sexta-feira, março 17, 2006

Uma crítica ao mito da "capoeira quilombola"

Quanto ao Cláudio Queiroz, ele é uma figura importante no meio da capoeira de Brasília. Foi um dos fundadores do Grupo Senzala nos anos 60, que ajudou a espalhar a capoeira pelo Brasil e criou um novo método de ensino da brincadeira. Já assisti a palestras em que ele relatava que, quando jovem, subia os morros do Rio em busca do ensinamento de velhos jogadores de capoeira. Também falou dos seus treinamentos de capoeira carioca na academia do mestre Sinhozinho de Ipanema e de como treinava sozinho debaixo do seu bloco em Brasília quando se mudou para cá.
No campo das idéias, ele é um entusiasta do pensamento de Gilberto Freyre e Darcy Ribeiro, muito ufanista a respeito da mistura de raças do Brasil. Daí essa idéia de que a capoeira teria nascido nos quilombos míticos onde negros, índios e brancos pobres teriam se reunido.
Cláudio Queiroz idealiza muito os quilombos rurais brasileiros e a escravidão urbana: há algum tempo, se sabe que, nas maiores cidades do país, os escravos que conseguiam comprar sua alforria adquiriam outros escravos para si. A ideologia da escravidão acabou sendo, em determinado grau, introjetada pelos cativos -- afinal de contas, era o sistema em que viviam e no qual tinham de sobreviver. Nem sempre procuravam o conflito com o escravismo, freqüentemente negociavam dentro do sistema.
Os registros de que dispomos sobre a história da capoeira dão conta de que ela era um fenômeno urbano. Nos seus primeiros registros, estudados por Líbano Soares em "A capoeira escrava", a brincadeira aparece associada aos escravos africanos (não nascidos no Brasil) da cidade do Rio de Janeiro na primeira década do século XIX. Em Salvador, como nos informa Matias Assunção, seus primeiros registros são década de 50 do mesmo século. O que sabemos, por enquanto, é que a capoeira tem suas origens nas áreas urbanas das cidades brasileiras na primeira metade do século XIX, sendo praticada por escravos(africanos, em sua maioria, mas brasileiros também).
O pesquisador Frede Abreu, conhecido do mestre, relativizou um pouco esses achados documentais no seu último livro, escrevendo, e com razão, que as cidades brasileiras do período colonial não eram tão urbanas assim. Havia fazendas ao redor de Salvador e do Rio de Janeiro, -- que, na época, não possuíam muito mais de 100 mil habitantes -- e havia terrenos devolutos na área urbana, as famosas capoeiras. Havia também os quilombos urbanos em ambas as cidades, locais situados dentro das cidades para onde os escravos fugiam temporariamente para festejar, fazer seus cultos, dançar, e, (quem sabe?) jogar capoeira.
Aliás, há muitas menções de viajantes ao jogo de capoeira nos terrenos devolutos de ambas as cidades, eles deviam se situar perto de quiombos urbanos. Existem ainda documentos que dão conta da prisão de escravos por capoeira em tabernas e casas de angu no Rio de janeiro do início do século XIX, esses locais, além dos quilombos, eram importantes marcos de socialização escrava, fazendo parte da "Cidade Negra", mencionada pelo historiadores.
Lembro-me de colegas estudiosos e ativistas do movimento negro terem me dito que não existem registros de capoeira nos quilombos rurais, nem nos do passado e nem nos do presente.
Assim, capoeira, mato e quilombo não estariam tão separados, mas a associação entre os três é mais sutil do que tenta fazer crer o mito das três raças formadoras da capoeira e da nacionalidade brasileira.
Moreno

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