morenocapoeira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/feeds/517125225027782805/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20990548&amp;postID=517125225027782805&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/517125225027782805'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/517125225027782805'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/2010/04/o-homem-que-engarrafava-nuvens.html' title='O homem que engarrafava nuvens'/><author><name>Moreno capoeira</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20990548.post-4934272984897900015</id><published>2010-04-07T14:58:00.003-03:00</published><updated>2010-04-07T16:01:02.392-03:00</updated><title type='text'>Sobre saroba, saróba e sarobá</title><content type='html'>Encontrei na rede um significado para a palavra "Saroba", que aparece escrita como "saróba" ou "sarobá". O termo aparece como título de um poema do autor sul-matogrossense Lobivar Matos que foi publicado em 1936.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deixo o próprio poeta explicar seu significado:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;"Entram em cenário outras duas palavras com o mesmo significado -- Saróba e Sarobá. A primeira é usada na 'Nhecolândia', zona pantaneira e por 'excelência', pecuária, com o significado de logar sujo, onde os caboclos penetram com receio de algum 'macharrão' [onça macho] acordado, ou de alguma 'boca de sapo' traiçoeira. A segunda, cuja origem não descobri ainda, é denominação que recebe o bairro de negros de Corumbá. Logar sujo onde os brancos raramente penetram e assim mesmo, quando fazem, se sentem repugnados com a miséria e pobreza daquela gente. Sentem repugnância e nada mais, porque os infelizes continuam a vegetar em completo abandono como se não fossem creaturas humanas. Só se lembram de Sarobá quando são necessários os serviços de um negrinho. Fora daí, a favela em ponto menor é o tempo eterno da miséria, é a mancha negra da miséria bulindo na cidade mais branca do mundo."&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pesquisando um pouco mais, descobri que a população de tal bairro trabalhava predominantemente na navegação fluvial, ou seja, eram os equivalentes dos trabalhadores dos portos do Recôncavo Baiano. Ou seja, o bairro Sarobá era para a Corumbá dos anos 1930 o mesmo que a área portuária para o Rio de Janeiro do final do século 19: uma cidade negra onde os habitantes viviam às margens e sobreviviam nas brechas da lei. Não sei se os "sarobeiros" -- será que era assim que os habitantes do lugar eram chamados? -- jogavam capoeira, mas existem paralelos importantes entre eles e os "vadios e capoeiras" de Salvador e do Rio de Janeiro. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Também não sei se os capoeiristas baianos tinham conhecimento e se apropriaram das palavras "Sarobá" ou "Saróba" e lhes conferiram o significado, que permanece pejorativo, que viemos a conhecer nos anos 60 com o livro de Waldeloir Rêgo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas que existe uma proximidade muito grande entre saróba, sarobá e a capoeira, existe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cito então o poema "Sarobá", que inclusive dá nome ao livro do referido poeta:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; " Sarobá "&lt;br /&gt;Lobivar Matos      &lt;br /&gt;                                                     &lt;br /&gt;Bairro de negros,&lt;br /&gt;negros descalços, camisa riscada,&lt;br /&gt;beiçolas caídas,&lt;br /&gt;cabelo carapinha;&lt;br /&gt;negras carnudas rebolando as curvas,&lt;br /&gt;bebendo cachaça;&lt;br /&gt;negrinhos sugando as mamas murchas das negras, .&lt;br /&gt;negrinhos correndo doidos dentro do mato,&lt;br /&gt;chorando de fome.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bairro de negros,&lt;br /&gt;casinhas de lata,&lt;br /&gt;água na bica pingando, escorrendo, fazendo lama;&lt;br /&gt;roupa estendida na grama;&lt;br /&gt;esteira suja no chão duro, socado;&lt;br /&gt;lampião de querosene piscando no escuro;&lt;br /&gt;negra abandonada na esteira tossindo&lt;br /&gt;e batuque chiando no terreiro;&lt;br /&gt;negra tuberculosa escarrando sangue,&lt;br /&gt;afogando a tosse seca no eco de uma voz mole&lt;br /&gt;que se arrasta a custo&lt;br /&gt;pelo ar parado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bairro de negros,&lt;br /&gt;mulatas sapateando, parindo sombras magras,&lt;br /&gt;negros gozando,&lt;br /&gt;negros beijando,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;negros apalpando carnes rijas;&lt;br /&gt;negros pulando e estalando os dedos&lt;br /&gt;em requebros descontrolados;&lt;br /&gt;vozes roucas gritando sambas malucos&lt;br /&gt;e sons esquisitos agarrando&lt;br /&gt;e se enroscando nos nervos dos negros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bairro de negros&lt;br /&gt;chinfrim,&lt;br /&gt;bagunça,&lt;br /&gt;Sarobá.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20990548-4934272984897900015?l=morenocapoeira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/feeds/4934272984897900015/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20990548&amp;postID=4934272984897900015&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/4934272984897900015'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/4934272984897900015'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/2010/04/sobre-saroba-saroba-e-saroba.html' title='Sobre saroba, saróba e sarobá'/><author><name>Moreno capoeira</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20990548.post-7338445698706297591</id><published>2010-03-04T11:17:00.016-03:00</published><updated>2010-03-04T16:33:59.923-03:00</updated><title type='text'>"Três espiãs demais" e a capoeira</title><content type='html'>Àqueles que acompanham o blog, peço desculpas pelo longo intervalo entre as postagens. É que agora venho tendo mais preocupações além da atualização dos textos. Mas nunca deixo de pensar na capoeira. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; O tema da postagem de hoje é a incorporação da capoeira pela indústria cultural. Mais especificamente, por dois desenhos animados que passam pela manhã na TV Globinho, aos quais assisto quase que diariamente. O primeiro deles é "Três espiãs demais" e o outro é "Combo Ninõs".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;  "Três espiãs demais" conta as aventuras de três "patricinhas" adolescentes que estudam numa escola de Beverly Hills e que também são agentes de uma organização secreta que combate o mal em todos os cantos do planeta, a WOOHP, sigla em inglês para Organização Mundial para a Proteção Humana. Lembra um pouco uma versão para crianças do seriado "As panteras", já que as meninas -- cada uma com uma característica física que a define, no caso do desenho uma loura, uma ruiva e uma negra -- possuem um chefe  que as convoca para missões-surpresa num escritório localizado num lugar misterioso. Além de referências a esse seriado dos anos 70/80, existe também uma semelhança dos desenhos com o mangá japonês.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;  Esse desenho é produzido por uma multinacional anglo-francesa do ramo do entretenimento que é composta por 30 empresas produtoras sediadas em 18 países da Europa, além de Estados Unidos, Índia e Brasil. Segundo informações de seu site oficial, a empresa teve um lucro de 400 milhões de euros em 2008. Escrevo esses dados para dar uma idéia do enorme interesse econômico que está envolvido na produção e comercialização do desenho animado, que é apenas um entre as dezenas de produtos daquele conglomerado de empresas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;  Ora, o fato de haver referências à capoeira em um de seus episódios significa que a brincadeira já pode ser reconhecida internacionalmente e que efetivamente já faz parte de um estilo de vida propagandeado pela cultura pop internacional.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;  Pois bem, passo agora a me referir a um determinado episódio a que assisiti no qual um dos ex-agentes da WHOOP rouba o método de ensino de defesa pessoal da central de treinamento da organização, localizada na América do Sul, adpata-o a uma música com poderes hipnóticos e forma um exército de zumbis treinados em artes marciais cujo objetivo é dominar o mundo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;  Uma das imagens que me chamou atenção nesse episódio foi a da forma de treinamento que o vilão utiliza para ensinar defesa pessoal a seus zumbis: ele organizava fileiras com centenas de pessoas, ligava o aparelho de som numa música que era capaz de hipnotizar os aprendizes e demonstrava os movimentos que deviam ser realizados pelos alunos.    &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;  Ora, para bom etendedor, meia palavra basta: uma arte marcial praticada na América do Sul ao som de uma música à qual se atribui poderes hipnóticos só pode ser inspirada na capoeira! E mais interessante ainda é que em tal episódio surgem muitas referências ao mundo da capoeira e à forma como ela é vista tanto pelos seus praticantes como por aqueles que estão de fora: as críticas aos "aulões" com centenas de alunos em praça pública, o "transe capoeirano" ou a transformação dos capoeiristas em autômatos e sua submissão a um mestre carismático são imagens muito recorrentes no nosso discurso sobre a capoeira atual e que também ecoam em tal desenho animado. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;  Ou seja, o argumento desse episódio foi escrito por alguém que soube criar uma história a partir de debates que ocorriam dentro do meio da capoeira, e que soube adaptar algumas idéias desse debate à linguagem da cultura de massas, elaborando uma seqüência de narração minimamente coerente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;  Esse é o preço que se paga por ter conquistado o mundo: acaba-se também conquistado por ele.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;  Na próxima postagem, escrevo sobre o outro desenho, "Combo Niños".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;  Um abraço a todos,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                  Adriano&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20990548-7338445698706297591?l=morenocapoeira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/feeds/7338445698706297591/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20990548&amp;postID=7338445698706297591&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/7338445698706297591'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/7338445698706297591'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/2010/03/aqueles-que-acompanham-o-blog-peco.html' title='&quot;Três espiãs demais&quot; e a capoeira'/><author><name>Moreno capoeira</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20990548.post-4274852859026626364</id><published>2009-11-16T22:48:00.006-03:00</published><updated>2009-11-17T09:35:47.405-03:00</updated><title type='text'>Quanta pretensão, Moreno!</title><content type='html'>Acho que minha postagem anterior se preocupou muito com os elementos negativos -- e minoritários -- de "Besouro", deixando de lado os aspectos positivos. Pois bem, esta postagem vai tentar reparar esse erro comentando alguns dos vários momentos do filme que fazem de Besouro uma realização muito acima da média.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para começar, a cena inicial de mestre Alípio conversando com Besouro marca a intenção do filme. O velho mestre fala:"Nem a ciência cosegue explicar porque esse bicho voa." Ora, para mim, isso funciona no filme de duas maneiras: primeiro, liga a capoeira de Besouro a uma força da sobrenatural, acima da explicação humana, o que se confirma depois com a preparação de Besouro feita pelos Orixás, entes divinos. Segundo, é como que um aviso à platéia: aqui não se trata de ciência, mas de mito e fábula; pois é impossível separar o Besouro "real" do Besouro herói mitológico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É claro que a morte de mestre Alípio corresponde à chamada do herói para a ação que aparece no manual de Christopher Vogler, mas isso não é nenhum demérito do filme, pelo contrário, mostra que o roterista está preocupado em fazer com que a saga universal do herói, presente em todas as civilizações em todas as épocas, ressoe em "Besouro". E isso foi muito bem feito. O que chama Besouro à ação é a necessidade de ele se redimir perante os outros e a si mesmo pela falha na defesa de seu mestre. A cena da morte do mestre nos braços de Besouro também é a cena em que Besouro é escolhido seu sucessor, o que aumenta sua responsabilidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Após isso, Besouro se isola na mata para aprender e refletir sobre suas ações, para se transmutar no líder de seu povo. Essa parece ser a fase em que o herói está na "barriga da baleia", no casulo onde se prepara a sua metamorfose de indivíduo comum para um ser mitológico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A cena em que o pescador tem sua perna quebrada pelos homens de Noca de Antônia também é muito significativa: ele se torna incapaz de jogar capoeira e de defender seu povo. Seu entrevero com Exu, que ocorreu depois de ele ter pisado num despacho, vai mostrar também que ele não tem a simpatia do orixá, algo essencial para alguém que quisesse substituir mestre Alípio. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Após refletir na mata, Besouro recebe uma mensagem de mestre Alípio dizendo que ele está pronto para encontrar seu guia na missão. É aí que Besouro se encontra com Exu na feira. Esse encontro é muito significativo, pois Exu tem uma proximidade muito grande com a capoeira. A luta entre Besouro e Exu é muito bem feita. E aí eu tenho de me retratar: representa sim um drama, como nos filmes de kung fu que lhe servem de inspiração. Mas continuo não gostando da representação do orixá, por ser muito óbvia, greco-romana. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A derrota de Besouro e o reconhecimento de Exu como seu guia, completado no momento em que o herói se ajoelha ao pés da divindade, marca o momento final da preparação do herói. O fornecimento dos super-poderes pelos Orixás e o recebimento da guia de Ogum completa a preparação. Segundo Vogler, esse momento em que o herói recebe a espada, a arma especial, a poção mágica ou o amuleto que o torna invencível é recorrente no mito do herói. Mais uma vez o arquétipo está presente em Besouro, e muito bem trabalhado pelo diretor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na traição de Quero-Quero causada por ciúmes de Dinorá também há uma ressonância do mito. Ora, quem de nós não conhece a história clássica do amigo-que-trai-seu companheiro-e-o-entrega-aos-inimigos-que-o-matam; com essa morte transformando-se em sacrifício mas com a memória do morto continuando a viver sendo uma inspiração para seu povo? Não parece Judas e Jesus? Ou seja, Besouro trabalha com aspectos de uma estrutura narrativa que cativa as pessoas há pelo menos dois mil anos!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim, a luta entre Quero-Quero e Besouro não deixa de ser uma vingança do herói, mas é, principalemtne, o momento em que ele mostra a sua superioridade moral, já que ele poupa o ex-amigo. Aqui cabe outra retratação: o modo como a luta foi filmada é impressionante: muito boa a coreografia, com destaque para a parte em que eles lutam em cima das árvores. O drama que se desenrola tem que ver com a inveja e o ciúme de Quero-Quero por ter perdido dinorá e por Besouro ter se transformado num líder.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aliás, o jogo apaixonado entre Besouro e Dinorá também é muito bom e dramatiza o amor dos dois personagens. A chamada de angola é filmada como se fosse uma valsa dançada pelo casal apaixonado. Assim, parece mesmo que o filme tentou -- e conseguiu -- filmar a capoeira sob um novo olhar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por fim, as encarnações de Besouro depois de morto mostram como o sacrifício do herói não foi em vão. Segundo Vogler, faz parte do arquétipo do herói a vitória  sobre a morte por meio da superação de desafios perigosíssimos ou por meio da sobrevivência da sua memória entre seu povo. E as cenas em que Besouro encarna o corpo de seus amigos para que eles lutem contra as injustiças raciais são fantásticas e se coadunam muito bem com as religiões afro-brasileiras, que são, afinal, cultos de possessão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como ponto fraco do filme, continuo a destacar as telas escritas que situam a história num lugar muito determinado no tempo e no espaço, bem como fazem o mito decair citando datas pontuais como 1924, 1937, 1953. Ora, o mito não tem idade nem lugar, o que torna essa localização muito minuciosa desnecessária. Getúlio Vargas e sua legalização da capoeira só fazem desvalorizar o mito. Afinal de contas, Getúlio era só um homem.    &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É isso aí. Aqueles que acompanham as minhas postagens devem estar pensando: "Esse cara é um maluco esquizofrênico, num intervalo de poucos dias escreveu duas críticas contraditórias sobre o mesmo filme." Pois é, percebi que tenho um "espírito de porco" muito desenvolvido que tende a achar ruins muitos desenvolvimentos recentes que têm que ver com a capoeira. Talvez por ter lido um pouco sobre o brinquedo, começo a achar que sou dono dele. Coitado de mim! Quanta pretensão! Só espero que continuem a existir leitores do blog que me façam "baixar a bola" um pouco mais. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um abraço a todos,&lt;br /&gt;                               Adriano&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20990548-4274852859026626364?l=morenocapoeira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/feeds/4274852859026626364/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20990548&amp;postID=4274852859026626364&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/4274852859026626364'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/4274852859026626364'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/2009/11/quanta-pretensao-moreno.html' title='Quanta pretensão, Moreno!'/><author><name>Moreno capoeira</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20990548.post-4270456229683576489</id><published>2009-11-11T14:52:00.005-03:00</published><updated>2009-11-13T11:54:39.313-03:00</updated><title type='text'>Besouro, o filme</title><content type='html'>Fui ver ontem o "Besouro" e gostei do filme. Não se trata de uma biografia do personagem histórico, mas sim de uma tentativa de se fazer um filme de herói a partir de um personagem mítico do universo afro-brasileiro. Assim, o filme não tem muita coisa que ver com a pequena biografia que o historiador Liberac Pires escreveu sobre o Besouro. Na verdade, ele se baseia no romance de ficção "Feijoada no paraíso", de Marco Carvalho. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isso explica o fato de o filme estar mais ligado ao imaginário popular sobre Besouro. Aí, ele é o herói cujos poderes lhe foram oferecidos pelos orixás, o exímio capoeirista de corpo fechado que lutava contra as injustiças sociais e o racismo. Também é necessário dizer que essa imagem não foi criada somente pela cultura popular. A identificação de Besouro como um campeão das causas sociais pelo pensamento de setores da esquerda brasileira nos anos 60, além da própria expansão da prática da capoeira, contribuíram para a divulgação e o acolhimento desse mito pelas várias camadas sociais do Brasil e do mundo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O filme traz ressonâncias do "faroeste italiano" e dos modernos filmes de "kung fu", o que em si não significa boa ou má qualidade da história. Pude identificar muitos ingredientes que funcionam em filmes de heróis: a demarcação nítida, sem zonas cinzentas entre o bem e o mal; a construção do herói depois de os vilões assassinarem uma pessoa importante para ele e seu grupo social; a missão de defender um povo ingênuo e atrasado que não possui coragem de lutar; o aprendizado da luta com um mestre. A origem sobrenatural de seu poder e a transformação do herói em inspiração de auto-confiança e coragem para seu povo após sua morte em sacrifício são outros ingredientes heróicos. É claro que não faltam um antagonista; um amigo traidor que revela o ponto fraco do herói e um par romântico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alguns críticos apontam que alguns ingredientes dessa fórmula poderiam ser mais bem trabalhados, como uma luta final mais aguerrida entre Besouro e o Coronel e uma maior quantidade de cenas de luta, que deveriam ser mostradas como um drama coreografado, tal como nos filmes atuais de kung fu. Me pergunto se isso não aconteceu porque o cinema ainda não desenvolveu um modo inovador de se filmar a capoeira. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acho que eu teria certa relutância em aceitar um filme de capoeira seguindo as receitas do cinemão. Mas parece mesmo faltar uma filmagem empolgante da capoeira no cinema. Deveria o filme se inspirar no jogo entre Nestor Capoeira e Camisa em "Cordão de Ouro" ou em Lázaro Ramos no "Madame Satã"? O curioso é que já existem ótimas narrações de jogo escritas por cronistas-capoeiristas, como Nestor Capoeira, Itapoã e até por um capoeirista estadunidense, o Greg Downey, todas enfatizando a malícia e as reviravoltas do jogo. Também existem algumas cantigas de desafio que fazem aflorar a tensão nas rodas em que são cantadas. Mas creio que transpor essa atmosfera para a telona, fugindo do exotismo deve ser "outros quinhentos".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Concordo com as críticas que acharam desnecessárias a voz de fundo de Milton Gonçalves e as telas escritas -- do tipo: "Recôncavo Baiano, 1924 - a escravidão foi abolida mas os negros continuam a ser tratados como escravos" ou "a capoeira foi legalizada em 1953"(sic). Elas pecam por serem muito didáticas, pois a platéia pode facilmente deduzir isso a partir das imagens. E mais, já que o filme é sobre o mito, e o tempo mítico está fora da história, a saga de Besouro não precisaria ser situada. Colocar o nascimento do herói mítico de um povo ao lado do ato mundano de reconhecimento da capoeira por Getúlio Vargas é privar a história de sua dimensão mágica. É a desvalorização do mito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Também pecam por didatismo alguns diálogos, como o de Exu com Besouro na feira. Achei fantástica a aparição do orixá "trickster" no ambiente ao qual ele pertence, que é o mercado, onde acontece a comunicação entre os homens, os entendimentos e desentendimentos; onde se abre a possibilidade de enganar, ser enganado ou entrar em acordo. Mas Exu não precisava anunciar quem era: mesmo quem não conhece a mitologia do candomblé saberia que aquele ser era sobrenatural. Talvez a causa desse didatismo seja a intenção de tornar Besouro mais inteligível para um mercado de não-capoeiristas brasileiros e estrangeiros. Mas isso não justifica pressupor a ignorância de um público habituado a assisitir filmes de aventura desde a infância.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Também gostei muito das cenas que utilizam o ponto de vista  da primeira pessoa (não sei expressar isso em termos de cinema) para dar a noção que Besouro encarnou no corpo de animais. Outro aspecto que me agradou foi a escolha do ator principal, pois além de estar muito bem no papel, ele é a cara do mestre Bimba quando jovem. E isso, para quem é capoeirista, reforça a característica mitológica do fime: pensamos estar assisitindo à reencarnação de Besouro e de Bimba num mesmo personagem. Arrepiante!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em resumo, o resultado geral é bom, apesar de alguns tropeços que talvez tenham a ver com a dificuldade de adaptação de um tema do imaginário popular afro-brasileiro ao padrão da cultura pop internacional e com o pequeno desenvolvimento de técnicas de filmagem que façam justiça à capoeira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Logo a seguir, cito os link para algumas críticas especializadas ao fime.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;http://www.omelete.com.br/cine/100023119/Critica__Besouro.aspx&lt;br /&gt;http://cinema.cineclick.uol.com.br/criticas/ficha/filme/besouro/id/2272&lt;br /&gt;http://mnemoteca.blogspot.com/2009/10/critica-besouro-se-esquiva-das.html&lt;br /&gt;http://www.cafecompop.com/2009/11/critica-de-filme-besouro-2009/&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um abraço a todos,&lt;br /&gt;                                  Adriano&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20990548-4270456229683576489?l=morenocapoeira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/feeds/4270456229683576489/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20990548&amp;postID=4270456229683576489&amp;isPopup=true' title='8 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/4270456229683576489'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/4270456229683576489'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/2009/11/besouro-o-filme.html' title='Besouro, o filme'/><author><name>Moreno capoeira</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>8</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20990548.post-5614087774349283604</id><published>2009-08-14T15:00:00.006-03:00</published><updated>2009-08-14T17:15:57.634-03:00</updated><title type='text'>A desprogramação da capoeira</title><content type='html'>Caros leitores, a palavra-chave da postagem de hoje é &lt;i&gt;desprogramação&lt;/i&gt;. Há alguns anos, assisti a uma palestra do mestre Luiz Renato sobre a história da capoeira. Sua apresentação começava com aquelas imagens -- já muito conhecidas  no nosso meio -- da &lt;i&gt;ladja&lt;/i&gt; na Martinica. O mestre associava tais imagens a um passado pré-sistematização da capoeira, quando ela era tida como um contraponto popular à cultura de elite e à civilização de matriz européia que eram modelos no Brasil até o começo do século passado. A capoeira não sistematizada era "subversiva".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De fato, alguns autores chegam a defender que a vadiação era um ritual temporário de inversão das hierarquias sociais, um momento em que a cooperação entre dominados e dominadores, pobre e ricos, negros e brancos era representada como frágil, podendo ser substituída a qualquer momento pela confrontação violenta e repentina. A capoeira seria, então, um ritual que desmascarava a sociedade brasileira: se fora da roda o confronto estava escondido sob o disfarce da cooperação, dentro dela, era mostrado o lado perverso da realidade: o confronto aparece como sua característica fundamental, colocando a cooperação em segundo plano. Seria algo como o ritual de tomada de consciência da própria dominação encenado pelas classes populares. Um folguedo que estaria longe de ser o ópio do povo. Uma forma simbólica de subversão da ordem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O pertencimento da capoeira à esfera da cultura popular estaria simbolizado nos movimentos de inversão e nos momentos do jogo em que os corpos dos dois camaradas parecem se acoplar, tornando seus limites indistinguíveis. As inversões do alto e do baixo, da frente e das costas – presentes nos seus movimentos -- do sagrado e do profano, do masculino e do feminino – presente nas suas cantigas -- simbolizariam algo próximo de um potencial revolucionário da vadiação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Existem inclusive alguns estudiosos que observam que a capoeira, depois de suas sucessivas sistematizações, perdeu seu caráter ameaçador, tendo sido domesticada. É que a sistematização, que foi essencial para a sobrevivência do brinquedo, se abriu alguns caminhos, fechou outros. A pernada e o samba duro jogados pelos malandros cariocas se extinguiram, as rodas de largo e das docas e os barracões baianos também. E não se trata de uma lamentação feita por um passado. É apenas uma constatação. Hoje somos regionais ou angoleiros, sarobas ou sarados, contemporâneos, do grupo A ou do grupo B. Grande parte de nossos treinos são repetições de movimentos marcados feitos em academias. Hierarquias e formas sutis de dominação foram trazidos para dentro da roda. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É por isso que vejo com bons olhos algumas pequenas coisas que acontecem na vadiação. Alguns treinos que desmontam o esquema ao qual estamos acostumados: uma roda onde toque não é angola, são bento grande ou outro qualquer, mas o samba de roda; onde a ginga não é aquela coisa marcada, mas os passos de dança de onde devem partir os golpes. De repente falta um pouco isso na capoeira, deixar de repetir os clichês torná-la novamente alegre, imprevisível, ou, como disse um velho mestre: "mais perigosa e menos violenta".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi por isso que achei interessante um vídeo recente sobre o mestre Lua Rasta: a desprogramação, a mistura e a brincadeira parecem estar vivas no modo como ele concebe o seu grupo. Capoeira, samba de roda, bumba-meu-boi, burrinha e o escambau fazem parte de sua roda. Mestre Lua se diz ridicularizado por alguns mestres, mas ele parece não se importar. É isso que parece nos faltar nos dias de hoje: uma capoeira que ridiculariza a si mesma. Pois o ridículo é uma forma de enfrentamento contra o enrijecimento sistemático.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não vou dizer que me sinto totalmente à vontade com o rompimento da zona de conforto exigido por toda a desprogramação. Toda a novidade demora para ser internalizada, e nem sempre o é. Espero permanecer sensível ás desprogramações que existem nesse mundo, não só na capoeira, mas também fora dela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um abraço a todos,&lt;br /&gt;                           Adriano  &lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20990548-5614087774349283604?l=morenocapoeira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/feeds/5614087774349283604/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20990548&amp;postID=5614087774349283604&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/5614087774349283604'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/5614087774349283604'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/2009/08/desprogramacao-da-capoeira.html' title='A desprogramação da capoeira'/><author><name>Moreno capoeira</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20990548.post-3070311214847581491</id><published>2009-05-15T16:59:00.004-03:00</published><updated>2009-06-03T10:34:35.972-03:00</updated><title type='text'>Capoeira Regional: geração espontânea? (2ª parte)</title><content type='html'>&lt;o:smarttagtype name="PersonName" namespaceuri="urn:schemas-microsoft-com:office:smarttags"&gt;&lt;/o:smarttagtype&gt;&lt;object id="ieooui" classid="clsid:38481807-CA0E-42D2-BF39-B33AF135CC4D"&gt;&lt;/object&gt;&lt;style&gt; st1\:*{behavior:url(#ieooui) } &lt;/style&gt;&lt;br /&gt;&lt;style&gt; &lt;!--  /* Style Definitions */  p.MsoNormal, li.MsoNormal, div.MsoNormal  {mso-style-parent:"";  margin:0cm;  margin-bottom:.0001pt;  mso-pagination:widow-orphan;  font-size:12.0pt;  font-family:"Times New Roman";  mso-fareast-font-family:"Times New Roman";} @page Section1  {size:595.3pt 841.9pt;  margin:70.85pt 3.0cm 70.85pt 3.0cm;  mso-header-margin:35.4pt;  mso-footer-margin:35.4pt;  mso-paper-source:0;} div.Section1  {page:Section1;} --&gt; &lt;/style&gt;&lt;br /&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; text-indent: 35.45pt; text-align: justify;"&gt;É claro que tanto a concepção de esporte de Bimba quanto a de Pastinha foram interpretações singulares da concepção elitista de esporte nas quais se inspirava o projeto da Ginástica Nacional de Zuma. Basta ler os escritos de Pastinha e os testemunhos dos alunos de Bimba para percebermos isso. &lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; text-indent: 35.45pt; text-align: justify;"&gt;O projeto da Ginástica Nacional tinha que ver com a formação de jovens de corpos sãos e mentes sãs. Esse projeto distanciava a capoeiragem carioca das suas origens afro-brasileiras, mas era nacionalista. Tinha o objetivo de criar uma ginástica brasileira, em contraposição com a sueca e a francesa, tendo o boxe inglês como modelo. A capoeira teria a função eugênica, higienista e civilizatória de melhorar o físico e o psíquico do povo brasileiro, tornando-o saudável e confiante nas suas capacidades e formando uma geração que colocaria o país no rol das nações civilizadas e desenvolvidas. É importante salientar que, subordinado ao ideal de progresso civilizatório, estava presente nesse projeto uma valorização indireta do malandro e do mestiço brasileiros como os inventores da luta.&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; text-indent: 35.45pt; text-align: justify;"&gt;Essa função da capoeira como projeto civilizatório também está, em algum grau, contemplada nas sistematizações de Bimba e Pastinha. Ambos se utilizaram da brecha aberta pelo projeto da ginástica brasileira para obterem o reconhecimento da arte que praticavam. Porém, em suas escolas aquela idéia convivia – contraditoriamente, até -- com visões de mundo do universo afro-brasileiro e popular próprias do meio cultural em que viviam aqueles mestres. Assim, os dois projetos baianos de capoeira foram produtos culturais híbridos. Neles, o negro não era apenas o inventor, mas a fonte da visão de mundo que explicava o brinquedo.&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; text-indent: 35.45pt; text-align: justify;"&gt;Assim, podemos dizer que a visão de mundo da capoeira regional é muito marcada pela idéia de que o perigo pode estar à espreita em todos os lugares; por isso o capoeirista teria de estar em estado de permanente &lt;b&gt;prontidão&lt;/b&gt;, ou seja, ele deveria ser capaz de intuir e antecipar, de maneira quase mística, os perigos que se apresentam tanto dentro quanto fora da roda de capoeira. Essa prontidão era &lt;b&gt;maliciosa&lt;/b&gt;, pois nas palavras do mestre Bimba, &lt;b&gt;“capoeira é maldade”&lt;/b&gt;. Desenvolvendo a faculdade da prontidão, o capoeirista estaria sempre preparado para lidar com qualquer cilada que encontrasse, pois saberia se defender de maneira que sempre sairia &lt;st1:personname productid="em vantagem. Encontrei" st="on"&gt;em vantagem. Encontrei&lt;/st1:personname&gt; muitas referências à prontidão nas parábolas do mestre Bimba citadas pelo Dr. Decânio.&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; text-indent: 35.45pt; text-align: justify;"&gt;Já a visão da capoeira pastiniana parece ter a ver com o fluir de duas forças contraditórias que formam o mundo, pois a capoeira seria &lt;b&gt;negativa e positiva&lt;/b&gt;, mas ao mesmo tempo, &lt;b&gt;“tudo o que a boca come”&lt;/b&gt;. O contínuo fluir desses opostos explicaria tanto os movimentos dos capoeiras dentro da roda como as ações humanas fora dela. Nessa visão da brincadeira, aparecem as ambigüidades: a cooperação e a traição, a camaradagem e a malícia, já que no universo afro quem come “tudo o que a boca come” é Exu, o orixá tradutor e traidor que se encarrega da comunicação entre os homens e os deuses; responsável pelos desentendimentos e ciladas que encontramos na roda da vida e na roda de capoeira.&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; text-indent: 35.45pt; text-align: justify;"&gt;É claro que essas concepções de capoeira foram reinterpretadas de muitas maneiras. Nos anos 60, o surgimento da regional-senzala. Nos anos 80, a volta da capoeira angola. Nos anos 90, a resposta dos megagrupos. Tudo isso articulado com a permanência de estilos locais e com a internacionalização do brinquedo. Na verdade, a capoeira parece ultrapassar qualquer concepção que seus praticantes elaboram sobre ela. Nenhuma delas a explica definitivamente nem esgota futuras interpretações.    &lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; text-indent: 35.45pt; text-align: justify;"&gt; &lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; text-indent: 35.45pt; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; text-indent: 35.45pt; text-align: center;"&gt;Adriano "Moreno"&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt; text-indent: 35.45pt; text-align: justify;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20990548-3070311214847581491?l=morenocapoeira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/feeds/3070311214847581491/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20990548&amp;postID=3070311214847581491&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/3070311214847581491'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/3070311214847581491'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/2009/05/capoeira-regional-geracao-espontanea-2.html' title='Capoeira Regional: geração espontânea? (2ª parte)'/><author><name>Moreno capoeira</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20990548.post-3281446273761015577</id><published>2009-04-07T14:12:00.011-03:00</published><updated>2009-05-19T11:03:40.569-03:00</updated><title type='text'>Capoeira Regional: geração espontânea?</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Outro dia estive num evento de capoeira aqui no DF onde assisti à palestra de uma grande figura da capoeira regional, um aluno de mestre Bimba reconhecido mundialmente como um de seus maiores herdeiros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A palestra foi sobre a história da capoeira regional e foi muito interessante, inclusive com a exposição de fotos das academias de mestre Bimba em Salvador e em Goiânia (estas últimas, garimpadas por dois camaradas lá do Tocantins), das emboscadas e de eventos e apresentações promovidas pelo Mestre Bimba.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porém, essa grande figura -- e parece que todos ligados à escola de Manoel dos Reis Machado -- expõem a história da capoeira regional como desligada da história da penetração do esporte e das lutas no Brasil. Por exemplo, hoje em dia, já sabemos que o projeto de  transformação da capoeira numa Ginástica Nacional  já existia no Rio de Janeiro pelo menos desde o começo do século XX e teve em Aníbal Burlamaqui (o Zuma) o seu principal sistematizador. Tal projeto é anterior ao da Luta Regional Baiana, de mestre Bimba, tendo sido uma das fontes de inspiração do velho mestre e de seus primeiros alunos. Inclusive o próprio nome "Regional" teria a ver não só com com a contraposição ao  nome "Capoeira Angola" mas também, e principalmente, ao "Nacional" da capoeiragem de Zuma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outro exemplo, sabe-se que mestre Bimba deu aulas no Curso de Preparação de Oficiais do Exército de Salvador. Seria possível que ele não tenha sofrido infuência da concepção higienista da educação física presente no meio militar brasileiro naquela época? Parece que o próprio curso de emboscadas surgiu como uma adaptação de exercícios militares.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Negar esses dois fatos é ignorar que as invenções não surgem do nada, que os verdadeiros criadores estão sempre dialogando com heranças de outros tempos e espaços. Enfatizar a originalidade da capoeira regional sem citar referências ao meio esportivo dentro do qual ela surgiu não permite que nos aproximemos do lado humano de um gênio como mestre Bimba, pois apaga o fato de que ele estava a par de muitas das inovações esportivas da época e interpretou-as segundo uma lógica muito particular de um membro das classes populares brasileiras de cultura afro, realizando, assim, um trabalho criativo singular.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao diminuir o papel da ginástica nacional da história da capoeira regional, aquele mestre estabelece que haveria uma "pureza" na criação desse estilo. E através desse discurso, tal mestre se coloca como uma espécie de guardião da regional, função que justificaria o seu prestígio no meio da capoeira. Seu discurso é, assim, uma forma de manter e exercer seu poder não só sobre outros mestres e alunos -- que o convidam para dar palestras em seus batizados -- mas também sobre qualquer pessoa que busca conhecer mais a fundo a história da capoeira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20990548-3281446273761015577?l=morenocapoeira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/feeds/3281446273761015577/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20990548&amp;postID=3281446273761015577&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/3281446273761015577'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/3281446273761015577'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/2009/04/capoeira-regional-geracao-espontanea.html' title='Capoeira Regional: geração espontânea?'/><author><name>Moreno capoeira</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20990548.post-7220239644238723655</id><published>2009-03-19T11:00:00.001-03:00</published><updated>2009-03-19T11:02:33.950-03:00</updated><title type='text'>Link para um site sobre bungee jump</title><content type='html'>Para quem quer ter mais informações sobre as origens do bungee jump, segue um link.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;http://360graus.terra.com.br/bungeejump/default.asp?did=76&amp;amp;action=historia&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um abraço a todos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20990548-7220239644238723655?l=morenocapoeira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/feeds/7220239644238723655/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20990548&amp;postID=7220239644238723655&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/7220239644238723655'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/7220239644238723655'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/2009/03/link-para-um-site-sobre-bungee-jump.html' title='Link para um site sobre bungee jump'/><author><name>Moreno capoeira</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20990548.post-5237331800385577958</id><published>2009-03-11T11:02:00.006-03:00</published><updated>2009-03-11T12:23:54.500-03:00</updated><title type='text'>Capoeira: esporte pós-moderno?</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Lembro de ter visto há alguns anos um documentário no History Channel sobre alguns ritos de passagem em sociedades tradicionais que ainda sobrevivem, acho que na Polinésia. Achei interenssantíssimo que uma das cerimônias mostradas era uma espécie de bungee jump tradicional. Era um ritual restrito aos homens da tribo: cada um deles trançava os cipós que amarrariam em seus pés para segurar a queda e pulavam de plataformas também feitas por eles ao que parece segundo sua idade e status na tribo -- quanto maior a altura da plataforma de que se pulava, maior o status do homem. Para serem considerados homens adultos, os meninos do grupo tinham que passar pela prova, saltando da menor altura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que me deixa entusiasmado é que o bungee jump é identificado hoje em dia como um esporte pós-moderno, no sentido de que o mais importante em sua prática não é tanto a competição e a medição da performance mas a sensação de bem-estar ou de vertigem causada pelo momento de queda livre, pelas acrobacias realizadas no elástico e pelo movimento de ioiô experimentado pelo seu praticante. Como aconteceu com outros esportes como o futebol e o rugbi, parece que as sociedades avançadas se apropriaram de um ritual ou jogo tradicional e lhe deram outro significado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outros esportes com as mesmas características do bungee jump estão crescendo em popularidade em todo o mundo como o skate ou o le parkour. Existe também aquele tipo de para-quedismo em que a pessoa salta de prédios em cidades grandes aproveitando ao máximo a fase da queda livre -- inclusive utilizando trajes especiais para controlá-la e aumentar a sua duração.  Vi no Esporte Espetacular um dia desses um cara que quase se arrebentou no Cristo Redentor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A expansão da capoeira não estaria também ligada a essa tendência? Como já escrevi numa outra postagem, a vertigem faz parte da natureza mesma da capoeira: autores como Dr. Decânio falam do transe capoeirano favorecido pela música; além disso, as inversões -- potenciais causadoras de perda de consciência -- estão presentes em quase todos os movimentos da brincadeira: a frente pelas costas na armada, na queixada e na meia-lua de compasso; o alto pelo baixo no aú, na bananeira e no macaco, por exemplo. E mais, na capoeira a quantificação dos resultados, apesar de já ter sido e ainda estar sendo feita em competições, é muito difícil e para grande parte dos seus praticantes, acaba por tornar o jogo mais unidimensional e pasteurizado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O crescimento da capoeira angola a partir dos anos 80 e a resposta de grupos multinacionais com a criação de estilos como o miudinho e a benguela não podem ser interpretados como uma reação à quantificação da vadiação e à sua esportivização?  Não seriam tentativas de uma interpretação pós-moderna de uma atividade corporal popular? Uma sensação irracional de bem-estar e de abandono através da música e da realização de movimentos estranhos ao dia-a-dia, além da sensação de pertencimento a um grupo e a uma história ancestral num mundo em que tudo o que é sólido desmancha no ar podem muito bem estar por trás do crescimento do brinquedo pelo mundo. A vantagem é que pelo menos não corremos o risco do para-quedas não abrir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um abraço a todos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ps.: Um exemplo da aversão à competição e à quantificação  por parte de um esporte pós-moderno, no caso o parkour,  pode ser visto no seguinte endereço:&lt;br /&gt;http://www.leparkourbrasil.com.br/base.php?pag=artigos&amp;amp;cod=221&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20990548-5237331800385577958?l=morenocapoeira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/feeds/5237331800385577958/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20990548&amp;postID=5237331800385577958&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/5237331800385577958'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/5237331800385577958'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/2009/03/capoeira-esporte-pos-moderno.html' title='Capoeira: esporte pós-moderno?'/><author><name>Moreno capoeira</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20990548.post-4787084185915836441</id><published>2008-12-31T10:59:00.007-03:00</published><updated>2009-01-05T14:25:04.695-03:00</updated><title type='text'>O guerrilheiro da capoeira</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Depois de um longuíssimo período sem atualizar o blog, volto a escrever para dar vazão a uma impressão muito interessante que tive ao visitar o Forte da Capoeira em Salvador em meados desse ano. Eu e mais um camarada assistimos a uma aula do mestre Moraes naquele local e a primeira coisa que me chamou a atenção foi a bandeira de Angola estendida numa viga do teto, pendendo no centro da sala.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Achei que esse fato tinha um simbolismo muito importante dentro trabalho do mestre, pois evoca não só as origens africanas da capoeira mas também ressalta um aspecto de rebeldia que parece ser central na concepção de capoeira de mestre Moraes, pois a bandeira de Angola simboliza uma luta anti-colonial e socialista, evocando assim ideais de internacionalismo e de emancipação do homem através da prática do brinquedo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esse aspecto de rebeldia e de contestação da ordem ficou claro para nós quando da conversa que tivemos com o mestre no final de sua aula. Diga-se de passagem que a aula de capoeira -- que nós apenas assistimos -- durou mais ou menos uma hora; a roda, mais uma e a troca de idéias entre mestre e alunos depois da roda -- comentando os fatos que aconteceram no dia --mais outra. Além disso, a conversa que tivemos com o mestre durou pelo menos 40 minutos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O que quero dizer aqui é que pela sua disposição para a conversa e pelo conteúdo e forma da mesma, posso classificar o mestre Moraes como um líder guerrilheiro da capoeira, cujo papel seria o de sempre desconfiar das armadilhas da domesticação do brinquedo. Por exemplo, ele foi o único dos mestres com quem falamos que encarou a declaração da capoeira como patrimônio cultural algo que poderia ser nocivo por enfraquecer sua independência frente aos poderes constituídos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Na conversa do final da roda, o mestre explicitou aos alunos a sua visão pedagógica da capoeira. Esse tema foi suscitado porque, durante a aula uma de suas alunas -- uma menina de uns dez ou onze anos -- , por algum motivo que não percebi, desistiu de participar do treino e foi dispensada um pouco rispidamente pelo mestre.  Esse acontecimento deu margem para que fosse debatido desde a metodologia de aula de capoeira até o sistema educacional brasileiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em determinado ponto da sua conversa com os alunos, Moraes defendeu a necessidade de o capoeirista de seu grupo ter formação universitária, transformando-se num militante e ideólogo da capoeira angola.  Percebi que de um graduado do GCAP não se exige apenas habilidade no jogo, mas também a capacidade de agir e argumentar no debate no meio capoeirístico em defesa de uma capoeira que evoca origens africanas e idéias de resistência e contestação social.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em suma, uma maneira militante de se comprometer com o brinquedo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Um abraço a todos e um feliz 2009.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;                                                                               Moreno&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20990548-4787084185915836441?l=morenocapoeira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/feeds/4787084185915836441/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20990548&amp;postID=4787084185915836441&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/4787084185915836441'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/4787084185915836441'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/2008/12/depois-de-um-longussimo-perodo-sem.html' title='O guerrilheiro da capoeira'/><author><name>Moreno capoeira</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20990548.post-1479250247883721908</id><published>2008-04-30T11:02:00.007-03:00</published><updated>2008-04-30T12:03:04.028-03:00</updated><title type='text'>Degeneração de uma certa angola?</title><content type='html'>Há algum tempo, li uma ótima biografia do mestre Bimba que dizia que a regional tinha sido uma reação do mestre a "uma certa capoeira angola" que estava se degenerando. Essa afirmação parece ter sido adotada também no recente documentário sobre mestre Bimba: o batuque e a capoeira baiana tradicional estavam em decadência e o mestre Bimba acabou modernizando-os e salvando-os do esquecimento e da extinção.&lt;br /&gt;Ora, recentemente estudiosos vêm  argumentando que a capoeira regional do mestre Bimba estava inserida numa realidade muito mais ampla do que a do Recôncavo Baiano: dialogava com o projeto carioca da Ginástica Nacional e, em última instância, estava ligada à expansão do esporte moderno pelo mundo.&lt;br /&gt;Não nos enganemos, o esporte moderno é uma invenção recente, data da Inglaterra do final do século XVIII, pois foi lá que esportes populares tradicionais receberam regras: a caça à raposa,  o cricket, o boxe, o futebol, o rugbi são produtos da sistematização levada a cabo pelas camadas mais ricas daquele país. O rugby e o futebol tiveram suas regras estabelecidas em meados do século XIX nas escolas burguesas de Rugby, Enton e outras. Estava implícita nesses projetos uma tentativa de "civilização" e "higienização" dessas atividades tradicionais. Tais esportes deveriam formar uma classe de homens viris e autoconfiantes, capazes de dirigir o país e suas colônias.&lt;br /&gt;Essa obsessão pela higienização dos esportes tradicionais chegou ao Brasil no começo do século XX e foi aplicada à capoeira. Existem vários escritos, como os de Melo de Morais Filho e os de Aníbal Burlamaqui, citados por Líbano Soares na &lt;em&gt;Capoeira Escrava, &lt;/em&gt;defendendo a criação de um esporte nacional. Tal esporte não poderia ser afro, deveria fazer parte de um projeto higienista, eugenista e embranquecedor do brasileiro.&lt;br /&gt;É nesse contexto que o discurso da degeneração da vadiação baiana em presepada precisa ser enxergado. A vadiação tradicional praticada pela camadas populares nos intervalos de trabalho no porto, nos largos das igrejas nos dias de festa e nas reuniões de domingo ao lado dos botequins não se aplicava bem à idéia de um esporte genuinamente nacional.&lt;br /&gt;A ginástica nacional dos  mestres cariocas Zuma e Sinhozinho de Ipanema, sistematizada nos anos 1920 seguia essa linha higienista mais pronunciada. A capoeira regional do mestre Bimba segue uma linha diversa, mas influenciada por aquela outra, dado que tanto ele como seus alunos conheciam as regras sistematizadas por Zuma e compartilhavam, em alguma medida, do desejo de esportivização. O contato dos universitários de origem burguesa com mestre Bimba gerou um produto híbrido, uma concepção afro e popular de esporte que traçaria os rumos do desenvolvimento futuro da brincadeira.&lt;br /&gt;Um abraço a todos,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                                                                  Adriano "Moreno"&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20990548-1479250247883721908?l=morenocapoeira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/feeds/1479250247883721908/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20990548&amp;postID=1479250247883721908&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/1479250247883721908'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/1479250247883721908'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/2008/04/degenerao-de-uma-certa-angola.html' title='Degeneração de uma certa angola?'/><author><name>Moreno capoeira</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20990548.post-3359326770770930862</id><published>2008-04-07T11:38:00.002-03:00</published><updated>2008-04-07T14:15:56.428-03:00</updated><title type='text'>Ossos do ofício</title><content type='html'>O presente artigo vai na linha da postagem anterior. Nesse fim de semana, houve um evento aqui em Brasília do qual participaram alguns camaradas de Palmas-TO. Depois de uma oficina e uma palestra, eu e aqueles camaradas fomos fazer um 'papoeira', regado com alguns copos de cerveja. Talvez um pouco incomodado com a postura meio arrogante do palestrante que acabara de falar-- um estudioso cujos dotes capoeirísticos ele colocava em dúvida -- um dos colegas levantou a seguinte idéia: "Em última instância, o capoeirista vale pelo seu jogo, não existe respeito entre dois capoeiristas se o jogo dos dois não se equivale dentro da roda".&lt;br /&gt;Surgiu daí um debate interessante, pois os outros membros da mesa começaram a relativizar essa noção. É claro que o prestígio de um capoeirista é construído principalmente dentro da roda, mas suas relações fora dela importam muito. O fato de um mestre ou professor ter um trabalho importante e possuir contatos dentro do meio capoeirístico (ou até de fora dele: o acesso ao poder público ou ao financiamento privado, por exemplo) faz com que seu nome seja mais respeitado no nosso meio.&lt;br /&gt;De fato, parece que a partir de um determinado momento, entrar numa roda de capoeira deixa de ser somente diversão e passa a ser também meio de estabelecer vínculos profissionais e de "fazer um nome" dentro do ambiente da vadiação. Daí a importância que a freqüência a batizados e formaturas adquiri para mestres, professores e graduados que ambicionam fazer carreira.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20990548-3359326770770930862?l=morenocapoeira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/feeds/3359326770770930862/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20990548&amp;postID=3359326770770930862&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/3359326770770930862'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/3359326770770930862'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/2008/04/ossos-do-ofcio.html' title='Ossos do ofício'/><author><name>Moreno capoeira</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20990548.post-7659533910491833316</id><published>2008-03-21T00:36:00.003-03:00</published><updated>2008-03-21T01:22:29.774-03:00</updated><title type='text'>Capoeira: carisma e poder</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Hoje estive numa roda muito bacana no clube onde treino aqui em Brasília. O jogo fazia parte de uma comemoração da Semana Santa, mas em alguns momentos o pessoal não foi muito católico. Houve alguns jogos mais duros e, por azar, era eu que estava no pé do berimbau  quando eles aconteceram. O mestre -- um pouco rispidamente -- deu uma bronca dizendo que era eu que deveria comprar o jogo, interrompendo o clima violento. Ora, não achei que tinha condições de comprar com os graduados que estavam jogando: primeiro porque não possuía grau hierárquico correspondente ao dos dois camaradas; segundo porque não teria condições de manter o ritmo de jogo mantido pela dupla; terceiro porque tudo isso acarretou insegurança na hora de entrar na roda. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;No final do evento, fui conversar com o mestre. Falei justamente isso: eu nunca compraria aquele jogo de um graduado que estava jogando duro com outro camarada do mesmo grau hierárquico. Eu iria passar por alguém que estava querendo aparecer, ou cortar o clima do jogo, gerando um anticlímax. Para acabar com o jogo violento, não seria mais indicado que o próprio mestre, valendo-se do seu poder dentro do grupo, interrompesse o jogo dos dois camaradas? A bronca pública que o mestre me deu não seria uma forma de ele mesmo se furtar a assumir a sua responsabilidade na condução da roda? A resposta dele foi a de que era necessário que o aluno desenvolvesse atitude. Mas o mestre não teria também que ter a atitude de interromper um jogo que extrapolou os limites da brincadeira?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Entendo o raciocínio que está por trás dessas palavras: o aluno que já possui algum tempo de capoeira deve ter a iniciativa de comprar um jogo violento. Mas essa compra de jogo seria bem vista no jogo de poder que está por trás de uma roda de capoeira?  E se o aluno não quiser chamar a atenção sobre si, negando-se a entrar nessa mesma disputa de poder?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Existe uma concepção de maestria que tem como requisito principal para o reconhecimento do neófito não apenas a capacidade técnica, mas também a habilidade para conduzir um evento da melhor maneira possível. O poder tradicional e carismático do mestre não entra em contradição com a democracia na condução da roda? É claro que nem todos os mestres são iguais: eles se utilizam do carisma -- que é a base de seu poder -- de maneiras diferentes. Um mestre "paizão" pode desenvolver um método de ensino muito mais democrático do que um mestre inseguro quanto à sua situação. O mestre Pombo sempre dizia: " onde não há ordem, existe o caos". Essa questão do reconhecimento do mestre é interessantíssima, pois o mesmo mestre pode ser reconhecido num ambiente e não em outro.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O carisma é fundamental para um mestre de capoeira, e pode levar ao autoritarismo, a uma condução perfeita de roda e até mesmo à modificação da vida do aluno (é só ver os depoimentos dos alunos de mestre Bimba sobre a figura de seu mentor). Essa questão da política da capoeira é interessantíssima: padrões tradicionais e carismáticos de poder entram em conflito com padrões burocráticos e modernos. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Um abraço a todos, e feliz Páscoa!&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20990548-7659533910491833316?l=morenocapoeira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/feeds/7659533910491833316/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20990548&amp;postID=7659533910491833316&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/7659533910491833316'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/7659533910491833316'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/2008/03/capoeira-carisma-e-poder.html' title='Capoeira: carisma e poder'/><author><name>Moreno capoeira</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20990548.post-6908134949842981646</id><published>2008-01-31T15:37:00.000-03:00</published><updated>2008-01-31T15:43:28.697-03:00</updated><title type='text'>A Capoeira Iluminada visto por alguém de fora</title><content type='html'>Achei um comentário ao filme "Mestre Bimba: a capoeira iluminada" numa revista especializada em cinema. É interessante saber como uma pessoa de fora do meio capoeirístico viu o filme. Achei a crítica muito pertinente, diga-se de passagem.&lt;br /&gt;Aí vai o link:&lt;br /&gt; http://www.contracampo.com.br/87/critmestrebimba.htm&lt;br /&gt;Um abraço,&lt;br /&gt;                                Moreno&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20990548-6908134949842981646?l=morenocapoeira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/feeds/6908134949842981646/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20990548&amp;postID=6908134949842981646&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/6908134949842981646'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/6908134949842981646'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/2008/01/capoeira-iluminada-visto-por-algum-de.html' title='A Capoeira Iluminada visto por alguém de fora'/><author><name>Moreno capoeira</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20990548.post-7832451323746928735</id><published>2008-01-02T09:30:00.000-03:00</published><updated>2008-01-02T14:03:31.632-03:00</updated><title type='text'>"Mi Buenos Aires querido"</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Camaradas, antes de mais nada desejo a todos um Feliz 2008. Que esse ano seja cheio de realizações para todos nós tanto dentro como fora da roda de capoeira.&lt;br /&gt;Apesar de estarmos em um novo ano, a crônica de hoje se refere a um acontecimento de 2007. Um amigo meu foi a Buenos Aires no começo de dezembro e voltou maravilhado com o tango, que viu ser dançado nas calçadas &lt;span style="font-style: italic;"&gt;de la&lt;/span&gt; &lt;span style="font-style: italic;"&gt;calle Florida&lt;/span&gt; no centro da cidade. No primeiro encontro que tivemos logo depois da viagem, ele me disse:"Minha alma portenha foi tocada pelo ritmo do tango".  Essas palavras ficaram encasquetadas na minha cabeça: ora, que eu saiba, o cidadão nasceu em Brasília, filho de mãe piauiense e  pai goiano, sem nenhum antepassado que tenha vivido nos arredores do Rio da Prata. Como pode, então, ter uma alma buenairense?&lt;br /&gt;Só depois fui entender o raciocínio de meu camarada: a alma não tem que ver com a herança genética ou o lugar onde a pessoa nasce. Segundo a lógica dele, todos nós podemos possuir "almas" de diferentes tipos: portenhas, afro-brasileiras ou orientais.&lt;br /&gt;Levando um pouco mais adiante esse raciocínio, é possível dizer que tais almas podem nascer e se desenvolver a partir das atividades corporais de uma pessoa: já escrevi nessa coluna que vários estudiosos descrevem a capoeira como um jeito brasileiro (ou &lt;span style="font-weight: bold;"&gt;afro-&lt;/span&gt;brasileiro) de estar no mundo. Da mesma forma, o próprio tango pode ser considerado como um produto e um produtor de uma "alma" portenha -- e até mesmo &lt;span style="font-weight: bold;"&gt;afro&lt;/span&gt;-portenha, pois os seus passos foram criados pelos &lt;span style="font-style: italic;"&gt;compadritos &lt;/span&gt;de origem africana (os malandros platinos), muito numerosos na região do porto em meados do século 19.&lt;br /&gt;É claro, talvez eu esteja sendo um pouco simplista, já que tanto a capoeira como o tango já estão inseridos na cultura popular global e já são vendidos como mercadoria há muito tempo. Sabemos que no mundo de hoje, até as almas estão à venda. Mas se não fosse assim, como poderíamos entrar em contato com elas?&lt;br /&gt;É claro que essa concepção de capoeira como uma característica de uma alma brasileira não é partilhada por todos os mestres de capoeira; e por motivos tão compreensíveis quanto legítimos. Tal visão pode descambar para um enfoque quase religioso ou místico do ensino da brincadeira, que pode redundar em fanatismo; ou ainda, pode se transformar num argumento que defenda a reserva de mercado do ensino da capoeira no exterior só para brasileiros. Parece que uma espécie de laicização vem sendo defendida por professores que privilegiam o aspecto esportivo do brinquedo, e com muita propriedade.&lt;br /&gt;Isso nos leva a pensar que até a capoeira possui várias "almas": mais esportivas ou artísticas, africanas ou brasileiras, globalizadas ou locais dependendo do enfoque seguido por cada mestre ou grupo.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20990548-7832451323746928735?l=morenocapoeira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/feeds/7832451323746928735/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20990548&amp;postID=7832451323746928735&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/7832451323746928735'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/7832451323746928735'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/2008/01/mi-buenos-aires-querido.html' title='&quot;Mi Buenos Aires querido&quot;'/><author><name>Moreno capoeira</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20990548.post-4957299526536853842</id><published>2007-12-21T08:33:00.000-03:00</published><updated>2008-01-02T14:21:49.417-03:00</updated><title type='text'>Sobre o livro do professor André Reis</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Quando soube que eu estava lendo seu livro, &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Capoeira - saúde e bem-estar social&lt;/span&gt;, o professor André Reis pediu que eu escrevesse algum comentário sobre ele. Essa postagem tem esse objetivo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O livro é o resultado de uma pesquisa feita com alunos de capoeira poloneses sobre os efeitos da capoeira para a saúde e o bem-estar dos seus praticantes. A pesquisa de André é baseada em entrevistas e questionários que apresentou aos alunos que ele ensinava na Polônia. Acontece que a concepção de saúde adotada por André Reis é diferente daquela do senso comum segundo a qual saúde é simplesmente ausência de doenças. Encarando o homem como um ser social, André percebe que vários fatores não estritamente biológicos e fisiológicos, mas sociais e existenciais contribuem para a aquisição de saúde e bem-estar social do indivíduo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que achei legal no livro foi justamente isso: a abordagem existencial do aprendizado da brincadeira, dos sentimentos contraditórios que nós os aprendizes experimentamos em nossas relações com o professor, com outros aprendizes e conosco mesmos durante as aulas de capoeira. Sentimentos de aceitação ou inadequação; frustração ou motivação; rivalidades e amizades; conflitos entre os alunos pela atenção do mestre ou de outros alunos; disputas de poder dentro da roda... tudo isso é levado em consideração no livro para a determinação dos efeitos da capoeira para o bem estar individual.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em via de regra, hoje em dia não há muita atenção por parte dos professores para com os sentimentos dos alunos nos treinos de capoeira. Esquecem-se que vários de seus aprendizes possuem ansiedades quanto ao aprendizado e à integração com os outros membros do grupo, que se interessam por aspectos específicos da vadiação, que têm necessidade de perceber um sentido para os treinos ... e por aí vai.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fica expresso no livro que a capoeira pode sim contribuir para o bem-estar dos indivíduos, mas também tem o potencial de piorá-lo, dependendo das relações aluno-aluno e mestre-aluno  e da forma como o aluno vivencia seu aprendizado. Como o autor reconhece a centralidade da figura do mestre na estruturação de tais relações e daquela vivência, depreende-se que o grupo tem a cara do seu mestre e que as trocas que se estabelecem dentro da agremiação serão saudáveis ou não dependendo do direcionamento que aquela figura estabelece nas aulas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;* * *&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Antes de terminar, gostaria de corrigir uma coisinha da postagem anterior: é que o quilombo dos Palmares se formou num a área que hoje está entre os estados de Pernambuco e Alagoas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;* * *&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;Encerro essa postagem com um abraço e votos de feliz Natal e de um Ano Novo cheio de realizações para todos. Um abraço do Moreno!&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20990548-4957299526536853842?l=morenocapoeira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/feeds/4957299526536853842/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20990548&amp;postID=4957299526536853842&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/4957299526536853842'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/4957299526536853842'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/2007/12/sobre-o-livro-do-professor-andr-reis.html' title='Sobre o livro do professor André Reis'/><author><name>Moreno capoeira</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20990548.post-1567224109454936957</id><published>2007-11-28T08:32:00.000-03:00</published><updated>2007-11-28T17:29:30.810-03:00</updated><title type='text'>Capoeira: mito, esporte e educação</title><content type='html'>Camaradas, depois de uma ausência demorada volto a escrever nesta coluna. Espero que alguém tenha sentido falta dela. O assunto agora serão alguns mitos que rondam o mundo da capoeira.&lt;br /&gt;Todos os que têm algum contato com o mundo da vadiação sabem que existe uma série de histórias sobre sua origem e natureza, algumas até incompatíveis entre si. Como exemplo básico cito as versões que defendem o surgimento da capoeira nas sociedades africanas e aquelas que defendem a origem da brincadeira nos quilombos e senzalas brasileiros.&lt;br /&gt;Porém, meu interesse aqui não é desmascarar mitos e descobrir verdades absolutas sobre a "essência" da capoeira, se é que ela existe. Hoje, encaro esses mitos não de forma pejorativa, enxergando neles apenas mentiras, mas como narrativas que dão sentido à relação de milhões de praticantes com o nosso brinquedo e que fornecem aos mestres de capoeira uma justificativa para a adoção de determinados recursos de ensino. Assim, mesmo que sejam "verdades parciais" sobre a capoeira, interpreto os mitos como escolhas feitas por grupos e mestres que embasam a sua atuação no nosso meio.&lt;br /&gt;Lembro que várias vezes, nos ensinando a jogar mais relaxados de forma a privilegiar uma movimentação mais solta, o mestre Pombo de Ouro nos falava "o negro não tinha armas, por isso não entrava em confronto direto com o branco". Ora, na verdade sabemos que houve várias oportunidades em que os escravos pegaram em armas e partiram para o enfrentamento direto contra seus senhores. As mais famosas delas foram o Quilombo dos Palmares na Paraíba/Pernambuco e a Revolta dos Malês, em Salvador.&lt;br /&gt;Acontece que, através dessa saudável mentira, o mestre criava um mecanismo que nos inseria numa tradição, dava sentido a nossas experiências nos treinos e rodas e ditava a natureza da relação aluno-aluno e mestre-aluno. Não éramos pessoas repetindo movimentos porque o mestre mandava, mas sim descendentes dos escravos brasileiros que resistiam subrepticiamente à escravidão pela malícia e mandinga. E mais, com um espírito de camaradagem no qual o respeito ao colega era a regra de ouro já que, segundo o mestre, "quem sabe mais doa a que sabe menos". O mestre sendo um veículo de ligação com os antigos.&lt;br /&gt;Assim, na nossa cabeça, atualizávamos no começo do século 21 movimentos e pensamentos de 4 séculos de escravidão; tudo isso articulado com um pensamento pedagógico que tinha que ver com uma forma esotérica de ver o mundo própria do mestre.&lt;br /&gt;Outro grupo em que treinei fazia outro recorte, até com certa complexidade, das tradições da capoeira. Seu símbolo era inspirado naquele do Yin e Yang das culturas orientais, só que os pequenos círculos branco na metade preta e preto na metade branca foram substituídos por 2 berimbaus, um branco e outro preto, em cada uma das metades de cores opostas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;À primeira vista, parece uma mistureba sem sentido: elementos da filosofia oriental numa prática cultural afro-brasileira. Mas, diga-se de passagem, alguns escritos de mestre Pastinha podem ser comparados perfeitamente aos ensinamentos dos sábios asiáticos. Porém, como percebi convivendo com o grupo, a interpretação desse símbolo feita pelos seus idealizadores não tinha muito a ver com idéias do zen ou a do equilíbrio dos opostos universais, mas somente com a identificação que aquele desenho tinha com as artes marciais orientais.&lt;br /&gt;De fato, aquele pessoal encarava a capoeira como arte marcial, na esteira das interpretações surgidas na década de 70 e não trabalhava com mitos de origem. Nunca ouvi o mestre ou os professores falarem sobre história da escravidão. O que eles faziam talvez estivesse inserido num outro recorte da tradição de capoeira: o das disputas entre grupos da segunda metade do século 20 e no reconhecimento da capoeira como esporte em 1972. Uma apropriação de elementos das artes marciais orientais, articulado com a visão da capoeira como esporte e inserido nas disputas de grupos eram os ingredientes do mecanismo enviesado que dava sentido à ação desse grupo e que emoldurava as relações que aconteciam dentro dele.&lt;br /&gt;É claro que adoção de mitos não é obrigatória. Depende de muitos fatores, o principal deles é a formação cultural do mestre. Por exemplo, existem grupos que não se baseiam em mitos, mas interpretam a capoeira utilizando ferramentas dos estudos de pedagogia, psicologia e educação física. Seus mestres e professores possuem uma formação acadêmica. A princípio, não são piores nem melhores que os que trabalham com mitos. Como a escola se mostrou um campo passível de ser conquistado pela capoeira, discursos e apropriações desse tipo surgiram naturalmente no horizonte da brincadeira.&lt;br /&gt;Assim, recortes mitológicos, esportivos e pedagógicos coexistem no meio da brincadeira. Isso me lembra de um ditado do mestre Pombo: "A capoeira é como a água, ela vai se moldando ao ambiente que encontra".&lt;br /&gt;Um abraço a todos!&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20990548-1567224109454936957?l=morenocapoeira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/feeds/1567224109454936957/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20990548&amp;postID=1567224109454936957&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/1567224109454936957'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/1567224109454936957'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/2007/11/mitos-mentiras-saudveis-no-meio-da.html' title='Capoeira: mito, esporte e educação'/><author><name>Moreno capoeira</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20990548.post-166034332657427240</id><published>2007-10-09T15:07:00.000-03:00</published><updated>2007-10-09T15:18:47.537-03:00</updated><title type='text'>Um pouco mais sobre a Regional e sobre o mestre Pombo</title><content type='html'>A seguinte postagem é a primeira versão de uma mensagem que eu mandei para o Cego, lá do Tocantins. Por alguma razão, publiquei uma versão menos pessoal; porém, dando uma relida, vi que ficou muito boa e que eu não poderia deixar de  colocá-la no blog.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Fala Cego, tudo bem? Por aqui estamos um pouco tristes, pois ficamos sabendo que o mestre vai se mudar de Brasília dentro em pouco, indo para o Recife. Apesar disso, parece que continuaremos a existir como grupo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Interessante a questão que você levantou: será que as seqüências da Regional ainda são válidas para o ensinamento da capoeira? Não creio que eu esteja preparado para dar uma opinião definitiva nessa questão. (E talvez, nem tão racional e objetiva, como você verá.) Até porque, como você mesmo escreveu, aprendia-se e ensinava-se capoeira muito antes da existência do mestre Bimba. Ele próprio disse que aprendeu "de oitiva", ou seja, imitando o que os mais experientes faziam na roda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porém, ele também disse que teve um mestre africano que o ensinou. Como seria o método de Bentinho? Existem crônicas de capoeiristas cariocas de fins do século XIX que dão conta de que as maltas possuíam locais em que realizavam treinamentos. Em Salvador, o mestre Canjiquinha disse que seu mestre começou a ensiná-lo a jogar ... jogando. Ele falava para o menino: "Abaixa aí que lá vai o pé!", e soltava a meia-lua. Outro mestre famoso disse que aprendeu vendo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez as seqüências da Regional tenham servido para, entre outras coisas, fazer com que as camadas médias da sociedade baiana se familiarizassem com os gestos e movimentos da vadiação, desconhecidos para eles. Grande parte foi educada em outra cultura corporal, que devia ser mais influenciada pelos gestos europeus. Lembro que Marcel Mauss, um antropólogo importante do começo do século XX, intuiu essa ligação entre a sociedade, cultura e o jeito de se movimentar quando percebeu que não conseguia ficar de cócoras como os nativos neozelandeses, pois em seu país de origem tal posição era repreendida nas pessoas adultas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Será que algo assim acontecia nas classes médias das cidades brasileiras dos anos 30?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É claro que, depois de algum tempo de treinamento, a utilidade da seqüência parece ser outra, deslocando-se para os aspectos técnicos do jogo: complementaridade, tempo de golpe, técnicas de execução, golpes contra e a favor... e por aí vai.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Além disso, o treino parecia não ser apenas formado pelas seqüências, havendo algo a mais por trás delas: os princípios tradicionais do "olhar também aprende" e do aprender fazendo ainda eram utilizados. Parece que a preocupação do mestre Bimba com a escolha das duplas era um sinal de que ele levava outras coisas em consideração que não apenas os aspectos técnicos de cada aluno. Parece que as "parábolas" do mestre também faziam parte de uma pedagogia tradicional do africano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E mais, será que o mestre dava conselhos técnicos aos seu discípulos durante o jogo? Aqui, o mestre Pombo faz isso com a gente e eu acho este um grande diferencial, além do carinho e da consideração do aluno como um todo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nos anos 60, o grupo Senzala criou um novo método de treinamento baseado no isolamento e na repetição de cada golpe fora do contexto da roda. Cresce a ênfase na estética da ginástica olímpica (movimentos esticados), na velocidade e na força. Como nota Alejandro Frigério, perdeu-se um pouco a noção da complementaridade -- do jogo "com" e não "contra" -- e da malícia. A pedagogia tradicional é abandonada, pois os garotões porradeiros de classe média de Ipanema simplesmente não tinham condições de adotá-la, ainda que tivessem toda a boa vontade do mundo (e tinham!).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porém, sabemos que as repetições também eram utilizadas pelo mestre. O treinamento dos golpes em frente a uma cadeira fazia parte do ensinamento aos alunos novatos, como escreve o mestre Itapoã. As próprias seqüências são movimentos isolados realizados fora da roda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que eu penso é que, mais importante que tudo isso -- as seqüências, a cadeira, os balões, o esquenta banho -- era o clima que envolvia e articulava todos esses momentos, criado num contexto específico por um indivíduo carismático e muito envolvido na cultura da afro da vadiação baiana. Daí a regional ser virtualmente irrepetível.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dou o exemplo do que acontecia conosco aqui nos trienos com o mestre Pombo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Antes de aprender as seqüências com o mestre Pombo, eu já jogava capoeira. Sempre ouvia falar em mestre Bimba e seu método de ensino que abriu as portas para a difusão da vadiação pelo Brasil e pelo mundo. Só que, em todos os grupos por que passei, nenhum ensinava as seqüências; ou quando ensinava era muito apressado, modificado e sem muita explicação do motivo de cada movimento. Assim, o ensino das seqüências pelo mestre Pombo respondeu a uma curiosidade de historiador que eu tinha sobre o desenvolvimento da metodologia da brincadeira trazido pelo mestre Bimba.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas não foi só isso. Me lembro da primeira aula com o mestre Pombo e na insistência com que ele me pedia para fazer aú com rolê, um movimento básico que eu já sabia. Aí ele foi dar uma cabeçada no meu aú e me mostrou para que servia aquele movimento que eu tinha treinado de forma tão mecânica durante anos e em alguns grupos diferentes. Foi algo novo para mim. Nunca ninguém tinha se preocupado em mostrar para que serviam alguns movimentos básicos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois percebi que ele enfatizava o aú com rolê porque era o movimento que fecha todas as seqüências. Notei, então, que havia um sentido e um porquê em cada insistência do mestre. Que eu não treinava "solto", que cada aula era um degrauzinho que eu subia a mais num plano de curso já bem sistematizado. Para mim, isso foi fundamental. Foi aí que o mestre me conquistou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estava acostumado a um sistema de treinamento no qual uma aula não tinha rigorosamente nada a ver com aquela que a antecedera. Um método de treino fragmentado que não deixa o aluno perceber um sentido para seu aprendizado e a sua própria evolução, pois toda a aula é solta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;  Senti-me amparado em todos os momentos das aulas, mesmo naqueles em que não conseguia fazer os movimentos, porque parecia haver a mão invisível do mestre indicando um sentido. Parece até que ela me seguraria depois de cada queda de uma tentativa de bananeira...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É claro que meu entusiasmo pode ter a ver com características pessoais muito minhas -- certa carência afetiva, por que não dizer? Mas quem foi que disse que o carinho não pode estar presente numa metodologia de ensino?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Além disso, o mestre tinha uma visão bem realista do meio capoeirístico: repleto de disputas de poder, onde cada declaração de cada mestre tinha um fundo político cujo objetivo era marcar posição  e, se possível, aumentar sua influência. É claro que ele mesmo não está excluído nessa dinâmica, mas a visão de capoeira que  eu tinha anteriormente era muito simpilsta: meu grupo era o melhor porque não praticava a violência; angola e regional eram apenas estilos de jogo e não escolas diferentes, sendo possível até que os dois estilos fossem ensinados pelo mesmo grupo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O mais legal é que ele me mostrou isso nem sempre de forma direta de conversas,mas também  pelos livros que me indicava e por visitas a outros grupos. (O que me marcou mais foi a ida ao grupo de angola do Baiano na UnB).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O interessante de saber do maquiavelismo por trás da vadiação não é fazer fofoca, mas saber em qual terreno se está andando, ter consciência da própria posição nesse mundo de cobras criadas, ter uma identidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que eu quis dizer com tudo isso é que, de repente, importam as seqüências e tudo o mais. Mas elas são como que a ponta do iceberg. O mais importante pode estar num nível mais profundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um abraço camarada.&lt;/em&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20990548-166034332657427240?l=morenocapoeira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/feeds/166034332657427240/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20990548&amp;postID=166034332657427240&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/166034332657427240'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/166034332657427240'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/2007/10/um-pouco-mais-sobre-regional-e-sobre-o.html' title='Um pouco mais sobre a Regional e sobre o mestre Pombo'/><author><name>Moreno capoeira</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20990548.post-5654577787630709721</id><published>2007-09-06T09:33:00.000-03:00</published><updated>2007-09-06T11:57:36.880-03:00</updated><title type='text'>Mestre Pombo: narrador de uma memória corporal</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;A idéia para esse texto me surgiu após ter lido o pequeno ensaio de Walter Benjamin sobre o narrador. Ocorreu-me, então, que vale para o mestre Pombo o que Benjamin escreveu sobre Leskov: dizer que ele é um narrador de uma memória corporal não nos aproxima dele, só nos afasta. Isso porque, tanto no campo da narrativa da experiência humana escrita quanto no da inscrita no corpo, não conseguimos mais comunicar o que é essencial.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Benjamin fala que o pássaro onírico do tédio choca o ovo da experiência. A experiência contida nas narrativas precisa de um tempo lento para serem apreciadas pela audiência. Bem assim funcionavam as aulas dos mestres tradicionais: lembro que li na internet uma descrição de uma aula do mestre Bimba: enquanto uma dupla realizava as seqüências de ensino, os outros alunos ficavam olhando. Que diferença do ritmo frenético das aulas de hoje, em que os alunos mesmo não aceitamos ficar parados por muito tempo! Os aulões, as oficinas, os treinos em fileiras dariam lugar à atenção individualizada do mestre a cada um de acordo com seu nível técnico e seu temperamento.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Se, para Benjamin, o narrador obtém sua autoridade da morte e da eternidade, o mesmo vale para o mestre de capoeira tradicional: ele é concebido como mais um elo na corrente infinita de uma prática corporal. A informação dos jornais está para a narração assim como as oficinas de modismos corporais estão para a vadiação: naquelas, tudo está explicado e, por isso, a experiência está morta. Lembro que o mestre Pombo concebia a capoeira como algo vivo, sabia qual a dificuldade de cada movimento, que a "moleza" dos quadris e a noção de tempo de golpe não podem ser adquiridas instantaneamente, mas, por outro lado, sublinhava a necessidade da modificação da relação do aluno com seu corpo. A experiência, o sentimento ligado à realização de cada movimento era levado em conta.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Além disso, as brincadeiras com as duplas que treinavam os desequlibrantes não eram simplesmente para tornar as aulas agradáveis, como fazem hoje em dia os instrutores de academia. Elas transmitiam o ethos da capoeira: a malícia, a mandinga de Besouro, Bimba e a do próprio mestre. A forma de se fintar um golpe e soltar outro para enganar o camarada não era vista como o ensinamento de uma simples técnica: era encenada como experiência. O mestre até fazia a cara de espanto de quem tomava a finta e pressentia que seria golpeado. (O golpe era sempre pressentido, pois o pé devia ser segurado).&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O "conhecimento da alma dos homens", que Nestor Capoeira diz advir com a prática da capoeira parece ter sido desenvolvido em seu último grau no mestre Pombo -- e aí não sei se foi pela vadiação ou pelos seus estudos e práticas esotéricas. Benjamin fala da figura dos Justos na obra de Leskov: pessoas que encarnavam a pura bondade, sabedoria e consolo do mundo. O mestre Pombo é um deles. Não foi por acaso que o emblema do nosso pequeno grupo era uma dupla de jogadores observada por um pombo dourado, algo próximo da simbologia cristã do espírito santo, mas que pode ter outro significado, como o da fé que cada aluno sentia na proteção de uma força da natureza no seu desenvolvimento pelos domínios da capoeira, seguindo uma estrada própria lidando com inseguranças, constrangimentos, deficiências técnicas e dificuldades que aparecem na "roda da vida". &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Essa preocupação com a transmissão de uma experiência corporal era mostrada também no momento final de suas aulas, quando todos nos reuníamos num círculo e ele expunha as observações que ele tinha feito da roda que tinha acabado de terminar. Os alunos também tinham voz e eram incentivados a escreverem ou compartilharem suas experiências e vivências anteriores no mundo da capoeira, mesmo as daquele aluno que só conhecia a vadiação havia pouco tempo. Ora, o mestre sabia que qualquer aluno, mesmo o mais iniciante, tinha alguma experiência com a capoeira, nem que fosse só de ouvir o berimbau ou de ter assistido a uma roda. O pressuposto era o de que todos tinham uma idéia legítima de capoeira que devia ser levada em consideração e que não seria "atropelada", mas enriquecida à partir da aula dele.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Era assim que se dava o fechamento do encontro. Penso que o mestre fazia isso para nos deixar com a sensação de que tínhamos vivido uma experiência plena, com começo, meio e fim e com direito a uma reflexão sobre ela. Através desse método de ensino, uma memória corporal era perpetuada e atualizada a cada aula.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20990548-5654577787630709721?l=morenocapoeira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/feeds/5654577787630709721/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20990548&amp;postID=5654577787630709721&amp;isPopup=true' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/5654577787630709721'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/5654577787630709721'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/2007/09/mestre-pombo-narrador-de-uma-memria.html' title='Mestre Pombo: narrador de uma memória corporal'/><author><name>Moreno capoeira</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20990548.post-9023875157063541465</id><published>2007-08-13T11:31:00.001-03:00</published><updated>2007-08-20T16:46:27.197-03:00</updated><title type='text'>A capoeira ilumindada, de novo</title><content type='html'>Assisti novamente ao filme "Mestre Bimba: a capoeira iluminada" e ele me pareceu melhor agora do que da primeira vez que o vi. Acho que, naquela oportunidade, estava muito preocupado com as "terríveis modificações" que alguns grupos teriam feito na regional ou com a utilização do filme como propaganda de determinada agremiação. Esses filtros me fizeram avaliar o filme de uma forma que ele não merecia. Afinal de contas, quem sou eu para determinar qual a interpretação correta das tradições da vadiação?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Percebi que algumas das idéias principais de Muniz Sodré -- que aparece no fime com o apelido de Americano -- estavam lá: a sugestão da capoeira como sendo um saber corporal afro-brasileiro foi mostrada através das imagens dos estivadores negros no porto de Salvador carregando sacos na cabeça; a relação de mestre Bimba com os estivadores apareceu na história que dr. Decânio contou sobre Bimba ter vivido nesse ambiente portuário quando criança.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As imagens ajudam a gente a perceber melhor o significado da capoeira regional e o porquê de mestre Bimba ter transposto certos rituais acadêmicos para a sua escola. Fotos e depoimentos mostram que o mestre se transformou no centro em torno do qual se uniram vários estudantes de Medicina de Salvador. Em várias fotos, vemos Bimba cercado por estudantes brancos de paletó e gravata. Assim, talvez como forma de demarcar seu status e também como estratégia para se aproximar da vadiação, os seus discípulos instituíram cerimônias próprias do seu meio social no ambiente da capoeira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A prova de ingresso na academia -- suportar uma gravata do mestre por alguns minutos e fazer uma queda de rins -- dá pistas de que os alunos entravam lá sabendo que entrariam em contato com outra cultura corporal. Talvez tenha sido o primeiro ritual de iniciação da regional: deixar o aluno inseguro, constrangido com os novos movimentos que ele iria aprender, numa espécie de recado corporal: "você está entrando em outro mundo, num mundo de mistérios que lhe serão revelados à medida em que você avançar no aprendizado".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Algo parecido com isso é feito pelo mestre Pombo: a desestabilização do neófito, privando-o do seu conforto corporal e de sua segurança e, ao mesmo tempo, tornando-o mais sensível aos ensinamentos do mestre, já que ficou demonstrado que o aluno nada sabe. Uma modificação corporal será atingida através da modificação de sua zona de conforto, da superação de seus bloqueios e inibições. mas, para que isso seja realizado, você deve desenvolver auto-disciplina e uma subordinação ao mestre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Taí um método de ensino que não tem nada a ver com as que são utilizadas hoje em dia: a desestabilização do aluno para fazê-lo sentir no próprio corpo que ele nada sabe, que ele terá que modificar toda a sua relação com o próprio corpo e, em conseqüência, vários aspectos da sua relação com o mundo . Esse é o lado místico do ensinamento da capoeira regional.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Daí o carisma que cerca personalidades como os velhos mestres de capoeira: para eles, a educação é iniciação, e o mestre é o portador de um segredo. Quem lê as crônicas de Itapoã e os testemunhos de dr. Decânio sobre o mestre percebe isso. Algo dessa concepção tradicional sobrevive no carisma do mestre moderno, chegando a ser apropriada empresarialmente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao contrário do que um amigo meu comentou, não era só busca por status o que unia o grupo de alunos do mestre Bimba; mas uma sensação que tem a ver com o pertencimento a um grupo quase místico do qual o mestre é a personificação e a moldura que determina qual a natureza da interação entre as partes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um sociólogo atual fala do presentismo como forma de sociabilidade que sempre esteve por trás das identificações grupais. Uma forma de se esquecer da morte por meio do encontro com outras pessoas e da fruição do momento, do hedonismo. A união em torno do mestre alimentava essa identificação grupal, primeva. Sem ele, o grupo, a vida desmoronaria: quem vê a tristeza de dr. Decânio quando fala da partida do mestre e de sua morte percebe que era disso que se tratava. Era isso que devia estar por trás da verdadeira adoração que os alunos sentiam por Manoel dos Reis Machado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Daí que o aumento da auto-confiança era apenas a ponta do iceberg do efeito que as aulas do mestre tinham sobre os discípulos. Talvez seja uma crítica que caiba: se Bimba foi educador, a educação que deu aos seus discípulos não se restringiu à auto-estima. Isso seria reduzir o papel do mestre a um livro de auto-ajuda.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20990548-9023875157063541465?l=morenocapoeira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/feeds/9023875157063541465/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20990548&amp;postID=9023875157063541465&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/9023875157063541465'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/9023875157063541465'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/2007/08/capoeira-ilumindada-de-novo.html' title='A capoeira ilumindada, de novo'/><author><name>Moreno capoeira</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20990548.post-4538971767309202062</id><published>2007-08-07T09:10:00.000-03:00</published><updated>2007-08-08T11:53:53.696-03:00</updated><title type='text'>A cocorinha</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Camaradas, um dos motivos por que fui seduzido pelas aulas do mestre Pombo de Ouro foi a sensação de entrar em contato com o espírito de uma capoeira mais próxima daquela jogada tradicionalmente em Salvador, não importando o rótulo regional ou angola. Vou dar um exemplo meio estranho mas que é muito significativo.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Num determinado dia, ensinando a cocorinha para algum dos alunos -- movimento presente em todas as seqüências da regional -- o mestre fala: "cocorinha, como o nome diz, é a posição de fazer cocô, então tem que agachar". É assim que a gente percebe que certos movimentos de estilos mais tradicionais vieram de gestos e posturas de corpo antigas e até mesmo em extinção. Digo em extinção porque essa postura de corpo corre perigo de desaparecimento com a disseminação das privadas nos banheiros do país. Ora, talvez seja por ser considerada arcaica que ela foi abandonada tanto por muitos grupos desejosos de se identificar com a modernidade quanto por muitos capoeiristas que se sentiam constrangidos ao realizá-la.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Ainda sobre a cocorinha, Frede Abreu escreveu que, nos intervalos entre um frete e outro, os escravos carregadores da Salvador do século XIX esperavam os carretos acocorados em seus cantos de trabalho. Um outro contexto de utilização da mesma técnica corporal.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;As diferentes técnicas corporais pressupõem diferentes relações da pessoa com o próprio corpo. Por exemplo, a utilização da cabeça como apoio para carregar peso. Um capoeirista e estudioso americano chamado Greg Downey ressalta que a cabeça foi -- e ainda é -- muito utilizada pelas classes populares brasileiras para carregar objetos. Existem registros dos mesmos escravos estivadores baianos esvaziando a carga de barcos inteiros carregando sacos sobre suas cabeças; e, além disso, quem nunca viu, ainda hoje no interior do país, lavadeiras de roupa se utilizarem da mesma técnica?&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Ora, da utilização da cabeça como apoio para carregar peso até a sua utilização como arma é um pulo! Uma cabeça que agüenta o peso de vários sacos de arroz pode muito bem se transformar numa arma perigosíssima. E mais, se está acostumada a equilibrar peso, pode também ser utilizada como ponto de apoio do corpo no chão. É por isso que a capoeira vai exigir dos setores médios da sociedade brasileira uma outra relação com o próprio corpo. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Cito o meu caso como exemplo: tenho um verdadeiro bloqueio quando se trata de colocar a cabeça no chão. É que me acostumei a conceber a cabeça como uma parte frágil, lugar do pensamento e só; fico com medo instintivo de torcer o pescoço. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;As próprias seqüências de ensino da regional muito provavelmente tenham sido desenvolvidas para inculcar essa nova relação com o corpo nos alunos do mestre Bimba, desacostumados com o jeito de se movimentar da vadiação. Aquele mesmo camarada americano escreveu que o germe da diferenciação angola-regional surgiu a partir daí. Vários movimentos da vadiação deviam gerar sensações de desconforto, constrangimento e inibição na primeira geração da regional; além disso, como se buscava uma forma de defesa pessoal, muitos movimentos da vadiação tiveram que ser adaptados para poderem ser usados numa luta.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Assim, da apropriação dos movimentos da capoeira pelas classes médias baianas foram desenvolvidos novos padrões de movimentos dentro da brincaderia. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Mudar a relação da pessoa com o próprio corpo pode significar também modificar a própria forma de se relacionar com o mundo. Muniz Sodré, outro estudioso e ex-aluno de mestre Bimba, já escreveu que para o pensamento africano não existe separação entre corpo e mente. O corpo pensa e é portador de toda uma visão de mundo. Hoje em dia vários estudiosos vêm prestando atenção nesse aspecto da relação corpo e consiência, estudando as várias práticas esportivas.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;p align="justify"&gt;Chegam então a perceber que a imbricação corpo e mente não acontece só na capoeira; pode ser vista também em outros esportes. Tostão -- ex-jogador, médico e atualmente cronista esportivo -- volta e meia aponta para a existência desse fenômeno no futebol, citando o exemplo do "pensamento corporal" de craques como Pelé, Romário e os dois Ronaldos.&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;Baseado nessa idéia de que a modificação do corpo interfere na apreensão e na construção da realidade é que outro ex-praticante e estudioso da capoeira, César Barbieri, vai dizer que a vadiação é "um jeito brasileiro de aprender a ser". Tudo bem, pode parecer uma afirmação nacionalista, mas por trás dela existe uma idéia interessante: a de que uma espécie de espiritualidade da capoeira é desenvolvida a partir do corpo do praticante. E como este pode ser treinado, não importa muito sua nacionalidade.&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;div align="justify"&gt;Até a próxima, camaradas!&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20990548-4538971767309202062?l=morenocapoeira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/feeds/4538971767309202062/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20990548&amp;postID=4538971767309202062&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/4538971767309202062'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/4538971767309202062'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/2007/08/cocorinha.html' title='A cocorinha'/><author><name>Moreno capoeira</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20990548.post-8326697659147324197</id><published>2007-06-05T10:34:00.000-03:00</published><updated>2007-06-05T10:37:07.889-03:00</updated><title type='text'>Balões em Taguatinga</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Caros colegas, foi muito interessante ter ido domingo à academia do mestre Paulão participar do curso de balões da Regional ministrado pelo  mestre Pombo. Em primeiro lugar, ir à Taguatinga, para um cara que nasceu, foi criado e possui grande parte das referências de sua vida no Plano, significa ter contato com um "outro sonho feliz de cidade". Para que vocês imaginem, estava havendo um desfile escolar numa das principais avenidas da cidade em comemoração ao seu aniversário. Era a cidade celebrando a si mesma, comemorando a sua existência com crianças uniformizadas e bandinhas tocando dobrados. Se eu era o estrangeiro nessa cidade, não deixei de me sentir à vontade com essa manifestação provinciana.&lt;br /&gt;Não sei se foi por acaso, mas errei o caminho até a academia. Acho que perder-se faz parte do processo de reorganização da percepção ao se chegar a um lugar desconhecido: é como um aviso: "aqui você está de fato desorientado, seu mundo caiu. Então, presta atenção!" Mas a cidade não foi má comigo, recebeu-me com uma bandinha e dobrados. Até comecei a entender melhor sua organização: Centro, Sul, Norte, CNB, QNB e outras manias suas.&lt;br /&gt;Pulando direto para a parte da capoeira, fiquei impressionado com a perfeição com que nossos camaradas tocantinenses realizavam todos os balões da regional. Eles foram o apoio do mestre Pombo no curso: jogavam, eram jogados, orientavam e cuidavam para que, nas projeções, ninguém se machucasse, eles foram a segurança do pessoal. Muito bacana ver a dedicação do Cego, do Asa Delta e do outro camarada que veio com eles. (Como é seu nome?).&lt;br /&gt;Depois, no bar, eles contaram que estiveram na Bahia e deram conta inclusive das picuinhas existentes entre a velha e a nova geração da regional. (e eu nem sabia que elas existiam!). Parece que um certo fundamentalismo regional está em curso. O que não deixa de ser interessante e, em certa medida, necessário. Monótono também, porque aconteceu em vários momentos na história da brincadeira e parece que jamais deixará de acontecer.&lt;br /&gt;Valeu também a conversa com mestre Paulão na mesa de bar. Ele falou de como aprendeu a soltar golpes mais efetivos com mestre Adílson, que fez certas adaptações do caratê para capoeira. Paulão também falou da capoeira plástica do mestre Tabosa e de seu treinamento diário de dez mil chutes; contou também que  chegava a ir de Taguatinga para Brazlândia correndo para dar aula de capoeira.&lt;br /&gt;Nesse ponto, se eu já tinha feito uma viagem no espaço, viajava agora pelo tempo. Não sei se era empolgação pelas histórias ou uma leve embriaguez causada pela cerveja, mas imaginei esses caras garotões treinando macaco e ponte até trincar a coluna, dando chute e soco em muro chapiscado para engrossar pés e mãos. Encarar um crioulo daquele tamanho e treinado nesse método não devia ser para qualquer um. E se hoje o mestre Adilson joga dequele jeito, imaginem há trinta anos!&lt;br /&gt;No entanto, parece que todos os mitos possuem um outro lado: foi contada a história de que um grande mestre tem medo de lagartixa, rã e perereca, vejam vocês!&lt;br /&gt;No final das contas, acabei não indo para o churrasco no Paranoá. Sei que teria conhecido várias outras histórias envolvendo outros mestres presentes no local, mas já estava cansado, com fome e o mengão jogava na televisão. Esse foi o fim da minha incursão por Taguá, o termo da viagem espaço-temporal. Uma outra força histórica e mítica me chamava...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20990548-8326697659147324197?l=morenocapoeira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/feeds/8326697659147324197/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20990548&amp;postID=8326697659147324197&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/8326697659147324197'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/8326697659147324197'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/2007/06/bales-em-taguatinga.html' title='Balões em Taguatinga'/><author><name>Moreno capoeira</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20990548.post-3134749245007506879</id><published>2007-05-14T10:06:00.000-03:00</published><updated>2007-05-14T10:09:12.819-03:00</updated><title type='text'>Complementações</title><content type='html'>Acho que é necessário fazer uma complementação à postagem. Penso que dei uma guinada um pouco mística no final do texto, mas explico melhor a idéia. Existe uma outra utilidade no ensino das seqüências. Hoje em dia, vários grupos dizem ser de capoeira regional mas não as ensinam. Aproveitam-se do prestígio da criação do mestre Bimba. É por isso que eu defendo que o aprendizado das seqüências pode ser conscientizador para o aluno, ampliando seus horizontes dentro da vadiação e fanzendo-o descobrir quem é quem no nosso meio, tornando-o mais apto a seguir o seu próprio caminho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outro pequeno comentário: a capoeira regional não foi simplesmente mais uma vertente da vadiação baiana. Foi uma sistematização que modificou todo o campo da brincadeira. As outras tendências foram obrigadas posicionar contrária ou favoravelmente a ela depois do seu surgimento. Deve-se levar em conta o papel dos intelectuais na cristalização desse estilo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outra anotação: escrevi que a capoeira regional não teve força institucional para dominar os grupos do Centro-sul. É verdade. Mas isso não aconteceu por incompetência do mestre; mas sim porque mestre Bimba não organizou a regional em forma de franquia ou de um grupo com objetivos expansionistas, como estão organizados os grupos atuais. Este é um desenvolvimento posterior dentro do campo da vadiação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É interessante saber o motivo de vários grupos reivindicarem ensinar a capoeira regional sem praticarem as seqüências, os balões ou o esquenta-banho. Nesse sentindo, ainda existe certa força simbólica da regional, como fonte de credibilidade de grupos contemporâneos. A face da regional associada à busca da eficiência nos tempos de mestre Bimba parece ter sido utilizada pelos grupos atuais como garantia de prestígio. Isso em detrimento do lado cultural e folclórico também associado a ela. Parece que a volatilidade dos estilos contemporâneos precisa ser ancorada nas concepções de capoeira mais bem instaladas, em particular na dualidade angola-regional.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje em dia, os estilos contemporâneos não contam com uma relação íntima com os intelectuais, como acontecia até os anos 60, no contexto do paradigma culturalista dos estudos folclóricos. Assim, sua fonte de legitimidade continua naqueles estudos e nas concepções veiculadas por eles.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20990548-3134749245007506879?l=morenocapoeira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/feeds/3134749245007506879/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20990548&amp;postID=3134749245007506879&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/3134749245007506879'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/3134749245007506879'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/2007/05/complementaes.html' title='Complementações'/><author><name>Moreno capoeira</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20990548.post-329608328596166672</id><published>2007-05-10T15:44:00.000-03:00</published><updated>2007-05-18T11:34:00.961-03:00</updated><title type='text'>As seqüências da capoeira regional</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;A postagem de hoje surgiu de uma questão levantada por um camarada consideradíssimo lá do Tocantins. Sendo um entisiasta da capoeira regional, ele escreveu sobre a sua utilidade para os capoeiristas de hoje. Como a questão é interessante, também me atrevo a dar meu pitaco.&lt;br /&gt;Aprendia-se e ensinava-se capoeira muito antes da existência do mestre Bimba. Ele próprio disse que aprendeu "de oitiva", ou seja, imitando o que os mais experientes faziam na roda. Porém, ele também disse que teve um mestre africano que o ensinou. Como seria o método de Bentinho? Sei que, no caso da capoeiragem carioca, existem crônicas de fins do século XIX que dão conta de que as maltas possuíam locais em que realizavam treinamentos. Só que a gente não sabe direito como eram tais treinos. Em Salvador, o mestre Canjiquinha disse que seu mestre começou a ensiná-lo a jogar ... jogando. Ele falava para o menino: "Abaixa aí que lá vai o pé!", e soltava a meia-lua. Outro mestre famoso disse que de tanto assistir acabou aprendendo.&lt;br /&gt;Assim, os golpes das seqüências não foram criações do mestre, eram oriundos da vadiação baiana, do batuque, da ginástica nacional e de lutas conhecidas por seus alunos, principalmente pelo Cisnando – responsável pelo godeme, por exemplo. Eram movimentos já existentes que foram articulados pelo mestre Bimba dentro de uma lógica afro-brasileira.&lt;br /&gt;Talvez as seqüências tenham servido para, entre outras coisas, fazer com que as camadas médias da sociedade baiana se familiarizassem com os gestos e movimentos da vadiação, desconhecidos para eles. Isso porque grande parte dos alunos do mestre Bimba foi educada em outra cultura corporal, que devia ser mais influenciada pelos gestos europeus. Foi essa sistematização do ensino e a condenação da malandragem associada à capoeira que tornou a brincadeira atrativa às classes médias baianas.&lt;br /&gt;(A malandragem continuava sendo valorizada, mas dentro da roda, sob a forma da malícia.)&lt;br /&gt;Outra coisa que nós esquecemos é que a capoeira regional – tanto quanto a capoeira angola – era apenas uma vertente dentre as várias que existiam na Bahia. Vários mestres se sentiram atraídos por uma ou outra escola, mas as duas não esgotam a diversidade da vadiação baiana. E aqueles capoeiristas que não se filiaram a Bimba ou Pastinha, como foi o caso dos mestres Waldemar da Liberdade, Noronha, Canjiquinha e outros, não são menos legítimos. Tais mestres não utilizavam as seqüências da regional em seu ensino.&lt;br /&gt;Some-se a isso o fato de que as sistematizações posteriores à do mestre Bimba abandonaram a prática das seqüências. Talvez porque nos anos 60 e começo dos anos 70, a regional já começasse a ser associada pelos novos mestres do Centro-Sul do país a algo antigo e ultrapassado. Foi uma época em que se tentou, novamente, eliminar ou suavizar as referências afro do jogo, tentando-se transformar a capoeira na "arte marcial brasileira", como escreve Alejandro Frigério.&lt;br /&gt;A capoeira regional não teve força institucional e simbólica suficiente para dominar tais grupos e filiá-los. No caratê, que também foi sistematizado no começo do século XX, os katas são sempre os mesmos, muito provavelmente porque uma linhagem muito forte conseguiu servir de referência para vários mestres. No caso da capoeira regional, isso não aconteceu e as seqüências, os balões e o esquenta-banho foram abandonados ou reinterpretados segundo outros critérios.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O que é uma pena, já que seu ensino pode desenvolver aspectos fundamentais para o jogo de capoeira: complementaridade, noção de tempo de golpe e a própria execução de movimentos em si são importantíssimos. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Além disso, existe a aura mágica que envolve tais movimentos, dependendo de como são ensinados. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Faço parte daquele tipo de pessoas que tenta racionalizar todos os aspectos de sua experiência, mas sei que a razão não esgota a nossa existência. A humanidade continua criando mitos que dão um pouco de sentido à sua vida, e o mundo da capoeira está cheio deles. Treinando com o mestre Pombo, eu mesmo já experimentei várias vezes a sua força. O ensino das seqüências, articulado dentro de um método especial, pode desenvolver aspectos importantes do jogo de um capoeirista, além de fazê-lo entrar em contato direto com uma experiência corporal ancestral. É como se o espírito da regional se atualizasse em pleno século XXI. As aulas do mestre são envolvidas numa aura mágica em que parece que a capoeira está sendo inventada por nós à medida em que o treino avança, porém guiada por régua e compasso inventados há muito tempo...&lt;br /&gt;Se nas suas aulas, um mestre, professor, ou algo que o valha, conseguir fazer com que os alunos experimentem algo parecido, estará mais do que justificado o ensinamento das seqüências do mestre Bimba para as novas gerações.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Um abraço camarada aos entusiastas da regional!&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20990548-329608328596166672?l=morenocapoeira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/feeds/329608328596166672/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20990548&amp;postID=329608328596166672&amp;isPopup=true' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/329608328596166672'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/329608328596166672'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/2007/05/as-seqncias-da-capoeira-regional.html' title='As seqüências da capoeira regional'/><author><name>Moreno capoeira</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20990548.post-4059533603680132817</id><published>2007-04-19T16:00:00.000-03:00</published><updated>2007-04-20T15:58:19.268-03:00</updated><title type='text'>Pílulas sobre a tradição</title><content type='html'>Camaradas, a última postagem provocou alguns comentários interessantes. Alguns gostaram por ela ter abordado a "descaracterização" da capoeira regional. Para esses, o jogo de iúna e o toque de mesmo nome vêm de uma tradição que deveria ser respeitada e mantida imutável.&lt;br /&gt;Outros comentários tiveram um certo tom de gozação e diziam mais ou menos o seguinte: "De que me interessa saber uma coisa que não tem nada a ver com a capoeira praticada no ambiente e na época em que vivo?" Ou, "não tenho compromisso com a tradição, ela é um fardo, uma camisa de força que impede a liberdade de interpretação da brincadeira".&lt;br /&gt;De fato, essa questão é importante: por que a iúna não pode ser reinterpretada? Seu criador não foi ele mesmo um grande intérprete das tradições afro-brasileiras?&lt;br /&gt;Não sou um defensor da imutabilidade, sei que as modificações da tradição da regional têm uma razão de ser. Por exemplo, a relação mestre-discípulo pautada pela "pedagogia do africano" tem mais a ver com sociedades não-industriais. Não tem muito como se perpetuar na atmosfera de ensino de capoeira em academias onde o mestre não é mais o detentor de um saber tradicional, mas alguém que tem a obrigação de nos ensinar porque estamos pagando e que tem de sair correndo para dar outra aula por que, afinal de contas, o cara precisa ganhar a vida.&lt;br /&gt;Entendo que, nessa realidade, se as rodas funcionassem no esquema de o mestre indicar as duplas e as compras, não iria dar tempo de todos os alunos jogarem. E, como hoje em dia não estamos mais acostumados a esperar por nada, o que ia acontecer era a insatisfação generalizada dos alunos.&lt;br /&gt;Até aí tudo bem. Não podemos voltar no tempo. Mas, hoje em dia, as rodas mais disputadas tendem para a desorganização justamente por isso: os camaradas compram o jogo a cada segundo, não deixando a brincadeira da dupla se desenvolver, não se esperando mais do berimbau aquele papel de organizador da roda que, segundo os mais antigos e conforme está escrito nos livros, ele teve.&lt;br /&gt;Porém, para corrigir esse aspecto -- e outros -- das rodas atuais não é preciso viajar ao passado. A maioria dos grupos de capoeira angola que existem hoje não permite ou restringe ao máximo a compra de jogo. É já assisti a rodas aqui em Brasília onde aquela tradicional fila de camaradas agachados para jogar etornou-se enorme, pois a compra não era permitida. Isso parece ter a ver também com uma questão de organização interna de cada grupo.&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;Já ouvi alguns mestres mais antigos ironizarem muito a adoção das "trancinhas", ou &lt;em&gt;dread locks&lt;/em&gt; por parte dos capoeiristas. Alguns dizem que, se o "bicho pegar" numa roda, fica fácil puxar o cabelo do camarada e lhe dar uma joelhada, por exemplo. Pode até ser, mas não dá para ignorar o simbolismo das tranças na capoeira e na cultura pop hoje em dia: a valorização da herança africana.&lt;br /&gt;O uso de tranças por parte de capoeiristas negros -- e até brancos -- é comum hoje em dia, a ponto de uma postura como aquela ser considerada conservadora ao extremo. Até o mestre Nenel, filho do mestre Bimba, usa "&lt;em&gt;dreads".&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Mas o mais interessante nisso é que, no contexto de globalização da capoeira, até o significado desse tipo de penteado pode ser interpretado pelo dono do cabelo. Sei de um camarada polonês que veio dar aulas da brincadeira no Brasil e que fez &lt;em&gt;dread locks&lt;/em&gt;. Talvez isso mostre a profundidade do seu comprometimento com o jogo, a ponto de deixar o seu país de origem e escolher viver em outro, a capoeira tendo cumprido um papel importante nessa migração.&lt;br /&gt;Nesse caso, as tranças seriam uma manifestação muito interessante de identificação desse camarada com o brinquedo e, através dele, com a própria cultura brasileira.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20990548-4059533603680132817?l=morenocapoeira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/feeds/4059533603680132817/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20990548&amp;postID=4059533603680132817&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/4059533603680132817'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/4059533603680132817'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/2007/04/plulas-sobre-tradio.html' title='Pílulas sobre a tradição'/><author><name>Moreno capoeira</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20990548.post-2661205795042199256</id><published>2007-04-05T18:56:00.000-03:00</published><updated>2007-04-11T10:23:19.769-03:00</updated><title type='text'>Sobre a iúna</title><content type='html'>Camaradas, retomando o assunto das interpretações que os grupos atuais fazem da capoeira regional, escrevo sobre a iúna.&lt;br /&gt;Como todos sabemos, a iúna era o jogo exclusivo dos formados de mestre Bimba. Durante a sua realização, eles deviam soltar os balões da cintrua desprezada, mostrando o entrosamento obtido durante anos de treinamento. Tal jogo era regido pelo toque de mesmo nome e vinha sempre depois do jogo de São Bento Grande da Regional.&lt;br /&gt;* * *&lt;br /&gt;Parênteses:&lt;br /&gt;Uma característica importante das rodas do mestre Bimba é que era ele quem escolhia a dupla que iria jogar. Esse detalhe é interessante, pois mostra que Manoel dos Reis Machado não deixava a roda “rolar solta”, havendo um critério para a formação dos pares. Nessa hora, há relatos de que o mestre considerava até o temperamento dos alunos, de modo que um camarada mais adiantado jogava com outro, iniciante; ou que um aluno muito afobado e violento nunca jogaria com um discípulo inexperiente.  Um jogo mais duro era permitido entre alunos mais adiantados e a compra de jogo não era praxe ou só acontecia a mando do mestre e se não houvesse um número par de alunos.&lt;br /&gt;Essa observação do aluno por inteiro -- não só de sua técnica, mas também de seu temperamento -- parece ter a ver com a tradicional “pedagogia do africano”, onde a relação mestre-aluno era muito valorizada, aquele sendo responsável pela transmissão do que se reputava como um ensinamento ancestral.&lt;br /&gt;* * *&lt;br /&gt;Assim, o jogo de iúna acontecia no final da roda e as duplas eram compostas por alunos formados, também escolhidos pelo mestre e que geralmente formavam duplas fixas de treinamento. Havia a obrigatoriedade de se soltar os balões da cintura desprezada. Não havia canto e nem palmas e só havia um berimbau e um pandeiro a tocar, como manda a regional.&lt;br /&gt;O nome do toque é tirado de um pássaro brasileiro que, acreditava-se, possuía poderes mágicos. Seria composto de duas partes: uma simbolizaria o canto da iúna macho e a outra a resposta da iúna fêmea. Chega a lembrar aquela concepção pastiniana da capoeira positiva e combativa e da capoeira negativa e defensiva.&lt;br /&gt;* * *&lt;br /&gt;Recentemente, fiquei sabendo que existe um toque de viola caipira chamado iúna. Teria alguma coisa a ver com o toque da capoeira? Será que a coincidência de nomes por si só não mostraria a absorção de elementos da cultura popular pela cultura afro-brasileira?&lt;br /&gt;Cada vez sei menos coisas sobre capoeira...&lt;br /&gt;* * *&lt;br /&gt;Hoje em dia, talvez por ter nascido associado à maestria, o toque de iúna marca um momento especial e solene de uma roda. Alguns grupos começam sua brincadeira com tal toque, acompanhado por palmas mas sem canto e utilizando os três berimbaus. Segundo eles, é um ritual para lembrar dos velhos mestres da vadiação.&lt;br /&gt;Também já presenciei a iúna ser tocada em funerais e missas de corpo presente de mestres falecidos. Recentemente, houve uma “roda fúnebre” aqui em Brasília, aberta com iúna.&lt;br /&gt;Outros grupos aproveitam-se do fato de o toque de iúna ter sido criado para dar ensejo a um jogo plástico, e acabam utilizando-o para reger um jogo de apresentação individual durante suas exibições. Assim, durante o toque de iúna apenas um capoeirista realiza movimentos acrobáticos no centro da roda ao som dos berimbaus. Sem canto mas com palmas.&lt;br /&gt;Em outras adaptações, aproveita-se que o toque está associado ao jogo dos alunos formados por mestre Bimba, executando-se o mesmo quando da formatura de um contra-mestre. Não existe a obrigatoriedade dos balões, o jogo deve ter movimentos acrobáticos e prezar a plasticidade. Também só jogam os mestres do grupo.&lt;br /&gt;* * *&lt;br /&gt;É isso aí. Para terminar, lembro que minha intenção ao descrever as adaptações não tem a ver com determinar o que é o certo ou o que é o errado. Procuro apenas mostrar como os grupos contemporâneos reinterpretam as tradições inventadas na época das primeiras sistematizações do brinquedo. É claro que tais adaptações correspondem a realidades e épocas diferentes, tendo sua razão de ser, devendo existir várias outras por esse mundo afora.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20990548-2661205795042199256?l=morenocapoeira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/feeds/2661205795042199256/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20990548&amp;postID=2661205795042199256&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/2661205795042199256'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/2661205795042199256'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/2007/04/sobre-ina.html' title='Sobre a iúna'/><author><name>Moreno capoeira</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20990548.post-7757748162747241591</id><published>2007-03-16T16:09:00.000-03:00</published><updated>2007-03-20T22:51:58.097-03:00</updated><title type='text'>Perdas e ganhos</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Dando uma olhada nas minhas crônicas anteriores, percebo que, na maioria das vezes, passo uma visão muito negativa da esportivização da capoeira. Em alguns momentos, deixo transparecer uma antipatia um pouco mesquinha para com alguns desenvolvimentos recentes da vadiação. Talvez por não me considerar um atleta, essa visão romântica da capoeira como pura ludicidade e espontaneidade seja muito forte em mim.&lt;br /&gt;Acontece que brincadeira e ludicidade, esporte e competição não são totalmente excludentes. Isso acontece inclusive no futebol, um esporte altamente profissionalizado em que os maiores craques parecem continuar a se divertir. Ronaldinho Gaúcho ao olhar para um lado e passar a bola para o outro, ou ao escolher sair pelo contrapé do marcador depois de pedalar na sua frente parece estar brincando. E Zidane deve ter adorado dar um balãozinho em Ronaldo na Copa...&lt;br /&gt;Além disso, como me fez notar um camarada, a Copa da Uefa não vai extinguir a pelada de fim de semana. Muito pelo contrário, os peladeiros acabam por tentar realizar os dribles dos grandes jogadores, apropriando-se deles e acrescentando mais um tempero à sua brincadeira.&lt;br /&gt;Coisa parecida acontece com a vadiação. Já mencionei que capoeiristas já estão utilizando vídeos para se atualizarem: novos floreios e seqüências de movimentos estão sendo popularizadas através de imagens de capoeiristas de todas as partes do mundo. Elas podem ser vistas no "youtube" ou nas fitas de vídeo e DVDs anunciados nas revistas e sítios eletrônicos especializados.&lt;br /&gt;Por exemplo, num churrasco aqui em Brasília, presenciei uma conversa entre dois capoeiristas locais e um mestre paulistano em que estava sendo discutido o "antídoto" para um determinado movimento de benguela que os brasilienses tinham visto o outro fazer num DVD. Foi muito interessante escutar essa conversa e assistir à demonstração do movimento, percebi que não está totalmente fechada a possiblidade de que cada grupo interprete e encaixe as inovações em seu estilo; de que cada capoeirista, individualmente, incorpore desenvolva seu jogo de acordo com suas qualidades e limitações.&lt;br /&gt;Camaradas como Nestor Capoeira, apesar de reconhecerem algumas perdas na vadiação, consideram que hoje vivemos a “era de ouro” do nosso brinquedo. O desenvolvimento de metodologias de ensino adotadas por mestres e professores em todas as partes do mundo tem contribuído para a formação de um maior número de capoeiristas de alto nível.&lt;br /&gt;É claro que com a modernização, perde-se algo da tradição. Mas -- talvez devido à ambigüidade mesma da capoeira --, competição e cooperação, agônico e lúdico, dominação e liberdade sempre conviverão numa roda. Sempre haverá mestres capazes de trabalharem diferentes tipos de metodologias, bem como alunos criativos o suficiente para reinterpretarem e encaixarem no próprio jogo – se lhes convier – os movimentos da moda.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20990548-7757748162747241591?l=morenocapoeira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/feeds/7757748162747241591/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20990548&amp;postID=7757748162747241591&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/7757748162747241591'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/7757748162747241591'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/2007/03/perdas-e-ganhos.html' title='Perdas e ganhos'/><author><name>Moreno capoeira</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20990548.post-789443868596334453</id><published>2007-03-15T16:01:00.000-03:00</published><updated>2007-03-15T16:05:47.800-03:00</updated><title type='text'>O que diabos é “saroba" (versão para o rondoniaesporte.com.br)</title><content type='html'>Camaradas, começo a crônica de hoje com uma correção. É que num escrito anterior, intitulado “Pastinha, Gilberto e Hendrix”, dei a entender que mestre João Pequeno já teria morrido. Ora, como todos sabemos, ele contiua jogando capoeira do alto de seus quase 90 anos de idade.&lt;br /&gt;* * *&lt;br /&gt;Feita a correção, gostaria agora de tecer comentários sobre um termo que é muito utilizado no meio capoeirístico. Trata-se do adjetivo "saroba", utilizado para depreciar o jogo de um camarada. Dando uma olhada nos significados que tal palavra possui podemos colocar em evidência certos valores introjetados por nós no meio da brincadeira.&lt;br /&gt;O Dicionário de Capoeira, da autoria de Mano Lima, dá o seguinte significado para o termo: “O mesmo que sarandage. O capoeira que sabe apenas alguns rudimentos e joga feio, com movimentação desfigurada.”. A fonte seria o clássico livro de Waldeloir Rego sobre a capoeira angola.&lt;br /&gt;Em outra crônica, já escrevi que um capoeirista paraense me disse que jogava num grupo sarobeiro até a sua mudança para o grupo de um professor vindo do Rio de Janeiro que tinha dado porrada nos seus companheiros, mostrando um novo jeito de gingar e jogar. No meu blog capoeira, li um comentário de um cidadão que diz que grupos que não jogam benguela já estão sendo chamados de sarobas.&lt;br /&gt;Nos anos 90, aprendi que tal palavra podia ser entendida como o antônimo de "sarado", termo emprestado do ambiente das academias de musculação e que designa a pessoa que tem um corpo trabalhado, musculoso. Seria o modelo do que todos os malhadores da academia -- ou pelo menos grande parte deles -- queria ser.&lt;br /&gt;Assim, se sarado designava, na academia de musculação, uma pessoa cujo corpo malhado estava dentro de um padrão estético desejado por todos; na capoeira, saroba seria aquele cujo jogo não corresponde a um determinado padrão estético e esportivo estabelecido por uma fonte de prestígio inquestionável.&lt;br /&gt;Acontece que, de 1968 – ano em que Rego escreveu seu livro – para cá, o meio da capoeira se modificou muito. A nossa brincadeira passou a ser ensinada por todas as regiões do país dentro de escolas ou de academias de ginástica. E isso pode ter modificado o significado tradicional daquele termo.&lt;br /&gt;Com a penetração da capoeira em novos ambientes de ensino e uma segunda onda de esportivização acontecida nos anos 60 -- que levou a uma modificação da estética da vadiação --, o ensino em academias passou a ser mais valorizado.&lt;br /&gt;Assim, aprender capoeira na rua ou na roda, do jeito tradicional, passou a ser algo desprestigioso e o significado de saroba passou a englobar também um jogo visto como antiquado se comparado ao novo padrão estético e esportivo da capoeira criado nas academias de São Paulo e da zona sul do Rio de Janeiro.&lt;br /&gt;* * *&lt;br /&gt;O termo saroba também é utilizado como marcador de identidade grupal, denotando uma visão muito fechada de capoeira, que não aceita a diversidade existente dentro da vadiação.&lt;br /&gt;Já treinei em alguns grupos que tinham uma visão de capoeira mais voltada para a luta e para o esporte. Me lembro de que o mestre, nos batizados, nos chamava de "atletas" e, em algumas conversas depois dos treinos, nos estimulava a virarmos lutadores de capoeira. Lembro que colegas meus me falaram para não jogar sorrindo e fechar mais a cara para mostrar que eu era mau.&lt;br /&gt;Nesse ambiente, saroba era muito usado, e deixava passar um preconceito muito grande. Geralmente era um adjetivo usado contra capoeiristas de outro grupo ou contra um outro grupo como um todo. Era um artifício para criar uma identidade: éramos um grupo de sarados contra todos os outros, sarobas.&lt;br /&gt;E saroba era utilizado para designar aquele capoeirista que não tinha uma certa estética de jogo -- a ginga plástica, os golpes estendidos, os floreios emprestados da ginástica olímpica, a velocidade meio neurótica. Era uma coisa associada a ser antiquado, a estar fora de moda, a um jogo bruto, no sentido de não-cultivado dentro de um grupo de capoeira ou de uma academia decente.&lt;br /&gt;É isso aí! Até a próxima, camaradas!&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20990548-789443868596334453?l=morenocapoeira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/feeds/789443868596334453/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20990548&amp;postID=789443868596334453&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/789443868596334453'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/789443868596334453'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/2007/03/o-que-diabos-saroba-verso-para-o.html' title='O que diabos é “saroba&quot; (versão para o rondoniaesporte.com.br)'/><author><name>Moreno capoeira</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20990548.post-116974605681735203</id><published>2007-01-25T14:19:00.000-03:00</published><updated>2007-02-07T09:06:52.995-03:00</updated><title type='text'>Pastinha, Gilberto e Hendrix</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Amigos e amigas, nos anos 90 uma rádio daqui de Brasília tinha um programa dominical de entrevistas com músicos importantes que vinham se apresentar nos palcos da cidade. O programa funcionava da seguinte maneira: o apresentador pedia para o artista listar 1o gravações que tinham influenciado sua carreira; as músicas eram executadas em grupos de 3 ou 4 por bloco, com o artista explicando o motivo de cada escolha e chamando atenção para alguns aspectos musicais que ele achava importantes.&lt;br /&gt;Lembro do dia em que o convidado foi o filho do Tom Jobim, de cujo nome não me lembro. Sendo um músico relativamente jovem, uma das gravações que ele listou foi "Purple Haze" do Jimi Hendrix. Chamando atenção para um descompasso aparente que havia entre a bateria, de um lado, e o baixo e a guitarra de outro, ele disse que esse mesmo recurso aparecia na voz e no violão de João Gilberto. Achei interessantíssimo aquilo: dois músicos de estilos diferentes e que viviam em mundo paralelos utilizando uma técnica parecida, um na MPB e o outro no rock 'n' roll, um com seu banquinho e violão e o outro com sua guitarra endemoninhada.&lt;br /&gt;Guardei essa admiração pela convergência entre os dois músicos por muito tempo até que, há alguns anos, escutei mestre João Grande cantar: " Janaína, rainha sereia do mar/não deixa meu barco virar" e "Iê, maior é Deus/ maior é Deus /Pequeno sou eu / o que eu tenho/ foi Deus que me deu..." além de outras cantigas. Nelas, berimbau e voz parecem não ter nada a ver um com o outro numa mandinga sonora que desconcerta o ouvido de qualquer um que escuta. Inclusive, tenho um camarada que disse, ao ouvir as gravações: "esse cara precisa aprender a cantar".&lt;br /&gt;E o interessante é que não é só mestre João Grande que canta assim: depois percebi que mestre João Pequeno e que o próprio mestre Pastinha também o faziam, o que dá uma pista de que tal "descompasso" pode estar ligado não só a uma escola de vadiação mas até mesmo a uma característica musical afro que aparece e se atualiza na capoeira do mestre Pastinha, na bossa nova de João Gilberto e no rock'n'roll de Jimi Hendrix.&lt;br /&gt;É claro que sempre existe a hipótese de o baiano João Gilberto, de alguma forma, ter aproveitado os sons da capoeira de mestre Pastinha na criação de seu estilo; não seria a primeira vez que música popular e jazz se encontrariam. E também pode ser que Hendrix, tendo profundo contato com a música negra americana, tenha aproveitado aquela característica em sua música. Mesmo que tenha acontecido isso, essa reelaboração não anula a hipótese da existência de um "descompasso afro-americano" na música desses caras.&lt;br /&gt;Por outro lado, Vicente Pastinha, João Gilberto e Jimi Hendrix podem ter tirado isso de suas cartolas, gênios criativos que eram. E aí eles não teriam nada em comum entre si.&lt;br /&gt;* * *&lt;br /&gt;Explicar coisas desse tipo é complicado... Entramos no meio nebuloso de como o indivíduo trabalha as heranças culturais conscientes e inconscientes na criação artística. Sobre esse campo misterioso eu nem me atrevo a opinar.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20990548-116974605681735203?l=morenocapoeira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/feeds/116974605681735203/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20990548&amp;postID=116974605681735203&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/116974605681735203'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/116974605681735203'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/2007/01/pastinha-gilberto-e-hendrix.html' title='Pastinha, Gilberto e Hendrix'/><author><name>Moreno capoeira</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20990548.post-116967128278788460</id><published>2007-01-24T17:31:00.000-03:00</published><updated>2007-01-27T12:05:07.883-03:00</updated><title type='text'>"Esquenta-banha"</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Camaradas, creio que hoje em dia a maioria das cidades brasileiras possui aquelas lanchonetes montadas dentro de trâileres. Aqui pelo Goiás e Tocantins elas são chamadas de “pit dogs”. Lembro que surgiram no começo dos anos 80, possuindo como caracteristica principal um cardápio formado por sanduíches cujos nomes sempre começam com a letra “X” e íam desde o X-bacon, o X-frango, o X-salada até o animalesco X- tudo. De lá para cá, elas fizeram muito sucesso e se espalharam pelo país.&lt;br /&gt;É claro que o “X” é uma referência ao cheese que aparece nos nomes dos sanduíches das franquias americanas ou das lanchonetes brasileiras top de linha, mas não tem nenhum significado literal: o X- milho pode não conter queijo, por exemplo. Tenho amigos que dizem que isso é um reflexo da ignorância dos proprietários de pit dogs, que, vindos de classes mais baixas, não puderam estudar inglês.&lt;br /&gt;Porém, "o buraco é mais embaixo", os novos nomes dos sanduíches podem também ser encarados como uma interpretação brasileira e popular dos nomes estrangeiros e bacanas que constam nos cardápios das redes de fast food. Nesse sentido, são uma inovação no campo dos menus de lanchonetes.&lt;br /&gt;Algo parecido ocorre na capoeira. Já ouvi em determinadas rodas o mestre dizer: “agora é a hora do 'esquenta banha'!”, e acelerava o toque de São Bento Grande da Regional. O jogo correspondente a tal momento da roda é rápido e, geralmente, mais alto, permitindo algum contato um pouco mais violento, tanto que ao anunciar a subida do toque alguns mestres falam, num tom de desafio bem humorado: “Agora entra quem quer e sai quem pode.”&lt;br /&gt;Ora, o mestre Bimba nunca poderia prever no que se transformaria o seu “esquenta banho”! Segundo relatos de seus alunos, depois de a última dupla jogar iúna o mestre encerrava a roda, pendurava seu berimbau na parede e sentava num banquinho na porta de sua academia . Os alunos, ainda com sangue quente e empolgados pela aula, começavam a se enfrentar sem berimbau, música ou roda numa espécie de vale-tudo. Tal momento foi chamado de esquenta banho porque no banheiro da academia havia apenas um cano de onde saía somente água fria.&lt;br /&gt;Não deixava de ser um recurso pedagógico interessante, já que a regional se legitimava frente à angola pelo seu caráter de luta e que aquele era um momento no qual os alunos exercitavam a criatividade de seus golpes numa disputa sem muita interferência do mestre, que podia ser inibidora. Era, inclusive, a hora de os discípulos desenvolverem a malícia, testarem a efetividade dos golpes da regional contra os recursos de outras artes marciais conhecidas por eles e treinarem a capoeira como defesa pessoal. Segundo os relatos, a coisa acontecia no clima de camaradagem que imperava nas aulas, mas o “bicho pegava” mesmo.&lt;br /&gt;Hoje em dia, muitos grupos interpretam o “esquenta banho” como “esquenta banha”, criando um novo momento na roda, caracterizado por um jogo alto, rápido e um pouco intempestivo que acontece no final da vadiação. Próximo a essa acepção, outros grupos criaram, com um espírito menos violento, uma forma de jogo chamada “alto-ligeiro”, nomeada dessa maneira possivelmente para não permitir a sua associação com a marcialidade evocada pelo nome de origem.&lt;br /&gt;Ambos são interpretações do modelo da Capoeira Regional e que diferem, frente àquele e entre si, por corresponderem a concepções diferentes do jogo e do seu ensino. Se por um lado são o resultado de uma leitura menos competitiva e mais cooperativa da capoeira -- principalmente o alto-ligeiro -- por outro distanciam-se da visão tradicional de mestre Bimba, que utilizava o esquenta banho como uma forma de desenvolver a malícia e o aspecto de defesa pessoal da vadiação.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20990548-116967128278788460?l=morenocapoeira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/feeds/116967128278788460/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20990548&amp;postID=116967128278788460&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/116967128278788460'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/116967128278788460'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/2007/01/esquenta-banha.html' title='&quot;Esquenta-banha&quot;'/><author><name>Moreno capoeira</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20990548.post-116957146744261813</id><published>2007-01-23T12:47:00.000-03:00</published><updated>2007-01-24T09:10:09.500-03:00</updated><title type='text'>Capoeira Benguela</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Camaradas, no ano passado assiti a uma palestra sobre capoeira angola promovida por um jovem mestre dissidente de uma grande entidade e, segundo suas palavras, representante de uma linhagem particular do brinquedo de angola. A intenção desse encontro era criar laços entre angoleiros-- ou simpatizantes-- brasilienses e o grupo que ele estava criando.&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;* * * &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Parênteses: isso chama atenção também para um aspecto do nosso meio que às vezes é visto de forma muito ingênua por nós mesmos: a formação de novos grupos ou estilos. Na verdade, eles surgem de conflitos "humanos, demasiado humanos" que envolvem prestígio, desavenças pessoais entre mestres e até disputa por verbas públicas para o financiamento de projetos.&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;* * *&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Voltando à palestra, lembro que cada um dos ouvintes foi instado a dizer qual estilo de capoeira praticava. "Angola", disse a maioria. "Regional", outros responderam; houve até quem dissesse "Contemporânea" -- ainda que com algum receio de ser ridicularizado. Mas a resposta que surpreendeu a todos foi: "Benguela".&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O rapaz que respondeu assim era um jovem professor que dá aulas para crianças aqui no entorno do Distrito Federal e parecia ser muito envolvido no que fazia, tendo inclusive mostrado boas idéias quando pedia a palavra para falar.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Quando saí da palestra fiquei pensando no que deve ter levado aquele professor a "fundar" um novo estilo na vadiação. A coisa deve ter acontecido assim: aborrecido e decepcionado com a violência de certos grupos associados aos estilos chamados Regional ou Contemporâneo, ele teve vontade de se transformar em angoleiro. Não sendo aceito no meio da capoeira angola, o professor optou por uma solução interessante. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Sabemos que a estilização do toque de benguela da capoeira regional e de um tipo de jogo hipoteticamente associado a ele vêm sendo promovidos por um grande grupo já há alguns anos. Isso acabou correspondendo a anseios do "mercado capoeirístico": uma maior ludicidade dentro do campo da "regional-contemporânea" e uma resposta ao fechamento de muitos grupos de angola. Então aquele professor escolheu esse toque-estilo de jogo que combinavam com a sua postura dentro da roda para designar o estilo da capoeira que ele ensina. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Vejam como é que as coisas funcionam: se ele tivesse obtido o reconhecimento de um grupo de angola, ele hoje se diria angoleiro. Se tivesse feito contato com grupos de regional ou contemporânea que prezassem mais a ludicidade do jogo, hoje seria a um desses "estilos" que ele estaria filiado. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A escolha desse professor não deixa de mostrar a criatividade existente dentro do nosso meio e também o modo como a disputa por prestígio influencia o desenvolvimento da brincadeira. Se ele tivesse um maior reconhecimento dentro do meio e estivesse mais bem relacionado, provavelmente surgiria um novo estilo na vadiação.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;Moreno&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20990548-116957146744261813?l=morenocapoeira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/feeds/116957146744261813/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20990548&amp;postID=116957146744261813&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/116957146744261813'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/116957146744261813'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/2007/01/capoeira-benguela.html' title='Capoeira Benguela'/><author><name>Moreno capoeira</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20990548.post-116857435839561846</id><published>2007-01-12T00:19:00.000-03:00</published><updated>2007-01-15T17:05:27.990-03:00</updated><title type='text'>A entronização do Gigante Negro</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;A postagem da semana passada me lembrou muito aquela cantiga bem conhecida no meio da capoeira:" Riachão tava cantando, na cidade do Açu/quando apareceu um negro da espécie do urubu...". Isso porque, afinal de contas, o senhor que apareceu na roda à qual me referi naquela crônica era -- como diz a ladainha -- "um negro desconhecido", ninguém sabia de onde ele veio e nem para onde ia. Aliás, ele nunca mais apareceu por aqui. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;O interessante é que ladainhas como essa falando mal do negro não são raras na capoeira. Lembro-me de outra que começa assim:"O anum é um passu preto do bico todo rombudo...". A música inteira fala mal prá caramba da cor negra mas acaba assim: "mas já vi muita mulher branca, com filho negro no colo" . E aí entra a chula: " iê viva meu Deus...".&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Aí é que está a graça da brincadeira: nas suas dubiedades. Como é que pode uma manifestação cultural de origem afro-brasileira falar mal daqueles que a inventaram? Essa confusão fica mais aparente quando a gente está numa roda e percebe que, quando uma pessoa negra compra o jogo, o “clima”, a “energia” ou o “axé” da roda parecem aumentar de intensidade. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Escrevo isso baseado na observação de uma roda aqui da cidade que tem como principal atração um negão enorme: turistas brasileiros e estrangeiros, bem como capoeiristas visitantes, pedem para tirar fotos com ele no final da vadiação e os jogos do mestre com o cidadão são como um número fixo do espetáculo dominical. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Inclusive um dos momentos de maior tensão é justamente quando ele sai do pé do berimbau dando dois macacos seguidos e emenda num salto mortal. Como o homem é grande e precisa de muito espaço e impulso para fazer tais movimentos, os graduados organizadores da roda, pressentindo o perigo, pedem para a assistência se afastar e os pais evitarem deixar as crianças na beira da roda, pois se o cara cair em cima de alguém... &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;* * *&lt;br /&gt;Parênteses: a figura do gigante é recorrente nas manifestações da cultura popular. O que é interessante nesse caso é que essa valorização do gigante, de que se tem notícia desde a Antigüidade, seja atualizada na forma de um capoeirista negro supervitaminado.&lt;br /&gt;* * *&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Penso que é nesse ponto que existe a valorização do negro, e aqui vai a minha teoria: assim como o berimbau toca Dim (o arame preso, ataque, capoeira positiva) e Dom (arame solto, esquiva, capoeira negativa) -- ataque e defesa formando as duas faces da mesma moeda -- também as referidas ladainhas funcionam dessa maneira, os insultos ao negro sendo a face negativa da moeda, pressupondo a existência da face positiva. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Essa face positiva é representada não só pelo Gigante Negro mas também por vários outros capoeiristas afro-brasileiros cuja simples figura contribui para aumentar a intensidade do envolvimento dos capoeiristas e da platéia com a roda. É esse envolvimento, essa alegria de estar "junto e misturado" (como estão cantando os rappers brasileiros) dissolvendo sua individualidade na roda que o Dr. Decânio chama de transe capoeirano.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Como a face positiva da negritude na roda é inegavelmente dominante e avassaladora, a minha percepção é a de que essa positividade é tão flagrante que pode, e até deve, ser ironizada; visto que autoridade absoluta e cultura popular não se relacionam muito bem. Porém, ao ironizar a presença negra, as “cantigas de insulto” estão chamando atenção para ela e sublinhando sua importância. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;No final das contas, as cantigas de insulto servem para elogiar, por vias tortuosas, o negro na roda de capoeira. O insulto sendo simplesmente a face negativa do elogio. Elas acabam enfatizando a importância da presença do Gigante Negro na roda, entronizando-o como uma espécie de “príncipe” ao lado do mestre.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Essa dubiedade do "elogio insultoso" e do "insulto elogioso" também é característica importante das manifestações da cultura popular, servindo para inverter a ordem estabelecida, subvertendo simbolicamente o estado de coisas vigente na sociedade, celebrando a presença negra, modificando temporariamente as relações raciais no Brasil. A capoeira não deixa de ter esse papel de inversão nos dias de hoje.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Esse processo é igual ao que acontecia nos desfiles de escolas de samba antes de sua transformação em show. Mestre-sala e porta-bandeira, em geral um homem e uma mulher negra fantasiados de rei e rainha, eram as figuras de maior importância de uma agremiação.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;A conclusão é que nem sempre devemos levar ao pé da letra aquilo que escutamos numa roda. A cantiga pode estar relacionada aos subterfúgios de resistência da cultura popular, a um contexto específico na roda e a uma disputa cultural dentro da sociedade envolvente. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Por hoje é só, pessoal Até a próxima semana. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;Moreno&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20990548-116857435839561846?l=morenocapoeira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/feeds/116857435839561846/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20990548&amp;postID=116857435839561846&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/116857435839561846'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/116857435839561846'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/2007/01/entronizao-do-gigante-negro.html' title='A entronização do Gigante Negro'/><author><name>Moreno capoeira</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20990548.post-116842965724891766</id><published>2007-01-10T08:36:00.000-03:00</published><updated>2007-01-10T08:47:37.290-03:00</updated><title type='text'>Um momento irrepetível (versão do blog)</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Camaradas, um dia desses um amigo me confessou: “não gosto de assistir a vídeos de roda de capoeira, pois perde-se todo o clima da vadiação, a empolgação da música, do coro e das palmas, o sentimento de se estar fazendo parte de uma coisa única e que não vai se repetir”.&lt;br /&gt;No geral, concordo com ele. Porém, sei que nos dias de hoje, já começamos a assistir a vídeos para aprender movimentos e que há muitos DVDs de aulões de capoeira nas bancas que podem ser utilizados até mesmo para a atualização dos professores.&lt;br /&gt;Mas não era bem disso que eu queira falar. Aquele parágrafo inicial era para abordar o caráter irrepetível de toda a boa roda. Escrevo sobre isso citando um jogo que presenciei aqui em Brasília. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Tocava-se uma Benguela bem lenta quando uma pessoa da assistência abre caminho na roda e se ajoelha ao pé do berimbau. Era um senhor negro, que aparentava ter uns 50 e poucos e que vinha com uma bolsa de couro pendurada a tiracolo. Já possuía alguns cabelos brancos e uma certa barriga num físico normal para um coroa da sua idade. O problema é que, além de nunca ter sido visto no ambiente, ele havia passado na frente de uma galera na fila e nem pediu permissão para o mestre – um cara que costuma responder a tais impertinências com chutes bem colocados.&lt;br /&gt;Não existe aquele ditado -- “cachorro que engole osso, nalguma coisa se fia...”? Pois bem, pensei comigo: o que vai sair dali? Ele corria o risco de ser exposto ao ridículo ou mesmo de ganhar alguns hematomas. O senhor tinha de mostrar alguma qualidade para reverter a percepção geral que ele tinha causado na roda.&lt;br /&gt;Acontece que o tal senhor comprou o jogo e saiu num aú-cabeça de quem já entendia das coisas. Rabo-de-arraia para lá e para cá colocando um jovem professor em situações delicadas. O clima da roda ainda era meio contrário a ele, pois seu jeito de jogar – aprendido em qual vadiação? – era meio que uma afronta àquele que todos naquela roda viemos aprendendo em academias. E parece que sentir raiva do diferente, mesmo admirando- o, faz parte das contradições do ser humano.&lt;br /&gt;Mas a habilidade do cidadão já estava reconhecida e o mestre da roda – sensível para essas situações -- cantava, advertindo o capoeirista mais jovem que jogava com o senhor: “Toma cuidado, moleque atrevido/ calça de homem não dá em menino”; ou “Fulaninho, cuidado/ com esse jogo mandingado”. Em determinado momento, o cidadão pára e faz uma chamada. Uma contra-mestra já fica meio indignada: “Ei, isso é Benguela, não tem chamada!” O cidadão faz um muxoxo, um gesto de desprezo e continua a chamada. “Quem era aquela menina para lhe ensinar capoeira?” -- pensei. Algum tempo depois, seu jogo acaba e, percebendo que não foi muito bem recebido por nós, pega sua capanga de couro e vai embora.&lt;br /&gt;São coisas como essas que eu observo numa roda de capoeira, seus momentos de tensão; a impertinência do velho capoeirista, os sentimentos dúbios que sua entrada na roda despertou em nós: raiva e admiração pelo seu estilo, pela sua idade e pela sua autoridade. Alem disso, diferentes momentos da esportivização da capoeira se apresentaram para nós naquela roda e uma maneira meio mesquinha de se lidar com o que é diferente também. E só quem esteve presente viu e sentiu na pele.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                                                                            Moreno&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20990548-116842965724891766?l=morenocapoeira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/feeds/116842965724891766/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20990548&amp;postID=116842965724891766&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/116842965724891766'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/116842965724891766'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/2007/01/um-momento-irrepetvel-verso-do-blog.html' title='Um momento irrepetível (versão do blog)'/><author><name>Moreno capoeira</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20990548.post-116706076286018452</id><published>2006-12-25T11:21:00.000-03:00</published><updated>2006-12-25T12:32:42.943-03:00</updated><title type='text'>"Então, é Natal..."</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Camaradas, percebi que nas postagens anteriores ressaltei alguns aspectos negativos que acontecem no meio da brincadeira. Mas hoje é Natal e em breve estaremos num novo ano. E nesse clima de otimismo e fraternidade eu apresento alguns desenvolvimentos positivos do brinquedo percebidos por mim neste ano.&lt;br /&gt;Já escrevi sobre uma tradição de disputa entre grupos, mas, paralelamente a ela, vem se desenvolvendo outra, de cooperação. Já presenciei reuniões de capoeiristas aqui em Brasília onde muita coisa construtiva foi decidida; estive presente num "papoeira" feminino onde foram discutidas questões de gênero na vadiação, a inserção da mulher na capoeira, além da prevenção a lesões de coluna.&lt;br /&gt;A própria criação de um fórum de discussão como o "papoeira", idealizado pelo Mestre Pombo de Ouro, é uma oportunidade em que acontece a troca de idéias entre vários mestres e professores do DF e uma forma de promover a cooperação e o melhor entendimento dos mestres dentro do nosso meio.&lt;br /&gt;A criação da Praça do Capoeirista no Zoológico de Brasília também foi um marco importante que aconteceu nesse ano em Brasília, tendo à frente os mestres Adílson, Pombo de Ouro e o mestrando Baleado.&lt;br /&gt;A Roda da Torre, promovida todos os domingos pelo mestre Kall, também completou mais um ano. Esta roda é também é um bonito momento de cooperação no qual capoeiristas do Plano Piloto e das Satélites, brancos e negros, brasilienses e visitantes, brasileiros e estrangeiros vêm vadiar, com muita malícia, mas também com grande dose de respeito, colocando Brasília no mapa nacional da capoeira. Aliás, não só no mapa nacional, pois tenho fotos da mesma roda publicadas numa revista da República Checa.&lt;br /&gt;Em postagens anteriores do meu blog já frisei que a localização dessa roda na feira do Torre de Tv, um dos principais pontos de turismo e de convivência de Brasília, combina muito bem com a malandragem necessária para se jogar capoeira.&lt;br /&gt;* * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Realizando uma avaliação pessoal do ano de 2006, lembro que fiz a minha primeira viagem internacional no mundo da vadiação globalizada. Fui a Portugal e à Polônia e vi coisas interessantíssimas. Em Portugal, presenciei a capoeira fazendo um retorno indireto a suas origens africanas: vi imigrantes angolanos entrando no meio capoeirístico de Lisboa.&lt;br /&gt;Gostaria de ter conversado mais com essas pessoas para saber qual a sua visão do brinquedo, como eles interpretavam a vadiação e se relacionavam com sua africanidade e brasilidade. Pelo pouco que eu observei, eles possuem, dentro do meio da capoeira, um status mais elevado do que na sociedade portuguesa que os envolve.&lt;br /&gt;A mesma coisa acontece com os próprios mestres brasileiros, que possuem certo status como trabalhadores culturais sendo, em geral, mais bem vistos do que os trabalhadores não-qualificados de mesma nacionalidade que estão presentes em grande número em Portugal, os chamados “brazucas”.&lt;br /&gt;Na Polônia, tive uma surpresa com o alto nível dos alunos do mestre Jorge, do Beribazu. Camaradas que jogam e dão aulas em outros países europeus já me falaram que, em alguns países do Velho Continente, ainda não é possível jogar mais solto, realizando um jogo mais veloz e competitivo. Na Polônia, porém, encontrei capoeiristas de bom nível que não deixam nada a dever aos membros brasilienses do grupo possuidores de graduações equivalentes.&lt;br /&gt;O interesse por tudo o que é brasileiro é patente entre os capoeiristas daquele país. Os alunos mais antigos falavam português fluente e se interessavam por samba, choro, frevo e funk carioca. Lá também a imagem do Brasil está muito ligada à alegria de viver, à espontaneidade. Chega a haver uma idealização muito grande da vida nas favelas brasileiras. Isso é até um pouco mais generalizado em Portugal.&lt;br /&gt;Já ouvi falar que a identificação dos poloneses com o brinquedo, em contraposição à dificuldade de sua absorção por parte de povos de países com passado imperialista, teria a ver com a história de dominação vivida por aquele país, sempre às voltas com invasões russas e alemãs.&lt;br /&gt;Vejam só que tempos interessantes de globalização: uma arte marcial que tem suas raízes na população escrava de origem africana transplantada para o Brasil -- fruto da capacidade de superação contra uma realidade adversa -- encontra ressonância no universo simbólico de um povo que teve que conviver com o domíno estrangeiro durante muito tempo de sua história. Uma situação próxima a da sujeição escravista, pelo menos na visão dos poloneses.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;·        * *&lt;br /&gt;·        &lt;br /&gt;Por hoje é só, camaradas! É com esse espírito de otimismo que desejo um feliz Natal e um Ano Novo cheio de realizações dentro e fora da vadiação a todos nós.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20990548-116706076286018452?l=morenocapoeira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/feeds/116706076286018452/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20990548&amp;postID=116706076286018452&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/116706076286018452'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/116706076286018452'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/2006/12/ento-natal.html' title='&quot;Então, é Natal...&quot;'/><author><name>Moreno capoeira</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20990548.post-116637335708605733</id><published>2006-12-17T13:33:00.000-03:00</published><updated>2006-12-22T14:10:17.746-03:00</updated><title type='text'>A “resistência surda” dos capoeiristas</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Camaradas, um dos melhores livros que já li sobre nosso brinquedo foi o Capoeira - os fundamentos da malícia, de Nestor Capoeira. Recomendo para qualquer um que esteja querendo conhecer alguma coisa sobre a história da brincadeira e ter alguma noção da visão de mundo que está por trás dela. É dele a frase: "na Ásia, existe o zen; a Europa criou a psicanálise; no Brasil, temos o jogo da capoeira."&lt;br /&gt;Essa frase mostra que Nestor vê a capoeira como uma criação cultural que responde a necessidades humanas fundamentais, tais como a necessidade de extravasar os instintos de violência existentes em todos nós, a necessidade de ritualização da existência; a busca, no contexto fragmentado da vida moderna, por uma âncora estabilizadora, pelo conhecimento de si e dos outros e por uma visão unificada do mundo.&lt;br /&gt;Daí que, diferente de muitos autores, Nestor Capoeira não concorda com uma alardeada decadência da capoeira no mundo de hoje, fruto da "perda das tradições". Pelo contrário, ele defende que a "era de ouro" do nosso brinquedo não está num passado distante, mas no presente.&lt;br /&gt;Apesar dessa visão otimista, Nestor Capoeira faz algumas críticas a determinadas visões do nosso jogo. Tendo participado dos primórdios do grupo Senzala, Nestor faz algumas reservas ao método de ensino criado por tal grupo nos anos 60. Baseadas na repetição, enfatizando o condicionamento físico e praticando uma forma meio autoritária de ensino, as aulas do grupo teriam deixado de lado a malícia e a criatividade da vadiação como ensinada e praticada pelos velhos mestres baianos.&lt;br /&gt;Isso não impede o autor de reconhecer o marco que foi esse grupo para a história do brinquedo. Hoje em dia, quase todos os grupos de capoeira, incluindo os de angola, utilizam algumas de suas contribuições, e essa convergência foi que levou alguns estudiosos, nos anos 80, a escreverem que a vadiação estava conhecendo uma unificação em torno de uma "capoeira contemporânea" que juntaria angola e regional e teria métodos semelhantes de treinamento.&lt;br /&gt;O Senzala da década de 60 fez com a capoeira algo parecido com o que mestre Bimba fez com a vadiação nos anos 30: criou uma nova metodologia de ensino, com uma estética mais esportiva do jogo (golpes esticados e maior velocidade) e apresentou a capoeira para estratos sociais distanciados da vadiação. Afinal, o fato de o grupo ser formado por garotões brancos da Zona Sul do Rio de Janeiro, vitoriosos em vários campeonatos nacionais, colaborou para a disseminação tanto de seu método de ensino quanto de sua estética de jogo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esse assunto de metodologia de ensino é muito interessante. Eu tendo a perguntar até que ponto um sistema pedagógico pode moldar um capoeirista. Tudo bem, sabemos que dois capoeiristas que treinam no mesmo grupo com o mesmo mestre tendem a desenvolver um jogo parecido, mas será que não existe um limite para a fabricação de robôs? O fisiotipo, o desenvolvimento dos músculos e de sua elasticidade e até mesmo o temperamento do(a) camarada, não estabeleceriam um limite para o método?&lt;br /&gt;Esse assunto é fascinante porque toca num tema muito caro a nós capoeiristas: a liberdade de desenvolver um jogo próprio e de encontrar a sua individualidade na vadiação. Segundo o discurso de todos os mestres -- mesmo o daqueles que utilizam os métodos mais autoritários -- este seria o objetivo de todo o capoeirista.&lt;br /&gt;È claro que, na maioria das vezes, o que acontece é que a pessoa acaba adaptando os movimentos ensinados pelo mestre à sua constituição física, o que não deixa de ser uma forma de desenvolver o próprio jogo.&lt;br /&gt;Porém, o mais interessante é que, muitas vezes, o limite ao método é dado por aspectos que estão fora do controle do aluno. Temperamento e fisiotipo são coisas que podem ser trabalhadas, mas que não podem ser modificadas. Então, muitas vezes, a resistência ao método é surda e aparece na forma de uma insatisfação difusa para com o professor ou mestre; ou mesmo sob a forma do não-aprendizado de determinados movimentos ou de uma postura de jogo exigida pelo grupo.&lt;br /&gt;Ora, então, a adaptação do aluno a um grupo tem a ver com alguma correspondência entre fatores de sua personalidade que ele não pode mudar e a forma de ensino do grupo ou do mestre. Assim, idealmente, a escolha de um grupo deveria ser fruto de afinidades eletivas, diria o escritor alemão. “O semelhante atrai o semelhante”, diria o mestre Pombo de Ouro.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;* * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tenho um camarada bem longilíneo que passou anos treinando num grupo que repetia todo dia aú com a cabeça no chão. Esse colega até se esforçou, mas até hoje não consegue fazer muito bem esse movimento. Assim, meu colega pode ter sido ensinado de uma forma não adequada ao seu temperamento, seu fisiotipo ou ao seu ritmo de aprendizagem. Convenhamos que, para uma pessoa alta, o movimento de colocar a cabeça no chão é mais problemático do que para um baixinho e pode até mesmo ensejar situações de jogo que lhe seriam muito desfavoráveis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O método de ideal de ensino deveria ser muito próximo da não-existência de método, deveria aproveitar as características de cada aluno para criar um capoeirista diferente, deveria trabalhar cada aluno individualmente. Mas isto seria pedir demais, não é?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20990548-116637335708605733?l=morenocapoeira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/feeds/116637335708605733/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20990548&amp;postID=116637335708605733&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/116637335708605733'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/116637335708605733'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/2006/12/resistncia-surda-dos-capoeiristas.html' title='A “resistência surda” dos capoeiristas'/><author><name>Moreno capoeira</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20990548.post-116567259795025738</id><published>2006-12-09T09:45:00.000-03:00</published><updated>2006-12-17T21:18:50.083-03:00</updated><title type='text'>Uma tradição que queremos esconder</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Camaradas, muitas pessoas têm a imagem da capoeira como uma manifestação cultural pura e inocente, livre de jogos de poder e de disputas que parecem ter a ver com vaidade. Quando converso com pessoas de fora do meio sobre esse assunto, elas chegam a ficar espantadas: lutas por espaço e por prestígio são coisas que muitos julgam não existir no meio da brincadeira. Muitos pensam que isso é uma coisa recente, da época atual em que uma tradição de respeito mútuo teria se perdido. Mas não é verdade, a competição por prestígio e pelo poder de influenciar a maior quantidade de capoeiristas possível é também parte da tradição da brincadeira. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Basta lembrarmo-nos da disputa que envolveu os mestres Pastinha e Noronha no surgimento mesmo do Centro Esportivo de Capoeira Angola nos anos 40. Ou da inimizade entre dois mestres famosos da Salvador dos anos 60 fomentada pela competição por incentivo financeiro da Secretaria de Turismo da Bahia. Segundo Waldeloir Rêgo, esses dois mestres chegaram a encomendar despachos um contra o outro.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;É interessante a gente ficar consciente dessas disputas de poder porque elas influenciam até no estilo de capoeira dominante de cada época. Num churrasco aqui em Brasília, um camarada paraense me falou  mais ou menos o seguinte: "eu era &lt;em&gt;sarobeiro, &lt;/em&gt;treinava com um grupo lá no Pará que tinha o seguinte padrão de ginga: a cada troca de base batia duas palminhas. Depois chegou na cidade um cara do Rio de Janeiro, aluno de um mestre que ninguém lá no Pará conhecia, dando porrada em todo mundo e mudando o estilo da ginga e da movimentação. O resultado foi que passei a treinar com esse grupo carioca."&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Em outro estado do Norte, ouvi de um mestre importante que ele teve de aceitar um desafio de porrada de um capoeirista recém-chegado na sua cidade. Foi uma batalha não por dinheiro -- porque numa cidade pequena não dá mesmo para ganhar muito dando aula de capoeria--  mas por prestígio dentro do meio capoeirístico, pela manutenção de um domínio espacial. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;No sul, ouvi a confissão de um mestre histórico que disse ter ficado até psicologicamente afetado pelo clima muito competitivo de disputa entre seu grupo local e outro que estava se expandindo nacionalmente. Segundo ele,  o nome desse grupo não era nem mencionado dentro do seu círculo de alunos. Isso parece ter servido como um exorcismo simbólico do grupo rival do mundo da capoeira. O rival era tão odiado que era demonizado.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Esse padrão parece ter sido muito forte no Brasil no final dos anos 80 até o começo dos anos 90. Talvez porque grupos com uma política agressiva de expansão meio que desarranjaram a divisão espacial da capoeira no país inteiro. Uma capoeira mais marcial e até desleal deve ter se desenvolvido nesse contexto, numa época em que houve desavenças que chegaram às vias de fato fora da roda.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;No exterior, essa disputa permanece, porém com uma característica menos física, mas com uma violência simbólica muito grande. A estudiosa portuguesa Ana Jaqueira compara a expansão da capoeira pelo mundo com um projeto colonial, uma vingança do colonizado sobre o colonizador, com uma ideologia clara de dominação cultural e de manipulação dos novos adeptos. A capoeira seria um "polvo brasileiro" espalhando seus tentáculos pelo mundo e dividindo-o em possessões coloniais.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Camaradas, por essa semana é só. Espero não ter chateado ninguém mencionando um lado de nossa tradição que não é aquele que queremos mostrar.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;Moreno&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20990548-116567259795025738?l=morenocapoeira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/feeds/116567259795025738/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20990548&amp;postID=116567259795025738&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/116567259795025738'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/116567259795025738'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/2006/12/uma-tradio-que-queremos-esconder.html' title='Uma tradição que queremos esconder'/><author><name>Moreno capoeira</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20990548.post-116482228617811176</id><published>2006-11-29T14:24:00.000-03:00</published><updated>2006-11-30T14:42:47.186-03:00</updated><title type='text'>Correções e complementações</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Caros leitores, este humilde cronista pede desculpa por alguns erros que cometeu em textos passados e aproveita para corrigir alguns deles. Segue também algum complemento das crônicas anteriores.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;* * *&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Na postagem "Ô sim, sim, sim/ô não, não , não" faltou a representação do toque de São Bento Grande da Regional. Então lá vai: dom dom dim / dom "tch" dim. Onde o "tch" é o chiado do arame semi-preso. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Colocado assim no corpo do toque, esse som que não tem identidade introduz uma espécie de breque no ritmo. É a dubiedade, a malícia da capoeira que ele invoca dessa maneira, ao mesmo tempo que leva o toque mais "prá frente", aumentando a sua característica de competição e luta.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;* * *&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Na crônica sobre o livro de André Lacê, escrevi que mestre Bimba nunca teria falado que capoeira é luta. Não é verdade. Existem muitas fontes, principalmente artigos de jornal, que mostram que mestre Bimba tentou instituir a capoeira regional primeiro como luta de ringue já nos anos 30. Tais fontes foram trabalhadas pelo pesquisador Jair Moura e pelo mestre Itapoã.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;* * *&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Pensando bem, a prática, muitíssimo comum hoje em dia, de se tirar fotos ao lado de mestres e pessoas importantes do meio da capoeira corresponde não só à busca da entrada num mundo mítico criado pela brincadeira mas também a uma busca de acúmulo de prestígio.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Cada foto tirada ao lado de um mestre famoso é interpretada como um reconhecimento que o fotografado obtém do mestre lendário. É uma espécie de autorização vinda de uma figura superior da escala hierárquica. A magia, o carisma e a autoridade desse mestre acabariam legitimando o discípulo retratado com ele.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Na volta da viagem, o discípulo pode expor a tal foto e obter entre seus pares o reconhecimento da autoridade que de que o mestre lhe investiu. Poderá dizer que tem "mais bagagem" de capoeira do que outros colegas.&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;* * *&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Um dos pecados do documentário sobre o mestre Bimba foi o de não ter entrado nas polêmicas que envolvem a capoeira regional. Até que ponto ela foi baseada na ginástica nacional? A regional é somente um projeto incompleto de uma luta que se desvirtuou em exibição? Apenas a capoeira angola pastiniana é que seria a "legítima capoeira tradicional"? Como os megagrupos e franquias de capoeira de hoje estão determinando a organização da brincadeira?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20990548-116482228617811176?l=morenocapoeira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/feeds/116482228617811176/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20990548&amp;postID=116482228617811176&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/116482228617811176'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/116482228617811176'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/2006/11/correes-e-complementaes.html' title='Correções e complementações'/><author><name>Moreno capoeira</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20990548.post-116446263305333829</id><published>2006-11-25T10:11:00.000-03:00</published><updated>2006-11-26T12:50:00.093-03:00</updated><title type='text'>Escrita em transe</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Amigos e amigas, estou escrevendo essas linhas ao som do Cd do Curso de Capoeira Regional de mestre Bimba. E é isto que vai determinar o conteúdo da presente crônica. Já escrevi no meu blog sobre alguns aspectos irracionais da capoeira, o principal deles sendo uma sensação de esquecimento da própria individualidade, um mergulho na coletividade da roda causado pela música. O Dr. Decânio chama isso de "transe capoeirano". Pois bem, estou escrevendo nesse estado de transe e, portanto, devo ser perdoado por alguma coisa mais estranha que surgir na crônica de hoje.&lt;br /&gt;Fui recentemente a um batizado no estado do Tocantins. Lembro-me de que o evento transcorreu maravilhosamente bem e, no final, houve a distribuição dos certificados. Ora, meu primeiro pensamento ao receber o “canudo” foi o de guardar imediatamente o papel que era o comprovante de que estive no evento e de que, pelo menos em tese, saí de lá um capoeirista mais experiente.&lt;br /&gt;Qual não foi a minha agradável surpresa ao perceber que todos os meus colegas de encontro utilizavam o certificado como uma espécie de livro de recordações. Pediam para os mestres e as amizades recém-formadas escreverem mensagens de despedida naquele papel.&lt;br /&gt;Entendi então o novo significado que eles davam para o diploma: tão importante quanto a assinatura dos mestres era a comprovação de que houve a formação de amizades, de que pessoas travaram conhecimento e influenciaram umas as outras, tenha sido na roda, no papoeira ou numa mesa de bar. No final das contas, despedia-se do batizado com a face do certificado completamente preenchida por assinaturas e mensagens.&lt;br /&gt;Assim, sob um ponto de vista oficialista, o documento estava adulterado; porém, sob o ponto de vista mais importante – o da vivência daquelas pessoas -- era o contrário, o que valia do encontro era aquilo mesmo: a sensação de que se fez a diferença para alguém, de que se está a salvo do esquecimento total na memória das outras pessoas, de que houve um momento de eternidade naquele espaço de três dias.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20990548-116446263305333829?l=morenocapoeira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/feeds/116446263305333829/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20990548&amp;postID=116446263305333829&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/116446263305333829'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/116446263305333829'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/2006/11/escrita-em-transe.html' title='Escrita em transe'/><author><name>Moreno capoeira</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20990548.post-116439373660634434</id><published>2006-11-24T14:38:00.001-03:00</published><updated>2006-11-24T15:42:16.630-03:00</updated><title type='text'>Mestre Bimba, Pelé e Michael Jordan</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Senhores, não pretendo esconder de ninguém que me inspiro em nomes famosos da crônica desportiva para escrever minhas postagens. Nelson Rodrigues, Tostão e Juca Kfouri são alguns de meus modelos, pois sei que muitas das coisas que acontecem no meio do futebol -- na verdade de todos os esportes -- também acontecem, em algum grau no meio capoeirístico.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Dito isso, passo à crônica de hoje. Estive num batizado semana passada onde foi discutida a questão dos apelidos na capoeira. Um determinado mestre se mostrou indignado com o batismo de novos "Bimbas", "Pombos", "Deputados", "Aberrês" e outros nomes de mestres famosos e históricos. Em contraposição, um professor disse que não via nada de mais em querer homenagear a memória de um personagem importante da capoeira batizado um de seus alunos com seu nome.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Acontece que essa é uma questão  insolúvel que envolve uma característica determinante do esporte: a sacralização de seus ídolos. De que forma os craques do passado devem se lembrados: pela sua constante evocação e pela espera por algo que seria a sua volta ou pela ênfase na sua singularidade e na nossa eterna orfandade?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Cada uma dessas formas de responder a tal dilema é adotada em esportes como o basquete ou o futebol. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;No basquetebol americano, os times costumam aposentar os números das camisas que foram usadas pelos seus maiores jogadores. Dessa maneira,  o nº23 do Chicago Bulls, que pertenceu ao fenomenal Michael Jordan, não poderá mais ser utilizado por nenhum jogador daquele time, bem como o 32 do Los Angeles Lakers, associado definitivamente a Magic Johnson. A ênfase é na singularidade do mito.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Por outro lado, no futebol, essa aposentadoria da camisa do craque não foi adotada. E nem parece que o será tão cedo. Tal esporte tem uma forma diferente de lidar com a sacralização dos seus expoentes máximos: pela repetição dos números de suas camisas, assistimos à rememoração, à atualização de mitos do passado. Assim, o nº 10 do Santos evocará sempre Pelé, o 10 do flamengo será sempre Zico e o 7 do Botafogo, Garrincha.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Não é à toa que até recentemente, Robinho jogou com a 10 do Rei e Túlio (em meados da década de 90) com a 7 do Anjo das Pernas Tortas. Havia uma jogada de marketing, é claro, mas ela correspondia à vontade dos torcedores de ver seus heróis ressuscitados, alguns de seus mitos voltando à vida e aos gramados. É como se evocássemos constantemente o seu retorno.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Porém, essas duas formas de se lidar com a sacralização do ídolo freqüentemente se encontram misturadas. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Na NBA, os novatos mais talentosos se não jogam nos clubes por onde passaram seus modelos, geralmente adotam as camisetas com os números deles. Excetuando-se os Lakers e os Bulls, existe uma profusão de números 23 e 32 entre os times americanos. Se não me engano, o mais novo talento da Liga, Lebron James, é o 23 de seu time.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Enquanto isso, nos domínios do "esporte bretão", ficamos sempre achando que a técnica, o estilo ou o jogo dos atuais portadores das camisas dos craques do passado jamais correspondem ao modelo a que fazem referência, a repetição sendo impossível. Por vezes até surge, como no Boca Juniors argentino, a idéia de aposentar a camisa do craque.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Assim, a sacralização dos velhos mestres da capoeira gera o mesmo dilema que a mitificação dos craques do basquete ou do futebol. Uma das especificidades da bricadeira é que, numa roda, não usamos uniformes numerados.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;Moreno&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20990548-116439373660634434?l=morenocapoeira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/feeds/116439373660634434/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20990548&amp;postID=116439373660634434&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/116439373660634434'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/116439373660634434'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/2006/11/mestre-bimba-pel-e-michael-jordan_24.html' title='Mestre Bimba, Pelé e Michael Jordan'/><author><name>Moreno capoeira</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20990548.post-116430552449876969</id><published>2006-11-23T14:32:00.000-03:00</published><updated>2006-11-23T16:17:12.393-03:00</updated><title type='text'>"A capoeiragem no Rio de Janeiro", de André Lacê</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Caros leitores, desculpem o entusiasmo desse cronista calouro que escreve quase todo dia, mas é que quero compartilhar algumas das minhas descobertas recentes no campo da história da capoeira. Atualmente, estou lendo o livro de André Lacê "A capoeiragem no Rio de Janeiro - Sinhozinho e Rudolf Hermanny" e ele realmente dá uma sacudida naquelas concepções formadas que a gente tem sobre as origens da capoeira regional.&lt;br /&gt;Vale a pena citar uma passagem especial:" O nome &lt;strong&gt;Regional&lt;/strong&gt;, decididamente, não foi cunhado para se contrapor a &lt;strong&gt;Angola, &lt;/strong&gt;até porque ambas capoeiras eram locais, da &lt;strong&gt;região&lt;/strong&gt; da Bahia; e sim para se contrapor à &lt;strong&gt;capoeira Nacional&lt;/strong&gt;.&lt;strong&gt; &lt;/strong&gt;Claro, em função da forte tradição da capoeira baiana e, sobretudo, do extraordinário talento de Mestre bimba, ninguém em sã consciência poderá afirmar que a Regional é cópia fiel da Capoeira praticada por Sinhozinho, Zuma e outros. Para começar, a versão regional não abriu mão nem do berimbau nem do canto, componentes que inexistem na capoeir de Zuma, Sinhozinho, Hermanny e outros." (p.89)&lt;br /&gt;Apoiando-se no fato de que o Rio de Janeiro, além de ser a capital do país, também era uma metrópole que irradiava sua influência por todo o Brasil, André Lacê argumenta que a Luta Regional Baiana teve como modelo a Ginástica Nacional. E isso é sustentado por outras evidências: os primeiros alunos estudantes de medicina de mestre Bimba, principalmente o pioneiríssimo Cisnando, conheciam o método do mestre Zuma; e o próprio Manoel dos Reis Machado demonstrou que o conhecia quando deu uma entrevista, em 1936, comentando as regras que deveriam ser utilizadas quando das suas lutas com outros capoeiristas nos ringues de Salvador. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Interessantíssimas as páginas em fac-símile do método da ginástica nacional. Lacê chama atenção para o fato de que vários dos golpes catalogados tinham origem na "pernada carioca", algo próximo ao "batuque" baiano: banda de frente, banda amarrada, banda jogada, banda forçada. Esse fato, o aproveitamento dos golpes do batuque, nos era apresentado até agora como uma característica apenas da capoeira regional. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Além disso, existem indicações -- de artigos de jornais de época citados no livro -- de que já existiam no Rio de Janeiro academias da capoeiragem carioca em 1931. Ou seja, pelo menos contemporâneas do centro de cultura física do grande mestre baiano.&lt;br /&gt;Outros fatos desconhecidos, pelo menos para mim, são as lutas que os "regionais" fizeram contra os "nacionais" no Rio de Janeiro em 1948. Os primeiros, representados por Fernando Perez e Jurandir, foram derrotados por Rudolf Hermanny e Luiz Aguiar, o Cirandinha. Tais derrotas teriam sido "esquecidas" pelos historiadores ligados à capoeira regional, o que teria condenado a memória da capoeira mais eficiente de Zuma e de Sinhozinho e seus alunos ao limbo.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Para completar essa resenha, devo dizer que o autor, em vários momentos, critica a ênfase dada pelos regionais da época sobre o caráter marcial da capoeira do mestre Bimba, pois tal estilo buscava se legitimar pelo discurso da eficiência, embora o caminho da folclorização e das exibições em esquetes já estivesse aberto.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Lacê também estende essas críticas aos estilos mais combativos da capoeira contemporânea que buscam se legitimar pelo uso da violência argumentando que, para provar eficiência e se atualizar tecnicamente, a capoeira que deseja ser luta deve voltar aos ringues.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Livros como esse de André Lacê trazem uma grande contribuição ao mundo da capoeira pois ajudam na desmistificação de sua história e nos fazem pensar nos embates de poder que acontecem por trás da escrita da mesma. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O livro também ajuda na compreensão da figura do grande mestre Bimba ao mesmo tempo em que torna mais claras nossas escolhas individuais no campo do brinquedo. Depois da leitura d'&lt;strong&gt;A capoeiragem ... &lt;/strong&gt;fica até mais caracterizado seu projeto de modernização étnica da capoeira dentro da tradição afro-brasileira. Um projeto de capoeira-luta que teve como limitador(?) a vitalidade da vadiação baiana.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Quanto a mim... continuo hipnotizado pela dubiedade do toque da regional tal como ensinada pelo mestre Pombo de Ouro.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20990548-116430552449876969?l=morenocapoeira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/feeds/116430552449876969/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20990548&amp;postID=116430552449876969&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/116430552449876969'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/116430552449876969'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/2006/11/capoeiragem-no-rio-de-janeiro-de-andr.html' title='&quot;A capoeiragem no Rio de Janeiro&quot;, de André Lacê'/><author><name>Moreno capoeira</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20990548.post-116423824968848690</id><published>2006-11-22T19:25:00.000-03:00</published><updated>2006-11-23T08:59:47.723-03:00</updated><title type='text'>Postagem de batismo</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Postagem de batismo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Caros leitores, fico feliz em registrar que essa é a primeira postagem inédita que vai para a minha coluna no Jornal Mundo Capoeira. A hospedagem desse site foi acertada num batizado de capoeira em Arraias - TO. Assim, não será por acaso que a crônica de estréia será um comentário sobre os bastidores daquele evento. Com essa postagem, considero a minha coluna devidamente batizada e pronta para entrar num universo mais amplo dos leitores amantes da capoeira.&lt;br /&gt;Nessas viagens de capoeira, é comum encontrarmos figuras interessantes, meio malucas à primeira vista, mas capazes de provocar insights bacanas. Pois bem, nesse evento havia o encarregado das filmagens das rodas, do papoeira e do batizado em si. Acontece que esse rapaz era um evangélico estudioso do judaísmo e ele ficou entusiasmadíssimo quando viu o símbolo da capoeira regional nas camisas de alguns dos participantes do evento: a Estrela de Davi (ou o "Cinco Salomão") encimado por uma cruz e com a letra "R" no seu interior.&lt;br /&gt;A partir daí, parece que um botão de liga-desliga que existia em sua cabeça foi pressionado e ele começou a "viajar": mestre Bimba e até Zumbi dos Palmares viraram judeus! Zumbi -- segundo nosso câmera -- era um judeu-africano escolhido por Deus para levar seu povo à liberdade.&lt;br /&gt;Ora, acontece que as coisas não são tão simples assim. Os símbolos de uma religião podem muito bem receber outras interpretações feitas por aqueles que o acolhem. Sabemos que na Salvador do século XIX -- como escreve João José Reis -- era comum o uso de amuletos pelos africanos e seus descendentes. Tais amuletos tinham diversas origens: européia, africana, católica, islâmica ou pagã. Patuás, figas, dentes de coelho, orações islâmicas dobradas e penduradas no pescoço eram alguns deles. Tais amuletos teriam a função de espantar os maus espíritos do seu portador. Teriam poderes mágicos contra feitiços.&lt;br /&gt;Segundo Mary Karash, estudiosa da vida dos escravos na cidade do Rio de Janeiro, um dos elementos principais das religiões banto seria a crença no poder mágico de determinados objetos, que podiam ser os mais variados, e até estátuas de santos católicos.&lt;br /&gt;Sendo assim, cabe a afirmação: os capoeiras da cidade de Salvador interpretavam a estrela de Davi de um modo muito diverso daquele dos judeus. Talvez mesmo como uma espécie de patuá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * *&lt;br /&gt;Acabo de assistir a um documentário na TV sobre a influência das culturas africanas na sociedade brasileira. Em determinado momento, apareceu o presidente do Afoxé Filhos de Gandhi falando da criação desse bloco carnavalesco. Fiquei sabendo que ele foi formado em 1949 por estivadores de Salvador, a maioria filhos de santo, que quiseram homenagear o ideólogo da resistência pacífica como forma de protesto e um dos líderes da independência indiana -- acontecida no ano anterior .&lt;br /&gt;Frente a esse fato, gostaria de saber que significado aquelas pessoas atribuíam às ações do líder indiano, em que ponto as idéias de Gandhi combinavam-se com as deles, em que ponto afastavam-se e por que diabos os caras acharam que Gandhi tinha a ver com o carnaval.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * *&lt;br /&gt;Parece que esse mundo é mesmo muito louco. Um símbolo religioso ou político pode ser interpretado de várias maneiras dependendo da realidade de quem o recebe. De repente, nossos botões de liga-desliga estão sempre na posição "on". Isso até faz a gente se interessar pelo motivo do entusiasmo daquele rapaz pelo judaísmo.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;Moreno&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20990548-116423824968848690?l=morenocapoeira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/feeds/116423824968848690/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20990548&amp;postID=116423824968848690&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/116423824968848690'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/116423824968848690'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/2006/11/postagem-de-batismo.html' title='Postagem de batismo'/><author><name>Moreno capoeira</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20990548.post-116350690002306916</id><published>2006-11-14T08:49:00.000-03:00</published><updated>2006-11-14T20:55:15.250-03:00</updated><title type='text'>Ô sim, sim, sim / ô não, não, não</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Depois da última postagem, mais pessoal e emotiva, segue esta, num tom mais comedido.&lt;br /&gt;Tenho um colega advogado para quem a maior dificuldade na compreensão da capoeira é o seu aspecto ambíguo de luta e dança. De fato, já escreveram sobra a brincadeira: "luta de dançarinos e dança de gladiadores." Acontece que o mundo da lei é assim: exige o preto no branco, tons de cinza são difíceis de aceitar. O problema é que são eles que predominam no universo das manifestações ligadas à cultura popular.&lt;br /&gt;Por outro lado, conheço um &lt;em&gt;camarado&lt;/em&gt; militar que treinou na Curitiba dos anos 70 e foi muito marcado pelo estilo marcial do mestre Sergipe. O Coronel é daqueles que comungam com mestre Bimba -- "capoeira é malícia" -- em oposição à afirmação mais totalizante do mestre Pastinha -- "é tudo o que a boca come". Essa oposição é clássica: enquanto um privilegia um aspecto "positivo" da capoeira, o outro ressaltaria o seu aspecto "negativo", de aceitação da vida como ela é, com suas ambigüidades e contradições, com amizades, inimizades e falsidades. Para aquele meu camarada, capoeira é luta.&lt;br /&gt;Mas o interessante é o criador da regional não ter dito algo como "capoeira é luta". Aliás, quando o disse foi justamente no momento em que recusou um desafio a seus alunos em 1946. Disse que a capoeira era uma luta muito perigosa até para estar num ringue. Era uma luta para a rua porque muito traiçoeira. De maneira semelhante, o mestre Pastinha dizia: "o capoeirista é aquele que corre para não bater". Ou seja, Bimba também se dava bem com as ambigüidades.&lt;br /&gt;Contrastando com os dos grandes mestres baianos, os projetos cariocas de esportivização da capoeira do início do século passado íam na direção da perda de suas características africanas e populares e de sua ambigüidade. A Ginástica Nacional de Aníbal Burlamaqui suprimia a roda, a música, os instrumentos, as palmas e a ginga. Deixava apenas os golpes. Ora, era exatamente no que ficou de fora que residia a riqueza e a complexidade da vadiação.&lt;br /&gt;A dualidade dança-luta, cooperação-competição, lúdico-agônico estaria presente em todos os componentes de uma roda de capoeira. A começar pela instrumentação. Por exemplo, nos três toques básicos do berimbau: o arame preso (ataque, capoeira positiva), o arame solto (defesa, negativa) e a corda semi-presa (a ambigüidade).&lt;br /&gt;Na tradição do mestre Pastinha, o berimbau gunga toca angola (dom-dim) -- ataque, positivo --, o médio inverte (dim-dom) -- defesa, negativa -- e o viola repica e improvisa indo e voltando entre os dois anteriores -- a encarnação da malícia, da ambigüidade e indeterminação entre luta e dança. A traição a um padrão estabelecido.&lt;br /&gt;Isso não se perde no São Bento Grande da Regional. O único berimbau funciona como se concentrasse toque, toque invertido e repique num instrumento, tendo ainda a função de chamar o jogo "prá frente". O toque tem duas partes e, em determinado momento, uma quebra de ritmo com a pedra semi-presa fazendo parte de sua estrutura, a malícia de que falava o mestre Bimba.&lt;br /&gt;A mesma estrutura estaria presente no jogo físico: movimentos de ataque -- "capoeira positiva", como falava mestre Pastinha -- , movimentos dedefesa -- ou "capoeira na negativa" e ginga -- um momento de onde podem sair ataque e defesa, o momento da malícia pura, da traição aos padrões.&lt;br /&gt;Cabe ressaltar que isso não é coisa de intelectual. Nos manuscritos do mestre Pastinha e em seus depoimentos gravados, ele mostra plena consciência dessa simbologia da capoeira. Ele chegou mesmo a tentar elaborar uma filosofia para a vadiação. Já mestre Bimba utilizava histórias de fatos que teriam sido vividos por ele para ressaltar a importância da malícia e de sua percepção para o capoeirista. É só dar uma lida no Dr. Decânio ou escutar depoimentos de outros de seus alunos.&lt;br /&gt;Essa ambigüidade é fundamental em todas as formas de cultura popular e representa uma visão de mundo daqueles que têm consciência de que a ordem, o preto no branco, lhes é desfavorável e que, para sobreviver é necessário explorar suas brechas, negando-a através de sua submissão. A capoeira não deixa de ser uma expressão simbólica dessa visão de mundo.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;Moreno&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20990548-116350690002306916?l=morenocapoeira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/feeds/116350690002306916/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20990548&amp;postID=116350690002306916&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/116350690002306916'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/116350690002306916'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/2006/11/sim-sim-sim-no-no-no.html' title='Ô sim, sim, sim / ô não, não, não'/><author><name>Moreno capoeira</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20990548.post-116327477236795971</id><published>2006-11-11T15:55:00.000-03:00</published><updated>2006-11-13T00:36:29.550-03:00</updated><title type='text'>Fragmentos irracionais sobre a capoeira</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Senhores, confesso que sou um camarada que adora ficar no aconchego de sua casa e que só sai de lá tendo a certeza de que será bem acolhido no ambiente de destino. Felizmente, em certos momentos certos lugares da cidade parecem possuir uma aura capaz de capturar alguém e de fazê-lo se sentir parte de uma coletividade. Nesse blog já escrevi sobre um deles: a Torre de TV.&lt;br /&gt;Um dia desses fui comprar um berimbau na barraca do Jô (ou Zeu?), antigo aluno do Vermelho Boxeur, mestre que depois da morte de Manoel dos Reis Machado ficou dando aulas em sua academia. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O Zeu corresponde ao estereótipo que fazemos do baiano: realizando todos os gestos relacionados a suas vendas num vagar envolvente, ele hinotiza o freguês. Serrar uma parte rachada da verga do berimbau, colocar um barbante numa cabaça, ensinar com carinho uma criança a tocar são bento grande de angola e contar histórias da época em que ganhou a medalha de ouro num capeonato de luta de capoeira, tudo isso acaba fazendo a gente se esquecer do ritmo diário da vida cotidiana e pensar como estamos afastados da lentidão original da existência (se é que ela um dia foi lenta).&lt;br /&gt;Nesse dia, fiquei tocando o berimbau que eu comprei durante mais de uma hora sentado na mureta das fontes de água em frente à Torre. Nunca tinha ficado por tanto tempo naquele lugar, nunca tinha me sentido tão parte dele, tão absorvido pelo ambiente da feira e pelo toque do meu berimbau, nunca tinha me exposto dessa maneira à minha cidade. Poucas vezes, desde que a deixei por ano e meio a alguns anos, a amei tão intensamente. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;* * *&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;div align="justify"&gt;O relato daquele amigo meu sobre o grupo em que treinou, me lembrou de rituais de batizado que já presenciei. Me lembro da comemoração dos 30 anos de capoeira de um mestre daqui de Brasília. Veio gente de seu grupo do Amazonas, do Tocantins e até do México e o encerramento do evento foi marcado, não por acaso, para o dia dos pais. Após a roda final, os mestres e professores do grupo fizeram declarações de amor ao seu mestre e chamaram-no de pai. Foi emocionante. Até eu chorei, logo eu que nem era do grupo e não conhecia muita gente entre os presentes.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;* * *&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Tenho muito contato com o mestre Pombo de Ouro, e ele vive me cobrando que eu tire fotos dos eventos de que participo. Agora é que percebo que a sua preocupação é a de que eu construa uma espécie de mitologia individual na capoeira, uma narrativa que dê sentido à minha experiência na vadiação. A preocupação do Mestre Pombo com a história individual do capoeirista, com a sua linhagem e sua ancestralidade faz parte de sua concepção de capoeira como sendo uma corrente infinita que nunca se rompe e que tem como elos cada capoeiristazinho por pior que ele jogue. Estaríamos participando de um fluxo em direção ao futuro. É um consolo (poderoso) contra a morte.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;* * *&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Não é algo completamente irracional a nossa relação com a brincadeira? No caso dos domingos na Torre, buscamos o pertencimento a uma cidade; no caso de uma roda de capoeira, o estar junto a um grupo de pessoas que estão lá somente para interagir, ou, para alguns, a ligação a uma árvore genealógica que te liga aos velhos mestres, já mitificados, e, para outros, até à África. De repente é isso que faz com que  permaneçamos muito tempo em um grupo de capoeira cuja forma de encarar o jogo não é bem a nossa, ou que nós admitamos assistir a um documentário meia boca sobre um dos pais fundadores da brincadeira. (In)Felizmente não tem nada a ver com a razão. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;* * *&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20990548-116327477236795971?l=morenocapoeira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/feeds/116327477236795971/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20990548&amp;postID=116327477236795971&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/116327477236795971'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/116327477236795971'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/2006/11/fragmentos-irracionais-sobre-capoeira.html' title='Fragmentos irracionais sobre a capoeira'/><author><name>Moreno capoeira</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20990548.post-116299511774146682</id><published>2006-11-08T10:37:00.000-03:00</published><updated>2006-11-08T14:00:17.903-03:00</updated><title type='text'>Valeu a espera?</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Cedendo a pressões de alguns dos meus leitores que cobraram novas crônicas, escrevo esta postagem. Hoje, gostaria de falar sobre um "papoeira" que aconteceu no grupo Capoeira e Conhecimento e que teve como assunto a criação da Regional. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Como encarregado de puxar a discussão, comecei falando da existência de várias correntes da vadiação na Salvador do começo do século XX e do papel do mestre Bimba na codificação da capoeira como esporte, mantendo suas raízes africanas através do diálogo, de um lado, com sistemas de ginástica como o do carioca mestre Zuma e, de outro, com as correntes da vadiação baiana -- ou o que já estava começando a ser chamado, na década de 30, de capoeira angola.&lt;br /&gt;Só que esses esquematismos preparados na minha cabeça acabaram sendo abalados por um camarada capoeirista que começou a treinar nos anos 70 em Curitiba com o mestre Sergipe. Ele explicou que seu mestre foi um dos pioneiros da capoeira naquela cidade e treinou com mestre Caiçara, conhecido angoleiro de Salvador. Pois bem, o estilo de seu mestre era voltado para a eficiência e até para a violência, em algumas oportunidades, e isso não se encaixava no que se esperava de alguém que vinha de uma linhagem angoleira. Daí veio a pergunta do camarada: não havia outras regionais além da do mestre Bimba?&lt;br /&gt;Respondi que não, que o termo regional é estritamente identificado com o método de capoeira sistematizado pelo mestre Bimba nos anos 30. Mas me curvei à lógica daquela questão: se havia várias linhagens de capoeira, por que não podemos supor que pelo menos uma delas não era combativa também? A eficiência era qualidade apenas do mestre Bimba naquela época? Não haveria um espírito de eficiência e jogo alto também em outras linhagens da vadiação? A eficiência também não fazia parte da tradição tanto quanto a brincadeira?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Acabou que a conclusão do bate-papo foi a de que, apesar de ser fundamental na formação da capoeira como a conhecemos hoje, a bifurcação Angola - Regional pode não ter esgotado as possibilidades da vadiação. Tanto que, dentro daquela tradição existiram vertentes como as do mestre Waldemar da Liberdade ou as do mestre Noronha -- inimigo declarado de Pastinha -- e a do mestre Canjiquinha -- que propôs uma terceira via, uma espécie de meio-termo, para o brinquedo. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Dentro do estilo mais esportivo ligado à regional, poderíamos citar o mestre Artur Emídio,  baiano de Itabuna nascido em 1930 que foi grande divulgador da capoeira em filmes, lutas e apresentações folclóricas e que migrou para o Rio de Janeiro, tendo sido mestre de caras como Leopoldina. O próprio mestre Bimba parece que deu um espaço maior à cultura no estilo regional quando, em 1946, recusou um desafio de combate feito a seus alunos em Salvador, tirando a capoeira dos ringues.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Por hoje é só, camaradas. Espero que a postagem de hoje tenha valido a espera.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="center"&gt;Moreno&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20990548-116299511774146682?l=morenocapoeira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/feeds/116299511774146682/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20990548&amp;postID=116299511774146682&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/116299511774146682'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/116299511774146682'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/2006/11/valeu-espera.html' title='Valeu a espera?'/><author><name>Moreno capoeira</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20990548.post-116095316028654784</id><published>2006-10-15T18:53:00.000-03:00</published><updated>2006-10-15T19:59:20.403-03:00</updated><title type='text'>Tem paulista na roda!</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Hoje de manhã fui a outra roda aqui em Brasília em que estava presente um pessoal de São Paulo. Se já existem diferenças na capoeira dos diversos grupos dentro do Distrito Federal, as diferenças interestaduais são maiores ainda. A começar pelo repertório de cantigas e pelo estilo delas. As cantigas daquele grupo de São Paulo são bem mais rápidas, o cantador quase não consegue respirar quando o ritmo é o São Bento Grande da Regional e esse ritmo exige uma aceleração muito grande do jogo. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Pessoalmente, não gosto muito dessa aceleração, pois fica mais difícil de distinguir o toque do berimbau e os repiques executados pelo tocador -- as sutilezas da música ficam em segundo plano. A esse tipo de toque  corresponde um jogo mais competitivo, veloz e atlético, ficando prejudicadas  a ludicidade e a cooperação frente à malícia e à competição. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Lowell Lewis, um antropólogo americano, escreveu que nos estilos mais lúdicos e cooperativos da capoeira -- principalmente na angola ligada aos velhos mestres -- a música tende a ser mais bem trabalhada, isso porque ela responde justamente pelo componente da roda regido pelo princípio da camaradagem, onde a malícia é prejudicial. Isso é fácil de entender, imagine o leitor se numa bateria os berimbaus tentassem enganar um ao outro e a todos os demais instrumentos, mudando de ritmo e de toque e repicando freqüentemente. A roda viraria uma confusão.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Para o Lewis, as rodas onde o princípio da competição impera sobre o da ludicidade tendem a possuir uma parte musical mais pobre, pois o princípio da cooperação está enfraquecido nesse contexto.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Mudando um pouco de assunto: outra observação interessante é que, dentre as músicas cantadas pelos paulistanos, estava uma que falava da onça pintada e do macaco velho que não pisa no chão para evitar ser pego por ela. Pensei comigo: um paulistano cantando música de floresta e de animais selvagens! E ele vem justamente de onde eles não existem mais! Parece que a capoeira na pós-modernidade conhece o fortalecimento dessa sua associação com a natureza, com um mundo que está fora da complexidade da vida atual. A busca de um refúgio das incertezas da globalização está presente nas cantigas da brincadeira.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;É isso, por hoje é só.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20990548-116095316028654784?l=morenocapoeira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/feeds/116095316028654784/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20990548&amp;postID=116095316028654784&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/116095316028654784'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/116095316028654784'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/2006/10/tem-paulista-na-roda.html' title='Tem paulista na roda!'/><author><name>Moreno capoeira</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20990548.post-115907206748534401</id><published>2006-09-24T01:04:00.000-03:00</published><updated>2006-09-27T17:55:20.663-03:00</updated><title type='text'>"Mestre Bimba - A capoeira iluminada": anotações</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Infelizmente, perdi a crítica que tinha escrito sobre o filme. Anoto apenas esse "insight" que tive.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O fime começa com os alunos do mestre falando sobre a influência dele nas suas vidas e depois passa a apresentar as várias mulheres que o mestre Bimba teve. Intercalados com tais depoimentos e ganhando destaque no fim, aparecem trechos com entrevistas de um conhecido mestre de uma conhecido megagrupo. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Tais inserções são a grande isca do filme para a platéia desavisada. Não quero aqui julgar se tal ou qual mestre tem ou não legitimidade para reivindicar a herança de Manoel dos Reis Machado, quero apenas dizer que o documentário esconde o fato de a organização atual dos grupos de capoeira ter assumido novas formas desde a criação do grupo de mestre Bimba nos anos 30 do século passado. Entre as rodas de vadiação, as academias de meados do século XX, os grupos folclóricos e os grupos-empresas multinacionais há uma diferença muito grande. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Como isso não foi abordado no filme, fica parecendo que a capoeira não mudou nesse período de tempo: métodos de treinamento, relacionamento mestre-aluno, organização e dinâmica de funcionamento dos grupos, tudo teria continuado o mesmo. Os efeitos que tais mudanças tiveram na brincadeira não são abordados. Há uma idealização muito grande da figura do mestre Bimba, e o filme se aproveita da força desse mito não-questionado pelos seus ex-alunos para projetar uma herança apresentada como direta e linear do criador da regional sobre os grupos-franquia dos dias de hoje.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Assim, escondendo a especificidade da forma de organização da capoeira nos dias de hoje, o documentário acaba legitimando uma realidade muito diversa da que o mestre Bimba conheceu, virando peça publicitária a serviço da expansão dos megagrupos.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20990548-115907206748534401?l=morenocapoeira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/feeds/115907206748534401/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20990548&amp;postID=115907206748534401&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/115907206748534401'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/115907206748534401'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/2006/09/mestre-bimba-capoeira-iluminada.html' title='&quot;Mestre Bimba - A capoeira iluminada&quot;: anotações'/><author><name>Moreno capoeira</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20990548.post-115832943552931743</id><published>2006-09-15T10:38:00.000-03:00</published><updated>2006-09-17T18:54:48.580-03:00</updated><title type='text'>Notas sobre a palestra do mestre Luiz Renato</title><content type='html'>Muito interessante a palestra do mestre Luiz Renato a respeito da tensão existente entre o ethos do capoeirista e aquele do profissional de capoeira, entre a tradição da malandragem na capoeira e o mundo do trabalho na sociedade moderna. Chamou muito minha atenção seu comentário segundo o qual  toda tradição deve ser interpretada, pois é fruto de determinadas lutas acontecidas em determinado contextos de disputas -- de poder mesmo! --sobre o que era ou  o que devia ser a capoeira. &lt;br /&gt;Tentar adaptar uma tradição a um contexto muito diverso daquele em que ela foi criada pode fechar muitas portas profissionais aos professores de capoeira da atualidade. E isso alimenta outra tradição do meio : a atribuição do fracasso não à falta de visão do profissional, mas à perseguição à capoeira, ao racismo e  a outros bodes expiatórios. Dessa maneira, aquilo que o mestre chamou de "complexo de vitimização do capoeirista" é reforçado dentro do meio da capoeiragem.&lt;br /&gt;Na parte do debate, surgiram questões sobre a possibilidade de a capoeira romper com os aspectos mais perversos  da lógica da modernidade. O mestre frisou que escolhas devem ser feitas pelos professores de capoeira e pelos próprios grupos. Ganha-se de um lado, perde-se de outro. Mas cada grupo pode lidar de maneiras diferentes com a lógica do mercado. Vários já se transformaram em franquias, por exemplo.&lt;br /&gt;Seria esse o único meio de adaptação? E mais, seriam todas as franquias iguais? Sabemos que a relação mestre-aluno e o modo como o mestre constrói a relação aluno-aluno são elementos importantíssimos e dependem muito da formação e da personalidade de cada mestre. Em tese, então cada grupo -- no limite, cada mestre -- teria uma forma de estruturar essas relações.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20990548-115832943552931743?l=morenocapoeira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/feeds/115832943552931743/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20990548&amp;postID=115832943552931743&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/115832943552931743'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/115832943552931743'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/2006/09/notas-sobre-palestra-do-mestre-luiz.html' title='Notas sobre a palestra do mestre Luiz Renato'/><author><name>Moreno capoeira</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20990548.post-115690925662587461</id><published>2006-08-30T00:04:00.000-03:00</published><updated>2006-08-31T07:56:31.573-03:00</updated><title type='text'>Lembranças de violência</title><content type='html'>Segundo o mestre Pombo de Ouro, os pais deveriam conhecer a academia em que seus filhos treinam, pois para a criança ou adolescente o mestre adquire um papel muito importante, capaz de influenciar a sua vida de maneira determinante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lembro-me de um episódio que aconteceu numa academia que eu freqüentava no final dos anos 90. Durante a roda, um dos capoeiristas levantou o outro acima da cabeça e o jogou com toda a força no chão. E depois disso, a roda continuou. O cara estrebuchando lá no chão, mas a roda continuou. Só que a mãe de uma criança que treinava na academia estava presente e foi conversar com o mestre: ela achava um absurdo que ele permitisse que seus alunos cometessem atos de violência como esses numa roda de capoeira e comunicou ali mesmo que seu filho não voltaria mais para a academia (e provavelmete para a capoeira). Fiquei meio de lado, escutando a resposta do cara: "A senhora há de convir que eu não posso controlar o impulso natural dos meus lutadores".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele não podia ou não queria? A verdade é que a conduta daquela mulher foi perfeita: foi assistir à roda em que seu filho jogava e, ao não aprovar a concepção de capoeira do grupo, tirou o filho das aulas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em outras rodas, já vi o jogo degenerar em pancadaria com puxões de cabelo, tapas e murros rolando por todos os lados, numa perda de controle absoluta dos jogadores. E o berimbau continuava tocando, denunciando a concepção de que para o mestre aquilo era capoeira. A perda do controle e a vitória dos instintos mais violentos -- cujo controle é o objetivo de todas as artes marciais -- eram aceitas nas regras daquelas rodas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em muitas dessas ocasiões, o mestre gritava -- "iê" -- mas os caras não paravam de se agarrar e de se socar; e nem o mestre esperava que o fizessem, pois na cabeça daquele grupo o próprio desrespeito ao comando significava uma afirmação da sua valentia, do espírito lutador que era valorizado pelo grupo. Os caras que se esmurravam "desrespeitando" a ordem eram o exemplo a ser seguido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acontece que, assim como a maioria dos capoeiristas associa a capoeira à diversão e à brincadeira, para algumas daquelas pessoas, o jogo acabou associado à violência, à perda total do controle dos próprios atos nas rodas que aconteciam nos fins de semana. E isso pode ser treinado todo o dia, e inclusive fomentado com o uso de anabolizantes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aqueles com tendências mais agressivas ou com uma história pessoal mais complicada foram os que entraram por esse caminho do descontrole, cujo desenvolvimento era estimulado pelo seu mestre, pois -- como afirma o mestre Pombo -- dentro do homem convivem tanto o assassino quanto o amigo leal e ambos podem ter o seu desenvolvimento estimulado pela capoeira dependendo do direcionamento dado pelo professor. Assim, segundo o mestre, uma pessoa agressiva deve aprender a controlar sua agressividade para utilizá-la no momento e na intensidade apropriados a cada ocasião. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o pior é que -- e isso eu aprendi em 2 anos e meio de magistério -- o mestre pode estar passando, sem ter consciência, valores contraditórios. Por exemplo, a contradição entre as palavras e os atos de um instrutor e a discrepância entre a postura corporal, a expressão do rosto ou o tom de voz, podem ser percebidas pelo aluno.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim, ao valorizar a perda do controle, a valentia e o sentimento de que não se deve desisitir de uma pancadaria, o mestre não podia esperar que o "iê" fosse obedecido. Na verdade, o desrespeito a ele naquele momento era a glória tanto para o aluno quanto para si, pois a lição que ele ensinara tinha sido aprendida.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20990548-115690925662587461?l=morenocapoeira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/feeds/115690925662587461/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20990548&amp;postID=115690925662587461&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/115690925662587461'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/115690925662587461'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/2006/08/lembranas-de-violncia.html' title='Lembranças de violência'/><author><name>Moreno capoeira</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20990548.post-115671747214513436</id><published>2006-08-27T18:34:00.000-03:00</published><updated>2006-08-29T01:07:57.220-03:00</updated><title type='text'>O que dizem algumas músicas de capoeira?</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Senhores, quero com a crônica de hoje dar uma olhada nas letras das músicas de capoeira. Em algumas, podemos perceber ecos das disputas que existiam no meio da brincadeira; em outras, uma visão da ética que certos grupos possuem nas rodas.&lt;br /&gt;Hoje fui a uma roda famosa na cidade e ouvi mais uma vez a seguinte cantiga: "Jogo mas eu não sou/Angoleiro/ toco mas eu não sou/ Angoleiro/ faço chamada mas eu não sou/ Angoleiro...". Geralmente, essa música é tocada por grupos do que se convencionou chamar "capoeira contemporânea" quando resolvem baixar o toque para angola. À primeira vista, parece um pedido de desculpas aos "verdadeiros" angoleiros, aqueles que possuiriam raízes que os ligam diretamente aos velhos mestres baianos.  Jogar angola não seria apenas fazer o que os angoleiros fazem, seria necessário estar ligado a uma linhagem, a uma escola que teria concepções bem fundamentadas sobre o jogo, valorizando a ancestralidade africana do brinquedo tanto no ritual, quanto na movimentação.&lt;br /&gt;Por outro lado, pode ser encarada como uma cantiga que ironiza esse mesmo fato: "ora, se eu faço tudo o que um angoleiro faz, porque é que eu não sou angoleiro?" -- estaria dizendo o cantador. Se a roda toca angola e o pessoal que tá jogando não sabe jogar angola, por que é que eles estariam fazendo -- e em público -- uma coisa que não sabem fazer?&lt;br /&gt;Outra música que toca na demarcação de estilos é aquela:"Como é que tocava seu Bimba?/ Mestre Bimba tocava sentado". Devia haver um pessoal revoltado com o fato de estarem dizendo que uma das principais diferenças entre as duas escolas era a bateria estar de pé ou sentada. Ora, surgiu um cara que viu as imagens antigas do criador da regional e se tocou: "rapaz, não é que o homem tocava sentado!".&lt;br /&gt;É claro, não sou ingênuo, essas músicas são respostas dos adeptos da capoeira contemporânea ao pessoal ligado ao ressurgimento da Angola nos anos 80. Estariam defendendo a idéia de que a capoeira seria uma só. Hoje em dia, essa disputa já está meio arrefecida, parece que todos se enxergam como escolas diferentes mas não excludentes, apenas formas diferentes de se interpretar o brinquedo. Numa sociedade diversificada não deveria haver também escolas diversas da brincadeira?&lt;br /&gt;A questão ética é trazida por outra cantiga que tem uma parte que diz:"mas o bom capoeira não corre/ nem escolhe o lugar pra jogar". Não sei quanto a vocês, mas eu só respondo o coro dessa música por obrigação, pois a sua integridade física pode estar em perigo se você entrar em determinadas rodas em determinados momentos!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O mestre Luiz Renato também é contrário aos valores expostos pela cantiga. Citando a constituição brasileira, ele diz que "ninguém é obrigado a fazer nada a não ser por força da lei". Um princípio herdado da Revolução Francesa que tem o objetivo de proteger o direito de livre escolha do cidadão contra a coação.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O mestre Pombo de Ouro possui uma visão diferente, porém não conflitante. Diz que se a alma do capoeirista combinar com o clima da roda, ele deve jogar. Isso soa como algo místico, mas também tem muito a ver com auto-conhecimento, com o saber se virar num mundo povoado por forças diversas situadas tanto dentro como fora do indivíduo, com a ética da malandragem e com o processo de individuação. Uma ética diferente tanto daquela do valente quanto da do indivíduo moderno.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Por hoje é só camaradas!&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20990548-115671747214513436?l=morenocapoeira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/feeds/115671747214513436/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20990548&amp;postID=115671747214513436&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/115671747214513436'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/115671747214513436'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/2006/08/o-que-dizem-algumas-msicas-de-capoeira.html' title='O que dizem algumas músicas de capoeira?'/><author><name>Moreno capoeira</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20990548.post-115558262300014317</id><published>2006-08-14T15:33:00.000-03:00</published><updated>2006-08-17T15:39:11.276-03:00</updated><title type='text'>A roda de capoeira como "comunidade imaginada"</title><content type='html'>A questão de a capoeira corresponder à necessidade de vertigem do ser humano não explica a sua expansão pelo mundo. Seria a capoeira simplesmente um escapismo? As pessoas jogariam capoeira somente para "ter um barato"?&lt;br /&gt;Não dá para escapar da especificidade da capoeira, sua ligação com a cultura afro. Será que nesse mundo onde "tudo o que é sólido desmancha no ar", como escreveu Marx, a capoeira aparece como algo cuja identidade permanece imutável e forte, capaz de dar um porto seguro para aquele que a pratica?&lt;br /&gt;"A transitoriedade que a modernidade imprime ao mundo encontra um obstáculo na capoeira." Pensariam -- ou melhor, sentiriam -- alguns de seus praticantes e alguns de seus mestres propagam tal idéia. Isso não é algo despropositado, pois a brincadeira teria um mito de origem, um panteão de pais fundadores e linhagens às quais estariam filiados todos os capoeiristas do mundo de todas as etnias. Isso basta para dar segurança a pessoas que vêem o mundo ao seu lado passar por fortes mudanças. A capoeira permaneceria, ligaria as pessoas com o passado e o futuro, fornecendo uma teia de segurança para todos eles. Não é isso o que defendem vários mestres pelo mundo?&lt;br /&gt;Lembro-me de que este também é o contexto que deu origem aos fascismos. Estaria ela, de alguma maneira, substituindo a necessidade de uma utopia, seria esta utopia necessariamente autoritária?&lt;br /&gt;Ou, citando Benedict Anderson, podemos dizer que uma roda de capoeira cria uma "comunidade imaginada" que, por sua própria natureza só carrega os ideais positivos de igualdade e fraternidade?  Opa, isso é interessante: o grupo de capoeira (e a própria roda) como uma comunidade imaginada! Algo como o nacionalismo não contaminado pelo imperialismo ou pelos facismos!&lt;br /&gt;Só que, num segundo momento, e assim como o nacionalismo para Anderson, essa comunidade pode adquirir várias características que dependem da organização de cada grupo e do relacionamento de cada mestre com seus alunos. É por isso que muita coisa dúbia acontece na capoeira hoje em dia. Em todos os grupos coexistem elementos autoritários e libertários, modernos e tradicionais em doses diversas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="center"&gt;                             Moreno&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20990548-115558262300014317?l=morenocapoeira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/feeds/115558262300014317/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20990548&amp;postID=115558262300014317&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/115558262300014317'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/115558262300014317'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/2006/08/roda-de-capoeira-como-comunidade.html' title='A roda de capoeira como &quot;comunidade imaginada&quot;'/><author><name>Moreno capoeira</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20990548.post-115522148194814871</id><published>2006-08-10T10:54:00.000-03:00</published><updated>2006-08-10T16:24:27.236-03:00</updated><title type='text'>O transe capoeirano e a busca da vertigem II</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Alguns mestres, como o mestre Pombo, ligam a capoeira à umbanda. Na verdade, essa ligação depende somente da crença do praticante. A vadiação baiana ou a capoeira carioca eram praticadas em contextos de recreação, que não tinham a ver com religião. Outras lutas produzidas pela diáspora africana também (como escreve Matias Assunção). &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Como frisei na última postagem, a vertigem é como que um instinto com o qual o homem tem de aprender a conviver. Podemos dar vazão a ele dançando, jogando capoeira, brincando na montanha-russa, saltando de bungee-jump, fazendo rapel e até consumindo drogas. Isso são algumas formas que a vertigem assume nas sociedades modernas. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Por outro lado, sabemos que existem religiões (as afro-brasileiras, por exemplo) que o erigem como elemento central de seu sistema de idéias; e sociedades (tradicionais) em que a vertigem ocupa um lugar proeminente. Essas são outras formas segundo as quais a diversidade humana lida com a instituição do transe. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Para mim, o grande lance da capoeira é o controle do transe, a aliança entre ilinx (vertigem) e agôn (competição). E isso é algo que comporta tanta religião quanto dançar um forró ou jogar futebol. Na minha concepção, a capoeira como qualquer esporte, pode ajudar no auto-conhecimento ou mesmo no conhecimento das sociedades humanas. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Existem cronistas esportivos fantásticos que sabem como falar de futebol e da existência humana, vista como tragédia ou mesmo como epopéia, como Nelson Rodrigues. Mas isso não quer dizer que devemos transformar o futebol numa religião. Tratar a capoeira como religião é uma forma de mistificá-la, criando uma mais uma "seita pop" ou mesmo de transformá-la numa ideologia autoritária de uma franquia multinacional, capaz de justificar alguns fanatismos. Na verdade, o maior perigo para o aluno na capoeira é o culto à figura carismática do mestre, que hoje em dia se mistura com os objetivos empresariais do cultuado.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Admiro a opinião do mestre Pombo, segundo a qual o ser humano se mostra como ele realmente é na roda de capoeira, ou seja, auto-controle, nervosismo, agressividade, paciência, dedicação aos treinos são qualidades da pessoa que acabam sendo mostrados numa roda e acabam sendo meios de auto-conhecimento. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Acontece que, segundo a tradição afro-brasileira, tais qualidades podem ser produzidas por forças externas ao indivíduo: entidades que povoam o mundo sobrenatural e que têm influência sobre os homens. Segundo o pensamento ocidental, essas forças não seriam externas, são oriundas do próprio indivíduo, do seu subconsciente ou expressão dos arquétipos coletivos da humanidade. Na verdade, o que se evidencia aqui é uma diferença entre um sistema de psicologia ocidental e outro de matriz afro. Duas idéias diferentes de indivíduo, mas que, em alguns momentos, possuem semelhanças.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;Moreno&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20990548-115522148194814871?l=morenocapoeira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/feeds/115522148194814871/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20990548&amp;postID=115522148194814871&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/115522148194814871'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/115522148194814871'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/2006/08/o-transe-capoeirano-e-busca-da_10.html' title='O transe capoeirano e a busca da vertigem II'/><author><name>Moreno capoeira</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20990548.post-115497574155294983</id><published>2006-08-07T15:11:00.000-03:00</published><updated>2006-09-16T22:08:58.466-03:00</updated><title type='text'>O transe capoeirano e a busca da vertigem</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Caros leitores, nas postagens anteriores toquei no assunto do "transe capoeirano" e na mistificação criada sobre ele no mundo da capoeira. Pois bem, o objetivo desta postagem é tentar esclarecer melhor o que seria o "transe capoeirano" de modo a desmistificar um pouco essa idéia, que pode ser aproveitada para exaltar exageradamente uma qualidade da capoeira que não é rara no mundo dos jogos e das atividades humanas.&lt;br /&gt;Tive contato com essa expressão pela primeira vez no &lt;em&gt;site&lt;/em&gt; do Dr. Decânio que dizia que o praticante de capoeira "alcança um estado modificado de consciência em que o Ser se comporta como parte integrante de conjunto harmonioso em que se encontra inserido naquele&lt;strong&gt; &lt;/strong&gt;momento&lt;strong&gt; &lt;/strong&gt;(...) O capoeirista deixa então de perceber a si mesmo como individualidade consciente, fusiona-se ao ambiente em que se desenvolve o jogo de capoeira". Por vezes, o mesmo autor coloca o transe capoeirano como algo próximo de uma experiência mística e religiosa.&lt;br /&gt;Recentemente, li o livro de um sociólogo chamado Roger Caillois intitulado &lt;em&gt;Os homens e os jogos - A máscara e a vertigem. &lt;/em&gt;Em linhas gerais, Caillois divide os jogos segundo quatro características básicas que têm a ver com quatro instintos presentes nos seres humanos: a competição, busca pela sorte, o disfarce e a vertigem.&lt;br /&gt;Os jogos/brincadeiras competitivos são aqueles em que cada participante depende somente de seus próprios meios para derrotar os oponentes. Como exemplo, o estudioso cita as corridas do atletismo e, no campo da formação das sociedades humanas, tal instinto seria básico na sociedade moderna capitalista.&lt;br /&gt;Os jogos de azar são aqueles em que o participante não tem nenhum controle sobre o seu desfecho. A roleta e os dados são exemplos clássicos. Tal qualidade apareceria freqüentemente associada ao princípio da competição na estrutura das sociedades modernas, onde os indivíduos lutam contra suas limitações de nascimento e riqueza (determinadas por fatores sobre os quais eles não possuem controle) ou mesmo utilizam-nas para ascender socialmente.&lt;br /&gt;Os jogos de disfarce são aqueles em que os participantes assumem outra identidade. Assim, as crianças brincam de casinha, de polícia e ladrão, de super-heróis. A sublimação desse instinto estaria no campo das artes dramáticas. Juntamente com a busca pela vertigem, seria a característica humana dominante nas sociedades pré-modernas, estando na base das religiões que envolvem a possessão. Nas sociedades modernas, festas como o carnaval seriam a sua expressão atual.&lt;br /&gt;Por fim, os jogos que correspondem à satisfação do instinto da vertigem são aqueles em que o jogador busca a desorientação espacial e temporal, realizando-as numa espécie de transe hipnótico. São exemplos desse tipo de jogo/brincadeira a montanha-russa, o bungee jump e o carrossel dos parques de diversões. As religiões de xamânicas e de possessão corresponderiam à sublimação dessa característica humana. Nas sociedades modernas, a vazão aos instintos de vertigem aconteceria nos parques de diversões.&lt;br /&gt;É nessa última categoria de jogos que Caillois coloca danças como a valsa e atividades físicas como a realização de acrobacias. Isso porque a música e os volteios interferem na percepção espacial e temporal dos dançarinos. O mesmo valendo para as acrobacias. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Ora, nós capoeiristas sabemos que faz parte das características básicas da nossa brincadeira (tal como das acrobacias) as inversões do alto pelo baixo -- penso nos movimentos como os vários tipos de aú, o macaco, a bananeira, os balões cinturados e os saltos mortais -- e da frente pelas costas (meia-lua de compasso, armada, queixada, rolê e outros movimentos que envolvem giros).&lt;br /&gt;Com a valsa, a capoeira teria em comum -- além das inversões da frente pelas costas -- o princípio do &lt;em&gt;preenchimento dos espaços vazios &lt;/em&gt;deixados pelo parceiro de jogo/dança, de que fala muito o mestre Pombo de Ouro&lt;em&gt;. &lt;/em&gt;Tal príncípio aparece muito bem ilustrado naquele famoso jogo entre João Grande e João Pequeno em "Dança da Guerra", ou nas próprias seqüências do mestre Bimba.&lt;em&gt; &lt;/em&gt;Além disso, a&lt;em&gt; &lt;/em&gt;presença da música no nosso brinquedo também é uma característica fundamental de sua estrutura. É a música e o seu ritmo que define a velocidade e a própria natureza do jogo, mais competitivo ou cooperativo, por exemplo.&lt;br /&gt;Portanto, é no campo dos jogos que satisfazem ao instinto da vertigem que eu colocaria a capoeira. O transe capoeirano de que fala Dr. Decânio corresponde à vertigem, ao &lt;em&gt;ilinx&lt;/em&gt;, que é o termo utilizado por Caillois para denominar tal instinto. E mais, o transe capoeirano poderia estar conjugado ao instinto de competição, já que o próprio autor argumenta que, freqüentemente, os instinto aparecem associados aos pares em várias atividades humanas. Essa combinação é que daria o caráter de arte-marcial à nossa prática.&lt;br /&gt;Por enquanto é isso. Pretendo voltar ao assunto em futuras postagens. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;Moreno&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20990548-115497574155294983?l=morenocapoeira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/feeds/115497574155294983/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20990548&amp;postID=115497574155294983&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/115497574155294983'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/115497574155294983'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/2006/08/o-transe-capoeirano-e-busca-da.html' title='O transe capoeirano e a busca da vertigem'/><author><name>Moreno capoeira</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20990548.post-115394708577766753</id><published>2006-07-26T17:28:00.000-03:00</published><updated>2006-07-28T15:13:54.886-03:00</updated><title type='text'>O lado sombrio da expansão da capoeira 2</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;O jogo da capoeira, assim como todos os jogos, prepara os indivíduos para encarar as dificuldades da realidade, expõe a eles certos costumes da sua sociedade (Isso escrevem os antropólogos: penso na briga de galos de Geertz, na capoeira para Lewis, nas bolas de gude para Carvalho). Pensa isso também o pessoal da somaterapia, utilizando a capoeira em sua forma de tratamento psicólogico. Nesse ponto, caras importantes como o Dr. Decânio ou como o próprio mestre Pombo de Ouro têm alguma razão: "capoeira é boa para a vida" e "a verdadeira roda é a vida".&lt;br /&gt;Acontece que, hoje em dia, a leitura que a capoeira fornece sobre a realidade humana, própria da sua natureza de manifestação cultural, vem sendo instrumentalizada por uma lógica de domínio colonial adaptada à época da globalização, como escreve a professora portuguesa Ana Jaqueira. Para afirmar o monopólio da capoeira no exterior, os grandes grupos acabam por mistificar aquela característica que a capoeira possui pela sua própria constituição, transformando-a numa espécie de segredo que só foi revelado aos brasileiros e, dentre eles, a um determinado grupo de capoeira e, especialmente, a um determinado mestre.&lt;br /&gt;Daí pode-se dizer que, assim como o nacionalismo passa a ter um componente xenófobo e racista quando utilizado pelo imperialismo, a capoeira passa a ter uma característica de seita e franquia comercial quando utilizada por grupos cujo objetivo é a própria expansão e a manutenção do seu monopólio.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A capoeira estaria incorporando em sua organização características da Amway! Só que o objetivo aqui seria não mais vender produtos de limpeza, mas a capoeira, sua "filosofia" e a "cultura brasileira" (se é que existe isso), produto que parece estar em alta no mercado internacional. A idolatria por professores e mestres seria o substituto da idolatria pelos membros superiores na pirâmide da organização.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Para mostrar uma suposta superioridade de uma franquia, inventam-se movimentos que não possuem a mínima utilidade numa roda; descartam-se outros alegando estarem ultrapassados, serem "sarobas", ou não possuírem efetividade; promovem-se garotos-propaganda bombados, verdadeiros acrobatas e contorcionistas que aparecem em documentários sobre a capoeira, considerada parte de uma "tradicional cultura brasileira". Penso, inclusive, nesse último documentário sobre o Mestre Bimba.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;De repente, jogar capoeira perdeu um pouco de sua graça.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20990548-115394708577766753?l=morenocapoeira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/feeds/115394708577766753/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20990548&amp;postID=115394708577766753&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/115394708577766753'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/115394708577766753'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/2006/07/o-lado-sombrio-da-expanso-da-capoeira_26.html' title='O lado sombrio da expansão da capoeira 2'/><author><name>Moreno capoeira</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20990548.post-115349624174745916</id><published>2006-07-21T11:37:00.000-03:00</published><updated>2006-07-21T12:37:21.843-03:00</updated><title type='text'>O lado sombrio da expansão da capoeira</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Senhores, a postagem de hoje vai pelo caminho inverso daquele da anterior. Se ontem defendi um poder quase redentor da capoeira, hoje, depois de ler um trabalho de uma professora portuguesa sobre a expansão da capoeira pela Europa, devo concordar que existe um lado sombrio no seu crescimento. O texto encontra-se no Portal Capoeira e o download pode ser feito no endereço &lt;a href="http://www.portalcapoeira.com/index.php?option=com_docman&amp;task=doc_details&amp;amp;Itemid=253&amp;gid=76"&gt;http://www.portalcapoeira.com/index.php?option=com_docman&amp;amp;task=doc_details&amp;Itemid=253&amp;amp;gid=76&lt;/a&gt;.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A professora portuguesa Ana Jaqueira coloca que existe um componente doutrinário e autoritário muito forte no modo como se estruturam os grupos de capoeira na atualidade. Segundo ela, a capoeira baseia seu crescimento numa estrutura de franquias na qual a ligação e a interdependência entre seus membros é feita por uma pretensa filosofia de vida que seria própria da capoeira. Essa "filosofia" emanaria do mestre do proprietário mundial da franquia, que seria a fonte de toda a sabedoria e de todo o prazer que os praticantes obteriam com o jogo. Toda a excitação causada pelo tal "transe capoeirano" seria distribuído aos alunos pelo mestre.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Os mega-grupos tratariam de fortificar a sua marca através da invenção de movimentos que seriam próprios de seu estilo de capoeira. Tais inovações não precisam obedecer ao princípio da eficiência marcial nem a qualquer outro, servem apenas para criar um registro corporal em todos os alunos do grupo. Penso, então, nas esquivas da cadeira, no jogo miudinho, nos balanços inventados por certos grupos, nas gingas com o braço protegendo o rosto, nos vários floreios malucos que vemos em documentários, vários deles ensinados em aulões, em acampamentos, eventos e batizados por todo o mundo. Tudo, segundo seus inventores, "dentro da tradição".&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Tal prática vai contra o discurso de que a capoeira seria uma prática libertária,  o qual é repetido por todos os grupos atualmente. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;É claro que essa descrição feita pela professora encaixa-se melhor a determinados grupos, mas é interessante saber que existem elementos dentro da nossa prática que podem muito bem servir ao autoritarismo e serem exacerbados a ponto de se transformarem em fanatismo e em uma ideologia que justifica até a exploração de mão-de-obra.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Isso não quer dizer que a capoeira é inteiramente má, mas sim que ela seque aberta a influências de toda a parte, vindas da organização empresarial em franquias até a proliferação de seitas de auto-ajuda, passando por grupos de lideranças colegiadas e coletivos de orientação anarquista. É a disputa entre várias tendências que vai determinar o caminho que a prática vai seguir. E essa disputa vai ficar muito interessante porque, hoje em dia, ela está sendo travada por pessoas, estudiosos, instituições e grupos do mundo inteiro.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;                                                                                   Moreno&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20990548-115349624174745916?l=morenocapoeira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/feeds/115349624174745916/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20990548&amp;postID=115349624174745916&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/115349624174745916'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/115349624174745916'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/2006/07/o-lado-sombrio-da-expanso-da-capoeira.html' title='O lado sombrio da expansão da capoeira'/><author><name>Moreno capoeira</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20990548.post-115323169077345104</id><published>2006-07-18T10:57:00.000-03:00</published><updated>2006-07-18T21:52:25.086-03:00</updated><title type='text'>Por que jogo capoeira?</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Depois de muito tempo, descobri que jogo capoeira para me situar na comunidade dos seres humanos. Participar de um grupo é uma forma de auto-conhecimento, de desenvolvimento e descobrimento da minha personalidade e da dos outros. Penso no grupo de capoeira e na roda de capoeira como ambientes onde eu posso me expressar como eu sou, onde eu posso estar no mundo, interagindo com outras pessoas. Por que é se mostrando que as suas qualidades boas ou más se revelam e é a partir daí que você pode se conhecer e trabalhar com elas.&lt;br /&gt;Esse processo de auto-conhecimento, para mim, tem paralelos com o próprio desenvolvimento técnico do capoeirista. É na roda onde ficam evidentes as limitações e os recursos do jogador, o ponto de partida para o desenvolvimento do futuro de seu jogo. Grandes mestres e estudiosos da brincadeira frisam essa relação da roda de capoeira com a roda da vida, a primeira sendo uma miniatura da segunda. Assim, jogar capoeira não deixa de ser uma forma de buscar aperfeiçoamento pessoal, de aprender a conviver consigo mesmo e com os outros, de aprender a viver.&lt;br /&gt;Esse assunto me leva de volta à pergunta daquele leitor: " Por que a capoeira está se espalhando pelo mundo?". Segundo Nestor Capoeira, o nosso brinquedo tem a ver fundamentalmente com o conhecimento de si e dos outros, com o saber se virar e manter o equilíbrio mental num mundo onde a falsidade esta presente em todos os lados. Está é uma resposta que leva em conta apenas os anseios individuais dos praticantes. Há outras que levam em conta um contexto mais geral e social da expansão da brincadeira.&lt;br /&gt;Por exemplo, para Mathias Assunção os europeus estariam precisando da capoeira porque esta foi um produto da construção de uma identidade por pessoas cujo universo foi desmantelado pela escravidão numa terra desconhecida. Então, africanos de diversas etnias, seus descendentes nascidos no Brasil e, posteriormente, até europeus acabaram tendo que perder suas respectivas identidades e reconstruí-las. A capoeira seria tanto um produto quanto uma representação desse jogo de construção de identidades. Sendo então uma forma privilegiada de intercâmbio entre os diferentes.&lt;br /&gt;Assim, a Europa de hoje estaria passando por uma experiência semelhante àquela pela qual passou (e vem passando?) o Brasil na fase de sua formação: o continente é hoje palco da interação entre diversos povos do mundo. Imigrantes do leste e do oeste, das ex-colônias africanas, asiáticas e americanas e do resto do Terceiro Mundo acabam se encontrando naquele apêndice da Ásia. Os caras precisam, então, aprender a lidar com as diferenças e construir uma base de convivência comum. Daí a sua necessidade de jogar capoeira.&lt;br /&gt;Percebemos então que ambas as respostas, tanto a individualista quanto a social, chegam a um denominador comum: capoeira tem a ver com auto-conhecimento, conhecimento do outro e construção de identidades tanto no plano individual quanto no social.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20990548-115323169077345104?l=morenocapoeira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/feeds/115323169077345104/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20990548&amp;postID=115323169077345104&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/115323169077345104'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/115323169077345104'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/2006/07/por-que-jogo-capoeira.html' title='Por que jogo capoeira?'/><author><name>Moreno capoeira</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20990548.post-115083431078185036</id><published>2006-06-20T17:01:00.000-03:00</published><updated>2006-06-22T11:07:30.593-03:00</updated><title type='text'>Que diabos é "saroba"?</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Hoje gostaria de tecer comentários sobre um termo que já foi muito usado no meio capoeirístico de Brasília. Trata-se do adjetivo "saroba", utilizado para depreciar o jogo de um capoeirista. Dando uma olhada nos significados que tal palavra possui podemos colocar em evidência certos valores introjetados por nós no meio da brincadeira.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Da primeira vez que ouvi tal palavra, não sabia o que significava. Logo aprendi que era o antônimo de "sarado", termo emprestado do ambiente das academias de musculação e que designa a pessoa que tem um corpo trabalhado, musculoso. Seria o modelo do que todos os malhadores da academia -- ou pelo menos grande parte deles -- queria ser. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Assim, "saroba" seria o homem ou a mulher que, na academia de musculação, não tem um corpo malhado. Seria um iniciante na musculação, podendo ser gordo ou magro, mas o importante é que não está "bem cotado" na academia por seu corpo não corresponder ao modelo perseguido.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Esses termos devem ter chegado ao meio da capoeira com a invasão da brincadeira às academias de ginástica e com o constante intercâmbio entre a capoeira e a musculação. Só que me parece que tal termo ganhou outros significados no meio da nossa prática. Vejamos.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Já treinei em alguns grupos que tinham uma visão de capoeira mais voltada para a luta e para o esporte. Me lembro de que o mestre, nos batizados, nos chamava de "atletas" e, em algumas conversas depois dos treinos, nos estimulava a virar lutadores de capoeira. Lembro que colegas meus me falaram para não jogar sorrindo e fechar mais a cara para mostrar que eu era mau. Nesse ambiente, o termo "saroba" era muito usado -- mais pelos alunos, não pelo mestre -- e deixava passar um preconceito muito grande. Geralmente era um adjetivo usado contra capoeiristas de outro grupo ou contra um outro grupo como um todo. Era meio que um artifício para criar uma identidade: éramos os sarados contra todos os outros, sarobas.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;E "saroba" podia ser utilizado para designar aquele capoeirista que não tinha uma certa estética de jogo -- a ginga plástica, os golpes estendidos, os floreios emprestados da ginástica olímpica, a velocidade meio neurótica. Era uma coisa associada a ser antiquado, a estar fora de moda, a um jogo bruto, no sentido de não-cultivado, não civilizado dentro de um grupo de capoeira decente. Por isso,ter um jogo sarado era o objetivo de cada um de nós, pois não queríamos ser "bárbaros", ocupando, por isso, uma posição menos respeitada no grupo. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Em outro grupo com que treinei, o termo não era utilizado, mas a idéia de que o grupo tinha uma missão civilizatória também existia, e tinha um sentido um pouco mais exacerbado de preconceito social. Geralmente, os brutos eram os capoeiristas das Satélites, porque seriam violentos e não saberiam encarar a capoeira como arte, brincadeira. Também aqui se se construía uma identidade de grupo. Agora, os "outros" não eram aqueles que jogavam uma capoeira feia, ineficiente e bruta, mas os "adeptos da barbárie" que transformaram a capoeira numa coisa violenta e feia, e, para completar, ainda eram, em sua maioria, das Satélites! Também eles não seriam civilizados porque não entendiam a riqueza cultural da vadiação, o seu valor como veículo de interação social. Jogar capoeira, então, era jogar sem violência (sem malícia?), seríamos uma ilha da capoeira civilizada e intelectualizada em meio à barbárie que dominava os arredores da cidade.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Para concluir, resta esclarecer que tais idéias foram gestadas num momento em que havia um maior isolamento entre os grupos de capoeira da cidade, num período imediatamente posterior a uma crise na brincadeira. Um tal isolamento contribuiu muito para o surgimento de idéias como essas. Ainda bem que, atualmente, o conhecimento do outro na capoeira de Brasília, mesmo para alguém que não tem muita penetração no meio, parece estar aumentando, nos conduzindo para um momento de diálogo e conhecimento do outro em bases mais reais.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;Moreno&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20990548-115083431078185036?l=morenocapoeira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/feeds/115083431078185036/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20990548&amp;postID=115083431078185036&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/115083431078185036'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/115083431078185036'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/2006/06/que-diabos-saroba.html' title='Que diabos é &quot;saroba&quot;?'/><author><name>Moreno capoeira</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20990548.post-114954636037346215</id><published>2006-06-05T18:04:00.000-03:00</published><updated>2006-06-06T09:36:24.096-03:00</updated><title type='text'>Alguma historiazinha da capoeira</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Camaradas, é sempre muito instrutivo conversar com os mais antigos, você fica sabendo aspectos da história da capoeira não através de livros, mas através de seus próprios personagens. Como escrevi em uma postagem anterior, é com eles que se conhece aquele lado mais prosaico da capoeira, aquelas histórias com "h" minúsculo que, no final das contas, têm a ver com fatos fundamentais da história da brincadeira.&lt;br /&gt;Pois bem, numa conversa com o mestre Pombo de Ouro, fiquei sabendo que a primeira vez que ele viu o "leque" na capoeira foi numa "Grande Roda" na década de 80. A "Grande Roda" era talvez o maior evento de capoeira do DF, organizada, acho que anualmente, pelo mestre Zulu, contava com a participação de capoeiristas de todo Brasil.&lt;br /&gt;Fiquei pensando sobre isso: pô! o leque, então, não tem muito mais de 20 anos! É um movimento novíssimo na capoeira e deve ter surgido nos anos 80 a partir de influências da ginástica olímpica, da dança moderna ou das artes marciais orientais. É interessante pensar que os mestres mais antigos nunca deram tal golpe não porque não conseguiam, mas porque ele não existia! Foi incorporado pela capoeira depois de seu auge físico! Hoje em dia, em qualquer roda que se vá, no Brasil ou no exterior, podemos ter a certeza de que veremos pelo menos um leque, e feito por qualquer aluno mediano. Ou seja, tal movimento é uma técnica corporal que originalmente não fazia parte da capoeira mas que por ela foi incorporada.&lt;br /&gt;Outro golpe que deve ter mais ou menos a mesma origem é o "martelo rodado". Quem assiste à novela "Sinhá Moça" pode ver, na abertura, as sombras de dois escravos jogando capoeira: um deles solta um martelo rodado. Ora, não sou especialista em história da capoeira, mas acho que é muito provável que nenhum cronista ou viajante de meados do século XIX tenha visto tal golpe. Sabemos através de cronistas que, no final do século XIX, existiam várias formas de golpes desequilibrantes, cabeçadas e mesmo navalhadas, mas não o martelo rodado. Segundo o professor Liberac Pires, existia mesmo uma técnica de se lançar a navalha aberta amarrada em um cordão para que, depois de o alvo ser atingido, a mesma pudesse ser recuperada com um puxão. Era uma "navalha bumerangue"! Uma técnica que foi deixada de lado tanto pelo mestre Bimba quanto pelo mestre Pastinha na codificação da regional e da angola. Isso faz até pensar em quanta coisa foi abandonada nesse tempo todo...&lt;br /&gt;Estou escrevendo sobre a história dessas técnicas porque caiu em minhas mãos o texto de uma conferência que o antropólogo Marcel Mauss (1872-1950) deu em 1934, no qual o autor cunha o termo "técnicas corporais" para designar " as maneiras pelas quais os homens, de sociedade a sociedade, de uma forma tradicional, sabem servir-se de seu corpo". Ou seja, para ele, o próprio corpo é criado pela cultura, pela sociedade em que os homens vivem. E ele cita exemplos de técnicas corporais que vão do mundo do esporte até as sociedades tradicionais.&lt;br /&gt;Existe mesmo um exemplo que relaciona a magia e uma técnica da corrida entre os aborígines australianos que lembra muito a técnica de obtenção de resistência na capoeira: cantando repetidamente uma canção durante a perseguição a sua presa, o caçador consegue forças para vencer o animal pelo cansaço! Não é isso o que alguns chamam de "transe capoeirano"? O esquecimento de si mesmo e, portanto, do próprio cansaço pelo capoeirista, propiciado pelas músicas e pelo ritmo do berimbau?&lt;br /&gt;Segundo esse mestre da antropologia, o processo pelo qual as técnicas corporais são preservadas chama-se "imitação prestigiosa": as pessoas imitam atos bem sucedidos que elas viram serem efetuados por outros em quem confiam ou que possuem autoridade sobre elas. Só que a partir desse processo não acontece apenas a preservação de técnicas corporais, mas também a sua transformação. Vide o exemplo do leque e do martelo rodado. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;E mais, do contato entre técnicas corporais diferentes é que surgem variações dentro de uma mesma prática esportiva. Por exemplo, é conhecidíssima uma foto do mestre Bimba novinho gingando lá pelos idos dos anos 30. Quem não viu, entre no sítio do Dr. Decânio. Nela, vemos o mestre gingando encolhido e relaxado, como hoje em dia esperaríamos que jogasse um angoleiro. Isso é porque a técnica corporal da ginga de mestre Bimba era mais próxima da vadiação das classes populares de Salvador do que da capoeira esportiva dos dias de hoje! Matias Assunção sugere a possibilidade de que o centro de gravidade da capoeira regional teria sido deslocado para cima pelos alunos de Bimba, a maioria não-ligados à tradição da vadiagem baiana. Olha aí um exemplo de variação e transformação das técnicas corporais! Hoje em dia, o braço tem que proteger o rosto, a perna da frente tem que flexionar tantos graus... e por aí vai . E se não fizer, tá lascado, apanha ou é considerado antiquado!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A potencialização da imitação prestigiosa pode ter efeitos meio complicados na capoeira. Em conversas com alguns mestres, fiquei sabendo que alguns grupos calcam todo o seu modelo de capoeira em determinados alunos que se destacam, numa espécie de imitação prestigiosa elevada ao quadrado, porque sistematizada. Isso pode prejudicar fisicamente e mesmo psicologicamente os alunos, já que nem todos possuem as mesmas características físicas do modelo: explosão muscular, resistência da articulação, estrutura corporal e flexibilidade, para citar algumas.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Por hoje é só, senhores. Depois de ter escrito essa postagem que tem até antropologia, não agüento mais nada. Vou desligar a máquina e utilizar a técnica corporal do cochilo de boca aberta sentado em poltrona. Ainda assim, espero ter contribuído um pouco mais para a sua compreensão da nossa brincadeira.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="center"&gt;Moreno&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20990548-114954636037346215?l=morenocapoeira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/feeds/114954636037346215/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20990548&amp;postID=114954636037346215&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/114954636037346215'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/114954636037346215'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/2006/06/alguma-historiazinha-da-capoeira.html' title='Alguma historiazinha da capoeira'/><author><name>Moreno capoeira</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20990548.post-114925464838393006</id><published>2006-06-02T10:11:00.000-03:00</published><updated>2006-06-19T18:42:26.086-03:00</updated><title type='text'>O gênio da raça</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Em conversas com o "amigo das narinas de cadáver", surgiu o seguinte assunto: por que o Mestre Pombo pensa que não se deve ganhar dinheiro com capoeira?&lt;br /&gt;Tendo a responder da seguinte maneira: para o mestre Pombo, capoeira é segredo, um conhecimento esotérico que deve permanecer fora do mundo da mercadoria. É necessário lembrar que o mestre é iniciado nos segredos da Maçonaria e da Umbanda, e isso deve ter alguma influência na sua concepção da brincadeira. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A visão que o mestre Pombo tem sobre a capoeira é mística como a de Nestor Capoeira: "Na Ásia, existe o Zen, a Europa inventou a Psicanálise, no Brasil temos o jogo da capoeira". A capoeira seria algo como o "caminho do meio", seu objetivo seria o aperfeiçoamento individual e espiritual; ajudar o homem a conviver com suas neuroses, limitações, seu lado animal e superá-los. Desenvolver e descobrir o seu jeito de jogar guarda um paralelo com desenvolver-se no sentido de tornar-se um ser pleno.&lt;br /&gt;Já para o mestre Pombo, todas as pessoas possuem dentro de si o Bem e o Mal, o lado Espiritual e o lado Animal, e o principal objetivo da capoeira seria fazer com que o indivíduo tomasse consciência desses seus dois lados e trabalhasse para superar seu lado mal e instintivo, desenvolvendo o lado bom e espiritual. O mal, a malícia, poder ser bem aproveitada na capoeira, mas sob o comando da técnica, da parte mais elevada do ser humano. Algo parecido é apontado pelos grandes mestres das artes marciais orientais como o objetivo de seus treimamentos.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Alguns velhos mestres de capoeira também possuíam uma visão misteriosa da brincadeira. A própria frase de mestre Pastinha -- "Capoeira é tudo o que a boca come"-- não se parece com a resposta a um enigma esotérico? O que ele estava tentando dizer com isso?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Mas, voltando ao mestre Pombo de Ouro, arrisco dizer que, apesar de dar muita ênfase à diferenciação entre as escolas de capoeira em suas conversas com seus alunos -- preocupa-se em demarcar angola e regional e mostar certo desprezo pelos estilos contemporâneos -- talvez a sua maior característica seja a de ajudá-los a descobrir o seu próprio estilo de capoeira. Isso, para o mestre, compara-se a uma busca pelo auto-conhecimento e pelo desenvolvimento intelectual, emocional e mesmo espiritual do aluno. Ao mestre caberia apenas despertar o que está adormecido no iniciante, o resto, fica a cargo do próprio discípulo, guiado por seus interesses no campo da brincadeira. A transformação atlética e espiritual é feita a partir do próprio indivíduo.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Sobre a relação do método do mestre com o esoterismo, arrisco fazer algumas digressões. Acabei de ler um livro de uma socióloga que falava sobre a magia na medicina umbandista. (&lt;em&gt;Da doença à desordem: a magia na Umbanda -- Autor: Paula Montero).&lt;/em&gt; Uma das principais partes do livro falava que a medicina científica tendia a encarar o paciente, como um "corpo morto", fragmentado em diversos órgãos e membros de sua anatomia e que não estava inserido numa família, num ambiente pertencente a determinada classe social. A magia umbandista, ao contrário, tenderia a encarar o paciente como inserido num mundo social e espiritual, seu corpo sendo um campo de batalha entre forças do Bem e forças do Mal, tanto no plano material como no espiritual. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Assim, para a umbanda, o corpo de cada indivíduo seria específico e estaria participando de um todo maior, seria um "corpo histórico". Daí o fato de que a magia umbandista tem sucesso na cura de doenças cujas causas têm que ver com a inserção social problemática dessas pessoas, ao passo que a medicina científica não tem.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Creio que podemos comparar o método de treinamento baseado em repetições à medicina científica. O método Senzala encara o aluno como um corpo morto. O método do mestre Pombo, como a magia umbandista, encara o aluno como um todo, como um corpo histórico.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Isso tem implicações interessantes para a capoeira. Temos aqui um método de ensino alternativo ao que vem sendo utilizado em todas as partes do mundo, seja por angoleiros, regionais ou contemporâneos. Um método que teria como base um sistema simbólico umbandista que, como apontado por Paula Montero, carrega uma visão de mundo elaborada pelas classes populares brasileiras. É por isso que eu considero o mestre Pombo de Ouro como um gênio, um "gênio da raça". &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20990548-114925464838393006?l=morenocapoeira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/feeds/114925464838393006/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20990548&amp;postID=114925464838393006&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/114925464838393006'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/114925464838393006'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/2006/06/o-gnio-da-raa.html' title='O gênio da raça'/><author><name>Moreno capoeira</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20990548.post-114891455700173853</id><published>2006-05-29T11:15:00.000-03:00</published><updated>2006-08-01T22:15:33.573-03:00</updated><title type='text'>O Porto, o corpo e a capoeira</title><content type='html'>Amigos, dessa vez escrevo lembrando a cidade do Porto, em Portugal, onde fiquei na casa de uma amiga de minha tia que estava fazendo o mestrado em Educação Física. Lá não joguei capoeira, mas conversei muito com esta professora que me hospedava. Ela me explicou alguma coisa sobre o que seria a sua dissertação: a diferença da cultura do corpo nas cidades do Rio de Janeiro e do Porto.&lt;br /&gt;Segundo ela, ter um corpo malhado no Rio de Janeiro seria um sinal de distinção social. Para as mulheres, por exemplo, seria uma forma de mostrar sua independência, capacidade de iniciativa e força ao invés da dependência, passividade e fragilidade esperadas de um padrão de comportamento feminino tido como clássico. Assim, possuir gordurinhas no quadril, ou tê-lo um pouco avantajado, pelo menos na Zona Sul do Rio de Janeiro, está associado a um padrão de mulher ultrapassado.&lt;br /&gt;Porém, existiria um lado perverso nesse novo padrão de beleza: perseguindo um corpo sarado as mulheres estariam erigindo como modelo um corpo masculinizado, musculoso e sem quadris. O feminismo das academias teria, então, uma face oculta androcêntrica.&lt;br /&gt;No caso dos homens, o padrão corporal que demonstra força e independência seria mais fácil de ser conseguido, porém, muitos não se contentam com simplesmente estarem em boa forma e apelam para os anabolizantes. Para os homens, tamanho é documento, quanto maiores eles forem, mais admirados serão. Isso pode ser até compensação de uma timidez ou de uma falta de habilidade social. Ser forte, então, pode ser um meio de mostrar que se está integrado à sociedade das aparências em que vivemos hoje.&lt;br /&gt;Sim, mas qual é a relação disso com a capoeira?--Pergunta o leitor mais atento. É que um corpo magro na vadiação pode significar --dependendo, é claro, do jogador-- uma sutileza na forma de brincar. Os corpos dos magrelos angoleiros, por exemplo, podem estar nos dizendo: "eu domino de outro jeito que não pela força", e isso seria uma forma de jogo até mais perigosa. Tal forma estaria mesmo muito próxima à forma de luta associada ao sexo feminino dentro e fora da roda. Um jogo mais sutil, enganador, porque jogado pelo mais fraco.&lt;br /&gt;Acontece que, em muitos grupos e em muitas rodas temos visto que os capoeiristas mais graduados estão se "bombando" e aí o mesmo leitor afiadíssimo pode até perguntar se uma capoeira jogada por grandões que se impõem através do físico pode ser considerada uma arma do oprimido -- mais fraco-- contra o opressor, mais forte; do escravo contra o senhor, uma luta em que o importante seria a dissimulação do conflito e não o confronto direto. Um amigo leitor desse blog me disse que os negões estão mais para capitão-do-mato do que para escravos!&lt;br /&gt;Mas o buraco é bem mais embaixo, essa não é uma questão simples. Por exemplo, todos os domingos vemos caras bombados na Roda da Torre. Os camaradas são como que garotos-propaganda daquele evento, quase que uma atração à parte, super-homens. No que diz respeito às mulheres, também encontramos a mulher negra sarada da periferia, com corpo esculpido e jogo "prá frente". Uma espécie de contrapartida feminina dos grandões.&lt;br /&gt;Por um lado, eles simbolizariam uma capoeira que teria perdido um pouco de sua sutileza, mas por outro, vemos que o domínio que exercem naquele lugar e naquele momento muda a hierarquia da sociedade envolvente. Nesse caso, os mais fracos mandam.&lt;br /&gt;E mais, não é só esse o tipo corporal que encontramos no ambiente da brincadeira; vemos hippies (adeptos de uma capoeira paz-e-amor?), negros com cabeça raspada (seria isso uma referência a uma forma mais agressiva de negritude?), negros rastas (o que sugere outro tipo de negritude, mais mística, talvez), magrelos maliciosos e, por fim, barrigudos cheios de fintas. Encontramos também a mulher gorda --uma espécie de manifesto contra o monopólio da capoeira pelos corpos sarados?-- e a loura do Plano --delicada e inocente?-- ao lado da mulata "gostosa"-- ambas estereótipo da mulher a ser conquistada?Mas por que elas batem tão forte e são tão más?&lt;br /&gt;Isso gera até algumas perguntas: para cada um desses corpos a capoeira seria diferente? O tipo de corpo define também o tipo de capoeirista? Qual é a relação entre a aparência do capoeirista e o seu jogo? O corpo na capoeira é também uma forma de manifesto político?&lt;br /&gt;Seria necessário mesmo entrevistar cada pessoa portadora de um visual próprio para responder a tantas dúvidas. Seria preciso que a estudiosa das academias do Porto viesse à Brasília estudar o meio da vadiação.&lt;br /&gt;Só posso dizer que, idealmente, devem existir tantas capoeiras quanto capoeiristas existirem. A capoeira seria como um livro que cada leitor interpreta a seu modo de acordo com suas limitações e possibilidades. O importante seria cada um desenvolver seu próprio jeito de vadiar, respeitando o jeito do camarada, brincando e aprendendo com ele. Isto é como uma utopia capoeirística que nem sempre conseguimos por em prática.&lt;br /&gt;Uma boa semana a todos!&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20990548-114891455700173853?l=morenocapoeira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/feeds/114891455700173853/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20990548&amp;postID=114891455700173853&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/114891455700173853'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/114891455700173853'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/2006/05/o-porto-o-corpo-e-capoeira.html' title='O Porto, o corpo e a capoeira'/><author><name>Moreno capoeira</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20990548.post-114796251564071597</id><published>2006-05-18T11:05:00.000-03:00</published><updated>2006-05-18T15:48:18.286-03:00</updated><title type='text'>O "parqu" e a capoeira (resposta a um fiel leitor)</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Camaradas, ontem um amigo e leitor desse blog me perguntou se eu acreditava mesmo que o porquê da expansão da capoeira pelo mundo é a sua identificação com os povos oprimidos. Como contraponto a essa opinião, ele citou o exemplo do futebol, esporte criado e difundido pela Inglaterra imperialista que é hoje o mais praticado no mundo. Vou responder a ele, mas antes vou "cozinhando o jogo".&lt;br /&gt;Essa coisa de cozinhar me lembrou a sopa "zurek" polonesa e os polacos praticantes do "parqu"-- entre os quais se inclui o filho do mestre Jorge. Tal esporte foi criado na França há alguns anos e consiste no aproveitamento dos obstáculos da cidade para fazer acrobacias. Esse pessoal pula de tetos de casas, salta o espaço que separa pequenos prédios, aproveita os muros da cidade para dar saltos mortais e outras loucuras mais. Por quê? Que diabos os caras querem com isso?&lt;br /&gt;Uma explicação que eu tenho é a de que o "parqu" é uma forma de se apropriar da cidade, da "selva de pedra" vista como opressora do ser humano, de vencer os obstáculos que ela coloca à livre movimentação das pessoas e ainda aproveitar para fazer movimentos que os praticantes percebem como ligados à pura criatividade, à "irracionalidade", à diversão pura ao fazer algo porque se pode, e não porque um chefe manda.&lt;br /&gt;O "parqu" é, então, uma espécie de vadiação européia. Penso que os mesmos motivos da expansão desse esporte valem para a da capoeira. A roda seria uma espécie de suspensão do cotidiano de um trabalho monótono, um reencontro do homem com uma fase mais livre e mais inocente de sua história. Ora, sabemos que os carregadores, estivadores e ganhadores do Recôncavo Baiano e da cidade do Rio de Janeiro jogavam entre um serviço e outro.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Assim, a expansão da capoeira não está ligada diretamente à luta contra a opressão, mas a um intervalo de um trabalho pesado. Hoje em dia, grande parte das pessoas trabalham em atividades repetitivas e monótonas, sentadas em frente a um computador. A capoeira seria uma forma de reencontro de uma hipotética natureza humana primitiva. A própria valorização do "baixo corporal" -- pés, pernas e quadris -- frente à cabeça, ao tronco e às mãos ilustra uma inversão do mundo cotidiano e racional, como escreve Letícia Reis.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Então, a capoeira pode ser, hoje em dia, uma válvula de escape para a vida moderna, estando mesmo ligada à manutenção da integridade psíquica das pessoas no contexto do capitalismo avançado. Este, inclusive, é um dos aspectos apontado por Mathias Assunção para a expansão da capoeira pelo mundo. A capoeira seria como que um estabilizador social nos países desenvolvidos. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Isso não quer dizer que estou substituindo a idéia de uma capoeira essencialmente libertária pela de uma capoeira essencialmente conformista. Pelo contrário, acho que muito coelho pode sair da cartola da capoeira nessa época de globalização, pois cada grupo social pode conferir a ela sentidos diferentes dependendo de sua realidade, e tais sentidos nem sempre introjetam a dominação.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;Moreno&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20990548-114796251564071597?l=morenocapoeira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/feeds/114796251564071597/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20990548&amp;postID=114796251564071597&amp;isPopup=true' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/114796251564071597'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/114796251564071597'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/2006/05/o-parqu-e-capoeira-resposta-um-fiel.html' title='O &quot;parqu&quot; e a capoeira (resposta a um fiel leitor)'/><author><name>Moreno capoeira</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20990548.post-114781141133152364</id><published>2006-05-16T16:34:00.000-03:00</published><updated>2006-05-17T17:56:46.186-03:00</updated><title type='text'>Capoeira na Polônia</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Amigos, sei que voltei sentimental de minha viagem à Europa, mas é porque, para mim, toda a viagem deve ser uma descoberta. Não só de uma outra cidade, mas também de si mesmo. Assim como uma cidade se doa ao viajante, ele também se doa a ela, se expondo a diversas situações desconhecidas, descobrindo qualidades que nem mesmo ele sabia possuir. Pois cada dobrar de esquina é um enigma. E esta relação não é simples, não. O viajante nem sempre está disposto a se arriscar, a se entregar.&lt;br /&gt;Lisboa foi minha cidade-mulher. Porém, fui infiel. Cracóvia também é apaixonante, e mais: lá eu estava só, e portanto mais sensível aos encantos do lugar. A cidade possuía uma personalidade mais alegre -- essa foi a minha primeira impressão -- não sei se foi porque a conheci em dia de feriado e ela estava usando suas roupas mais coloridas. Tinha também um não sei quê de ex(r)otismo que o brasileiro imagina numa menina do Leste Europeu recém libertada da Cortina de Ferro.&lt;br /&gt;Realmente, Cracóvia é uma cidade que possui um clima menos carregado do que sua irmã Varsóvia. É dominada por estudantes e não sofreu tanto quanto a outra com a II Guerra. Varsóvia está cheia de momumentos que lembram os mártires do Gueto e de regiões inteiras que foram reconstruídas depois de bombardeadas pelos alemães. Ela ainda mostra cicatrizes do que foram a guerra e o fechamento do período comunista. É uma cidade um pouco complexada, coitada. Mas grande parte de sua beleza está justamente no fato de ter sobrevivido e de ter sido foi tão amada a ponto de ser reconstruída. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Mas esse Blog é sobre capoeira. Então vamos a ela! Em Varsóvia, tive o privilégio de ficar hospedado na casa do mestre Jorge e da instrutora Ju. Participei de algumas aulas e rodas dos dois e foi assim que percebi a importância do método de treinamento criado na década de 60 pelo Senzala na expansão da brincadeira. Foi tal metodologia que tornou possível a formação de capoeiristas em países e contextos sociais e culturais --mesmo dentro do Brasil-- diferentes daquele da vadiação baiana ou das maltas do Rio de Janeiro. Os alunos do grupo de Varsóvia não têm nada a dever aos alunos do meu núcleo de Brasília, por exemplo.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Nas palavras do próprio mestre Jorge, eles estão muito bem tecnicamente, mas talvez falte ainda um pouco de malícia. No entanto, mesmo nesse quesito eles não estão muito atrás dos brasileiros, pois uma das características do método da capoeira esportiva --como já apontou Alejandro Frigério há 20 anos-- é a valorização da técnica e da plasticidade em detrimento da mandinga. Ganha-se de um lado, perde-se de outro.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Porém, o mesmo Jorge ainda confessa sentir falta de um jogo mais malicioso, apesar de ter rodado a Europa inteira em encontros e festivais de capoeira. O problema talvez seja que eles não têm tanto acesso a outras fontes de malícia: as rodas de rua, mais comuns no Brasil que na Europa. Isso deve se modificar em alguns anos com um maior desenvolvimento da capoeira naquele continente.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Encerrando esta postagem, agradeço novamente ao mestre Jorge pela hospedagem e pelas conversas sobre capoeira regadas a cerveja polonesa. Elas foram mais importantes do que os treinos, as rodas e as conversas com alguns de seus alunos. O Jorge é um cara que tem idéias bem definidas sobre a capoeira e como ela deve ser ensinada. Tive conhecimento de muita coisa que acontece nos bastidores da brincadeira mas que são parte importante da sua história. Fui até um confidente com quem ele falou de projetos futuros. Conhecer as histórias de bastidores é interessante porque evita a idealização de personagens, de grupos e de estilos de jogo, nos torna mais realistas e conscientes no meio da vadiação. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Ressalto o privilégio de ter sido interlocutor do mestre lembrando que ele não é um qualquer, hoje o Jorge é referência para a capoeira da Polônia, qualquer outro que chegar lá vai sofrer uma comparação com seus altos padrões, não só de treino mas também de comprometimento profissional. Esse contato mais pessoal de um mestre tão importante com um aluno sobre a sua concepção de capoeira nãoi tem preço. Valeu a pena ter viajado uns 15 mil quilômetros para realizá-lo. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="center"&gt;Moreno&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20990548-114781141133152364?l=morenocapoeira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/feeds/114781141133152364/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20990548&amp;postID=114781141133152364&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/114781141133152364'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/114781141133152364'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/2006/05/capoeira-na-polnia.html' title='Capoeira na Polônia'/><author><name>Moreno capoeira</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20990548.post-114764785451075513</id><published>2006-05-14T19:57:00.000-03:00</published><updated>2006-05-15T23:07:34.803-03:00</updated><title type='text'>Lisboa e a capoeira</title><content type='html'>&lt;blockquote&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Caros leitores deste modestíssimo blog, perdão pela ausência. É que me apaixonei e me separei do ser amado. Apaixonei-me por Lisboa, pelas reentrâncias d’Alfama e pelo balanço das barcas do Tejo, pelas tascas da Cidade Baixa e do Chiado, pelo sabor do licor de ginginha às seis da tarde perto do Rossio, ponto de reunião dos angolanos da cidade. &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;Se conheci os recônditos da cidade em Alfama, bairro antiquíssimo, travei contato com suas profundezas no Oceanário, em sua parte novíssima. Quando pensei estar íntimo, tive de ir embora. Resultado, senhores e senhoras: hoje estou na fossa. Só me resta ouvir a voz de Carlos do Carmo e me lembrar: “Lisboa, menina e moça, menina/cidade por minhas mãos despida/ teus seios são as colinas, varinas(...)/cidade-mulher da minha vida”. &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;Hoje me pergunto: “poderia eu ser feliz em Lisboa?”. Parece que muitas pessoas fizeram essa mesma pergunta para si mesmas e a responderam afirmativamente. Minha viagem foi para visitar um amigo que está clandestino em Portugal. Assim, pude ter contato próximo com a realidade difícil dos “brazucas” – termo pejorativo que designa os brasileiros imigrantes que vivem em Portugal. Cheguei a ficar um pouco deprimido na cidade: a paixão parecia ser doentia. &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;Porém, havia os momentos de alegria: as imperiais geladas e as doses de bagaceira nas tascas da Baixa-Chiado acabavam por integrar, de alguma maneira, brasileiros, portugueses, tchecos, angolanos e alemães. A cidade, afinal, seduzia vários grupos. &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;Aliás, o assunto para essa postagem é justamente um angolano que conheci em Lisboa. Fui a uma aula de um pequeno grupo de capoeira num local que era um misto de centro cultural, academia e restaurante. O mestre, um baiano cinquentão, não pareceu estar muito comprometido com o desenvolvimento de seus alunos portugueses. Deixou o berimbau na mão do angolano e ficou conversando com um funcionário da direção da academia. Para mim, ficou evidente que lhe faltava fundamento para mestrar uma roda. Mas não vou me ater a isso. Vou destacar dois pontos interessantes na condução de roda desse angolano. &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;Primeiro, em determinado momento, ele começou a cantar uma música cuja letra eu não entendia direito e num ritmo desconhecido para mim: pensei: é uma música angolana! Se o mestre vacilar, daqui sai outra coisa que não é capoeira! &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;O segundo aspecto é mais interessante: em outro momento da roda o cara puxou: “Vou me embora, vou me embora/Vou me embora pra Angola”, cantiga muito conhecida na voz de João Grande. Porém, quando chegou a hora, o cidadão hesitou e trocou Angola por Bahia. Pensei na hora: “o cara não quer voltar para seu país!”. Sua terra está longe daquela que foi idealizada pelos afro-brasileiros que vadiavam na Salvador do século XIX, ele não tem muitas ilusões sobre ela! Para ele era melhor viver ilegal em Portugal e no andar de cima de uma academia do que voltar para lá! &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;Esse acontecimento é interessante porque faz a gente pensar como é que um africano que vive a diáspora no período da globalização do século XXI vê a capoeira. Se de um lado, ele cantou uma canção luso-angolana na roda, por outro, ele se recusou, pela omissão da letra, a mitificar sua terra, como a tradição exigiria. Em dois momentos ele reinterpretou a capoeira da sua maneira. &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;Sabemos que os grupos de ativistas negros nos EEUU já criaram e sistematizaram uma concepção de capoeira. A brincadeira seria uma forma de atravessar o “Kalunga”, o Atlântico, a barreira que existe entre o mundo dos mortros e o mundo dos vivos, a África e a América.&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;Por outro lado, alguns poloneses com quem conversei, se identificam com a ética da malandragem da capoeira por que também foram dominados em toda a sua história, e para sobreviver também tinham que viver nas brechas de um sistema hostil. &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;Surge então a questão: de que forma a capoeira seduz angolanos, portugueses, poloneses, checos e outras gentes e como eles a interpretam? Talvez, como a minha cidade-mulher, a capoeira seduza toda a gente, por características que nem ela mesma saiba que tem tocando inocentemente finas cordas de sentimentos (como as das guitarras portuguesas) em todas elas. &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;Ó pá, isto é assim: acabou. Mas sigo um pouco melancólico, por ter me separado de Lisboa e por ter cada vez mais a consciência de que, como disse uma colega de capoeira: “ essa coisa (a capoeira) já não é mais só nossa (dos brasileiros)”. Tento me consolar com ajuda de Carlos do Carmo: “Se deixaste de ser minha/ não deixei de ser quem era/ por morrer uma andorinha/não se acaba a primavera.” E vou vivendo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20990548-114764785451075513?l=morenocapoeira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/feeds/114764785451075513/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20990548&amp;postID=114764785451075513&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/114764785451075513'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/114764785451075513'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/2006/05/lisboa-e-capoeira.html' title='Lisboa e a capoeira'/><author><name>Moreno capoeira</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20990548.post-114403639997336384</id><published>2006-04-03T00:42:00.000-03:00</published><updated>2006-04-10T15:05:46.240-03:00</updated><title type='text'>Aula de mandinga IV</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;É necessário frisar que as aulas do mestre Pombo têm um princípio, um meio e um fim que ficam bem definidos para o aprendiz. Depois da roda, que sempre acontece em todos os treinos, o mestre conversa com os alunos comentando a aula e dando conselhos sobre a mesma, fazendo um fechamento do encontro. O mestre fala também sobre projetos extra-classe ( assunto que será abordado em outro texto).&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Essa espécie de "chave de ouro" do treino é importante porque os alunos saem da aula com a sensação de que passaram por um processo que tinha um objetivo determinado, que não passaram uma hora do seu dia repetindo exercícios sem razão, que havia sentido no seu esforço. Parece que, para o mestre, a aula é como um ritual em cujo final o aprendiz sai transformado e tendo consciência dessa transformação.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A "chave-de-ouro" das aulas também é uma forma de minimizar a ansiedade do aluno quanto ao aprendizado. Dessa maneira, ele pode sair do treino com a consciência de que seu aprendizado segue uma direção. É necessário frisar também que, diferente dos teinos de academias-- onde cada aula é independente da aula anterior-- cada treino do mestre é ligado ao anterior. Isso também proporciona um sentido de unidade ao curso de capoeira do mestre Pombo.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Ao final da aula também é permitido aos alunos falar sobre como se sentiram durante a mesma. Esse direito à palavra é uma raridade no meio capoerístico. Isso é um procedimento interessante até para o próprio professor, pois, ao adotar esse recurso, ele tem uma noção de como os aprendizes estão assimilando seus ensinamentos. Isso é também uma forma de saber se os seus treinos estão satisfazendo às expectativas dos alunos. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Os capoeiristas brasileiros sabem que já existe uma associação de capoeira próxima do anarquismo na França -- os Maíra -- que não os aceitam em seu grupo. Além da disputa de mercado que gerou essa postura , existe uma demanda realista dos franceses por participação dos alunos no processo de aprendizagem, ou seja, entre outras coisas,  a criação desse grupo foi uma reação a mestres de capoeira brasileiros despreparados para permitir a participação dos aprendizes na direção de seu próprio aprendizado.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Esse processo de aprendizagem, para o mestre Pombo de Ouro, não se limita apenas aos movimentos da capoeira, mas também abarca atividades como leitura de livros sobre capoeira, debates sobre documentários e visitas a rodas e treinos de outros mestres. Além disso, existe a preocupação do mestre de manter os alunos informados quanto à situação burocrática de treinamento. Por exemplo, se a direção do espaço exige uniforme, os alunos é que decidem qual indumentária deve ser adotada. Os alunos têm plena noção do que está acontecendo com seu espaço de treinamento. Ou seja, são sujeitos do seu aprendizado durante as aulas e fora delas.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Não percam a próxima postagem.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20990548-114403639997336384?l=morenocapoeira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/feeds/114403639997336384/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20990548&amp;postID=114403639997336384&amp;isPopup=true' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/114403639997336384'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/114403639997336384'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/2006/04/aula-de-mandinga-iv.html' title='Aula de mandinga IV'/><author><name>Moreno capoeira</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20990548.post-114381062525191169</id><published>2006-03-31T10:08:00.000-03:00</published><updated>2006-03-31T10:38:46.726-03:00</updated><title type='text'>Aula de mandinga III</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Sobre a roda, é importante lembrar que é ele mesmo quem escolhe as duplas que vão jogar, como fazia o próprio mestre Bimba e segundo os critérios já expostos na postagem anterior.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Assim, e isso é outra característica importante do mestre Pombo, se o aluno é o sujeito do seu aprendizado, o mestre é o seu guia, é aquele que cria as condiçoes propícias para que aconteça o seu desenvolvimento. Isso quer dizer que, em nenhum momento o aluno está solto ou largado no treino, durante toda a aula ele realiza exercícios específicos para ele com um par determinado, tudo com supervisão do mestre.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A escolha dos pares é importante porque cria um sentimento de camaradagem entre dois alunos. Coisa que é essencial para durante as rodas haver a brincadeira, a vadiagem, um jogo mandingado porém com respeito e amizade. Isso é essencial também para a realização da cintura desprezada, pois a confiança no colega é capital para a perfeita execução dos balões.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Nunca é demais frisar que o mestre cria um ambiente em que todos os alunos se sentem responsáveis pelo aprendizado dos colegas. Como venho jogando capoeira há um certo tempo, percebo que existe uma tendência, pelo menos em mim, de irritação do aluno mais avançado para com o iniciante. Isso, devido à criação pelo mestre de um ambiente de respeito mútuo pela individualidade e pelo aprendizado do outro, é reduzido ao mínimo. A individualidade, os interesses e o ritmo de aprendizado de cada um dos colegas devem ser respeitados.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Em muitos lugares em que treinei, esse clima não existia, um viés de competição entre os alunos dominava a tendência cooperativa das aulas. E isso não é só efeito da personalidade dos alunos, mas também, e principalmente, da condução das aulas pelo professor ou mestre. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Friso novamente que é essencial o aluno sentir o comprometimento do mestre com o seu aprendizado individual, personalíssimo. Só assim o aprendiz vai se sentir seguro, livre de ansiedades quanto ao próprio aprendizado, vai sentir sua própria personalidade e seu jeito de jogar valorizados. Quantas vezes, quando iniciante, não saí de treinos pensando:"se não sirvo para jogar capoeira, também não sirvo para nada"? É esse tipo de sentimento que deve ser minimizado nos treinos de capoeira.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20990548-114381062525191169?l=morenocapoeira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/feeds/114381062525191169/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20990548&amp;postID=114381062525191169&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/114381062525191169'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/114381062525191169'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/2006/03/aula-de-mandinga-iii.html' title='Aula de mandinga III'/><author><name>Moreno capoeira</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20990548.post-114359582620077695</id><published>2006-03-28T22:28:00.000-03:00</published><updated>2006-03-28T23:00:21.706-03:00</updated><title type='text'>Aula de mandinga II</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;Conforme expus na postagem anterior, o método do mestre Pombo de Ouro recoloca o aluno como sujeito da própria aprendizagem. Aqui vão outros exemplos da atuação do mestre, seguidos dos pressupostos em que estão baseados.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;É característica importante da metodologia do mestre Pombo a preocupação com um ambiente de aprendizado livre de ansiedades dos alunos quanto à sua performance e quanto à sua aceitação pelo grupo. Por exemplo, dinâmicas de grupo como pique-pega (em pé e agachado) e como troca de pares em pequenos jogos ajudam a "quebrar o gelo" dos alunos e a criar um clima propício à integração. Ele utiliza tais dinâmicas diariamente, mas aumenta sua duração quando chegam alunos novos. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;A ansiedade quanto à aprendizagem é combatida de diversas formas: é ele quem escolhe as duplas de treinamento, como fazia mestre Bimba, de acordo com o nível de aprendizado e também -- e isso mostra um conhecimento e uma preocupação com seus alunos que não é comum em professores de capoeira -- conforme a personalidade e o temperamento do aluno. Dessa maneira, um aluno iniciante, porém violento e empolgado, não treina junto com outro iniciante mais pacato, mas sim com um aluno avançado -- devidamente alertado pelo mestre a não machucar o calouro.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;Por outro lado, o aluno avançado tem a consciência de que ele mesmo está aprendendo capoeira ao se preocupar com o controle de seus golpes quando treina com o iniciante. O mestre vive repetindo dois ditados referentes a essa situação: "Quem sabe mais doa a quem sabe menos" e "o capoeirista deve aprender a vencer a si mesmo". Quanto a essa última frase, ele a desenvolveu nos seus estudos de esoterismo. Lembro-me de ele ter me emprestado uma revista que dizia que o objetivo maior das artes marciais é a superação da razão sobre os instintos animais do homem. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;Outra forma de assegurar a integração da turma evitando a ansiedade quanto à aprendizagem é na escolha dos exercícios de cada dupla. Cada uma delas realiza um determinado exercício de golpe e contragolpe adaptado ao grau de desenvolvimento de cada aluno. Porém, se um aluno da dupla realiza os exercícios com uma dificuldade muito menor que o companheiro, o mestre muda o exercício para que aquele que sabe menos não se sinta inferiorizado. Muitas vezes ele sugere variações do mesmo exercício. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;Outra preocupação do mestre é com o trabalho em pares. Como mencionei anteriormente, é ele quem forma as duplas seguindo critérios bem definidos. O mestre toma cuidado para não deixar que um aluno dê lições demais ao outro. Isso pode inferiorizar aquele que está sendo "ensinado" pelo colega. O objetivo do mestre é fazer com que o aluno aprenda com seus próprios erros, por isso não é positivo, na sua metodologia, que um aluno avançado se imponha demasiado sobre um iniciante. A direção e o ritmo do aprendizado devem ser ditados pelas aptidões de cada aluno. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;Durante a roda, um certo clima de competição é incentivado, porém, dentro do contexto de integração e aceitação do outro, presente em todos os momentos da aula. Quando os alunos estão no pé do berimbau, o mestre sugere a execução de determinados golpes treinados durante a aula. Além disso, comenta o que acontece na roda com interjeições e chega a parar o jogo para dar alguns "toques" para os camaradas que estão jogando. Isso, segundo ele, serve para que aumente a consciência do aprendiz tanto sobre o próprio jogo quanto sobre o jogo do outro. Por que "capoeira", para o mestre, "é percepção". &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;Nas rodas, os alunos, em sua maioria, iniciantes sem contato com músicas de capoeira, são incentivados a repetir o coro, mesmo que saia desafinado ou fora do ritmo. Isso faria com que eles percebessem -- naturalmente, através da própria experiência e sem ninguém obrigando-os a responder o coro -- as qualidades necessárias para se fazer uma boa roda. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;O mesmo vale para a bateria: tanto o tocador de berimbau como o pandeirista e o cantor devem perceber naturalmente as dificuldades presentes na formação de uma boa charanga e se acertarem. Isso tudo com uma intervenção mínima do mestre, ele apenas fala: "o berimbau não pode tocar na segunda, o pandeiro na terça, a palma na quarta, o canto na quinta e o coro na sexta-feira". O mestre chama atenção dos alunos para as dificuldades de cantar, tocar um instrumento, bater palma e olhar o jogo da roda tudo ao mesmo tempo. Isso seria outro treinamento de percepção e de auto-conhecimento para os alunos.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;Outras "mandingas metodológicas" do mestre ainda serão expostas.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20990548-114359582620077695?l=morenocapoeira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/feeds/114359582620077695/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20990548&amp;postID=114359582620077695&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/114359582620077695'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/114359582620077695'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/2006/03/aula-de-mandinga-ii.html' title='Aula de mandinga II'/><author><name>Moreno capoeira</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20990548.post-114308018723673151</id><published>2006-03-22T23:15:00.000-03:00</published><updated>2006-03-22T23:18:08.996-03:00</updated><title type='text'>Comentário sobre a biografia de Mestre Canjiquinha</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Para quem se interessar, encaminho a biografia do mestre Canjiquinha. Na verdade é a transcrição de uma entrevista que ele deu a um aluno. Possui muitas características de um relato popular, com idas e vindas e coisas deixadas no ar. Vale a pena!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Canjiquinha é da geração imediatamente posterior à dos mestres Bimba e Pastinha, nasceu na década de vinte e morreu, se não me engano, em 1990. Ainda assim, aprendeu capoeira do modo tradicional. É uma leitura interessante porque tomamos conhecimento de como é que aqueles homens aprendiam e de como funcionava o mundo do que hoje chamamos de "vadiação baiana" -- por exemplo, vocês vão ver que seu mestre, como parte de uma espécie de ritual de admissão do aluno, lhe pediu uma garrafa de cachaça. Também é interessante o relato de suas primeiras aulas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Canjiquinha não se filiou nem à escola de mestre Bimba, e nem à de Pastinha, apesar de suas origens angoleiras. Nos anos 60, já era famoso capoeirista, fazendo apresentações para turistas e participações em filmes. Entrou em desavenças com mestre Pastinha, que, segundo ele, queria monopolizar os estilos não-filiados à regional.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É ele o autor da famosa frase: " A capoeira é uma só". E ele a proferiu num contexto de disputa tanto com mestre Pastinha quanto com a capoeira regional. Não era do seu interesse a submissão a nenhum dos dois estilos, por isso, tentou desenvolver um terceiro, criando inclusive toques próprios de berimbau, como o samango ou o samba-de-angola.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi mestre de mestre Brasília, baiano que, juntamente com Suassuna, fundou o Cordão de Ouro, em São Paulo. Tal grupo se apropriou da idéia de que a capoeira era uma só, lançando um marco muito importante para a capoeira que se convencionou chamar de contemporânea.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;Moreno&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20990548-114308018723673151?l=morenocapoeira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/feeds/114308018723673151/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20990548&amp;postID=114308018723673151&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/114308018723673151'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/114308018723673151'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/2006/03/comentrio-sobre-biografia-de-mestre.html' title='Comentário sobre a biografia de Mestre Canjiquinha'/><author><name>Moreno capoeira</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20990548.post-114286188509217569</id><published>2006-03-20T04:36:00.000-03:00</published><updated>2006-04-04T22:23:33.073-03:00</updated><title type='text'>Aula de mandinga</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Lembro-me de que, em minha época de estudante de licenciatura em História, li um texto que dizia que ensinar não é uma ciência, mas uma arte. Assim, os comentários que se seguem não devem ser tomados como um método de ensino eficaz a ser adotado por todos aqueles que ensinam capoeira; são apenas um relato de um caso singular no mundo da brincadeira.&lt;br /&gt;Já escutei muito em vários lugares onde treinei esta frase: "malícia não se ensina". Acho que os treinos do mestre Pombo desmentem essa idéia. Principalmente nos jogos com rodas pequenas acaba-se desenvolvendo a percepção e a "maldade".&lt;br /&gt;Segundo caras como Nestor Capoeira, isto é o mais importante no ensino da vadiagem: o desenvolvimento da malícia. Eu concordo com ele, e também acho que tanto a parte dos golpes quanto a parte da malícia podem ser treinados, cabendo ao mestre desenvolver um tipo de aula que se destine a isso, como o mestre Pombo faz com seus alunos.&lt;br /&gt;Hoje em dia, na maioria das academias o que se treina é repetição de movimentos, quase uma "aerocapoeira", pois os alunos só ficam imitando os movimentos repetidos por um professor que se posiciona na frente da sala de aula e que determina o ritmo dos exercícios. A ênfase na repetição de seqüências pré-determinadas realizadas por dois jogadores também é muito grande. Desse jeito, o treino da percepção do outro e da malícia fica prejudicado.&lt;br /&gt;Os toques do mestre durante os jogos das alunos são fundamentais para desenvolver um capoeirista mandingueiro, o mestre Pombo de Ouro, assim como os mestres tradicionais o faziam, frisa muito a necessidade de perceber o movimento do outro e de enganar o camarada. Como na capoeira tradicional, ensinada aos mestres Waldemar da Paixão e Canjiquinha (ver o livro de Frede Abreu e a biografia de Canjiquinha), e provavelmente a todos da Velha Guarda.&lt;br /&gt;Nesse ponto, se o método Senzala é mais eficiente para desenvolver golpes rápidos, o método tradicional é mais eficiente para criar a malícia. Estão de prova os aprendizes mais recentes do mestre Pombo de Ouro, é cada vez mais desafiador jogar com eles.&lt;br /&gt;Deve-se frisar também na aula do Mestre Pombo a criação de um ambiente cooperativo entre os alunos. O fato de o mestre não ter uma postura autoritária, compartilhando seus sentimentos, suas decisões quanto ao andamento do aprendizado com os alunos é fundamental na criação desse ambiente. As atividades das aulas não são decididas apenas por ele, os alunos tendo um papel importante no seu andamento.&lt;br /&gt;Isso é fundamental para criar a auto-confiança e o protagonismo no aluno. O iniciante não é visto como um ser inferior que recebe o conhecimento de um ser absolutamente superior; mas como um indivíduo que possui interesses próprios dentro e fora do mundo da capoeira, um determinado ritmo de aprendizado e um determinado jeito de soltar os golpes que devem ser respeitados por todos os outros colegas, mesmo os mais adiantados.&lt;br /&gt;A cooperação entre os alunos é mais bem desenvolvida desse modo, cada um respeita o interesse do outro por se sentir respeitado de volta. Isso acontece primeiramente porque o mestre olha cada discípulo como único, comprometendo-se individualmente com cada um dos alunos e isso parece que contagia o grupo inteiro.&lt;br /&gt;O aprendiz percebe, então, que a aula do mestre não tem somente que ver com capoeira, mas também, e principalmente, com a construção da própria individualidade, com encontrar seu próprio caminho na vida consciente de suas escolhas e respeitando as pessoas com quem se convive. E isso realmente não se aprende numa academia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;Moreno&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20990548-114286188509217569?l=morenocapoeira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/feeds/114286188509217569/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20990548&amp;postID=114286188509217569&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/114286188509217569'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/114286188509217569'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/2006/03/aula-de-mandinga.html' title='Aula de mandinga'/><author><name>Moreno capoeira</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20990548.post-114260501758543637</id><published>2006-03-17T10:53:00.000-03:00</published><updated>2006-05-18T23:59:36.793-03:00</updated><title type='text'>Uma crítica ao mito da "capoeira quilombola"</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Quanto ao Cláudio Queiroz, ele é uma figura importante no meio da capoeira de Brasília. Foi um dos fundadores do Grupo Senzala nos anos 60, que ajudou a espalhar a capoeira pelo Brasil e criou um novo método de ensino da brincadeira. Já assisti a palestras em que ele relatava que, quando jovem, subia os morros do Rio em busca do ensinamento de velhos jogadores de capoeira. Também falou dos seus treinamentos de capoeira carioca na academia do mestre Sinhozinho de Ipanema e de como treinava sozinho debaixo do seu bloco em Brasília quando se mudou para cá.&lt;br /&gt;No campo das idéias, ele é um entusiasta do pensamento de Gilberto Freyre e Darcy Ribeiro, muito ufanista a respeito da mistura de raças do Brasil. Daí essa idéia de que a capoeira teria nascido nos quilombos míticos onde negros, índios e brancos pobres teriam se reunido.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Cláudio Queiroz idealiza muito os quilombos rurais brasileiros e a escravidão urbana: há algum tempo, se sabe que, nas maiores cidades do país, os escravos  que conseguiam comprar sua alforria adquiriam outros escravos para si. A ideologia da escravidão acabou sendo, em determinado grau, introjetada pelos cativos -- afinal de contas, era o sistema em que viviam e no qual tinham de sobreviver. Nem sempre procuravam o conflito com o escravismo, freqüentemente negociavam dentro do sistema.&lt;br /&gt;Os registros de que dispomos sobre a história da capoeira dão conta de que ela era um fenômeno urbano. Nos seus primeiros registros, estudados por Líbano Soares em "A capoeira escrava", a brincadeira aparece associada aos escravos africanos (não nascidos no Brasil) da cidade do Rio de Janeiro na primeira década do século XIX. Em Salvador, como nos informa Matias Assunção, seus primeiros registros são década de 50 do mesmo século. O que sabemos, por enquanto, é que a capoeira tem suas origens nas áreas urbanas das cidades brasileiras na primeira metade do século XIX, sendo praticada por escravos(africanos, em sua maioria, mas brasileiros também).&lt;br /&gt;O pesquisador Frede Abreu, conhecido do mestre, relativizou um pouco esses achados documentais no seu último livro, escrevendo, e com razão, que as cidades brasileiras do período colonial não eram tão urbanas assim. Havia fazendas ao redor de Salvador e do Rio de Janeiro, -- que, na época, não possuíam muito mais de 100 mil habitantes -- e havia terrenos devolutos na área urbana, as famosas capoeiras. Havia também os quilombos urbanos em ambas as cidades, locais situados dentro das cidades para onde os escravos fugiam temporariamente para festejar, fazer seus cultos, dançar, e, (quem sabe?) jogar capoeira. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Aliás, há muitas menções de viajantes ao jogo de capoeira nos terrenos devolutos de ambas as cidades, eles deviam se situar perto de quiombos urbanos. Existem ainda documentos que dão conta da prisão de escravos por capoeira em tabernas e casas de angu no Rio de janeiro do início do século XIX, esses locais, além dos quilombos, eram importantes marcos de socialização escrava, fazendo parte da "Cidade Negra", mencionada pelo historiadores.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Lembro-me de colegas estudiosos e ativistas do movimento negro terem me dito que não existem registros de capoeira nos quilombos rurais, nem nos do passado e nem nos do presente.&lt;br /&gt;Assim, capoeira, mato e quilombo não estariam tão separados, mas a associação entre os três é mais sutil do que tenta fazer crer o mito das três raças formadoras da capoeira e da nacionalidade brasileira.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;Moreno &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20990548-114260501758543637?l=morenocapoeira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/feeds/114260501758543637/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20990548&amp;postID=114260501758543637&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/114260501758543637'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/114260501758543637'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/2006/03/uma-crtica-ao-mito-da-capoeira.html' title='Uma crítica ao mito da &quot;capoeira quilombola&quot;'/><author><name>Moreno capoeira</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20990548.post-113991793224089650</id><published>2006-02-14T08:48:00.000-03:00</published><updated>2006-02-14T09:02:52.196-03:00</updated><title type='text'>O "axé" da capoeira regional:mestre Nenel em Palmas</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Caros colegas, respondendo a uma provocação do Mestre para que começássemos a lista escrevendo algo que marcou as nossas vidas na capoeira, envio esse texto sobre a experiência marcante que tive ao assistir a oficina de Mestre Nenel em Palmas/TO.&lt;br /&gt;Um dos assuntos tratados no nosso último encontro -- e que sempre aparece neles -- é a relação entre capoeira e as religiões afro. Pois bem, não entendo nada de umbanda ou candomblé, mas posso descrever essa experiência que tive ao ouvir tocar o berimbau do filho do Mestre Bimba. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Hoje em dia, os toques da capoeira regional que escutamos nas rodas são uma espécie de estilização dos toques originais, não utilizam os repiques do mestre e deixam de aproveitar uma espécie de "sujeira" sonora, uma aspereza de som que o mestre obtinha utilizando-se muito da pedra semi-presa nos repiques e da entonação diferente da resposta do coro na roda. Uma aura de africanidade se perde ao abandonarmos esse estilo de toque e de canto. O resultado é que o clima da roda se transforma. A aura de sagrado é um pouco diluída.&lt;br /&gt;Pois bem, senti uma emoção muito forte ao ouvir mestre nenel demonstrar os toques da capoeira regional, e não foi só por ele ser filho do Mestre Bimba, mas foi por ele ter recuperado uma sonoridade específica, que evoca a tradição mais longínqua da capoeira. Como escrevi em um texto para o pessoal do meu outro grupo, eu me senti um elo bem frágil numa corrente infinita que é a capoeira. Frente à fragmentação de estilos e às divergências entre grupos, o berimbau de Nenel fez manifestar a ancestralidade afro da capoeira.&lt;br /&gt;Fiquei pensando, depois de ter essa experiência se é isso que o povo de santo chama de "axé", uma força ancestral que dá vitalidade ao ritual que se realiza no presente e que o projeta para o futuro. Acho que vou perguntar para algum amigo que entenda da coisa.&lt;br /&gt;Não sei se é isso, dado o meu parcos conhecimentos. Os filósofos ocidentais chamariam isso que tive de uma experiência da angústia existencialista. Porém não se sabe se isso aí existe também. Será que são a mesma coisa?&lt;br /&gt;Bom, é isso aí. Espero que vocês também compartilhem comigo algumas de suas experiências mais significativas de capoeira.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;Moreno &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20990548-113991793224089650?l=morenocapoeira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/feeds/113991793224089650/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20990548&amp;postID=113991793224089650&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/113991793224089650'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20990548/posts/default/113991793224089650'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://morenocapoeira.blogspot.com/2006/02/o-ax-da-capoeira-regionalmestre-nenel.html' title='O &quot;axé&quot; da capoeira regional:mestre Nenel em Palmas'/><author><name>Moreno capoeira</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry></feed>
