quarta-feira, janeiro 02, 2008

"Mi Buenos Aires querido"

Camaradas, antes de mais nada desejo a todos um Feliz 2008. Que esse ano seja cheio de realizações para todos nós tanto dentro como fora da roda de capoeira.
Apesar de estarmos em um novo ano, a crônica de hoje se refere a um acontecimento de 2007. Um amigo meu foi a Buenos Aires no começo de dezembro e voltou maravilhado com o tango, que viu ser dançado nas calçadas de la calle Florida no centro da cidade. No primeiro encontro que tivemos logo depois da viagem, ele me disse:"Minha alma portenha foi tocada pelo ritmo do tango". Essas palavras ficaram encasquetadas na minha cabeça: ora, que eu saiba, o cidadão nasceu em Brasília, filho de mãe piauiense e pai goiano, sem nenhum antepassado que tenha vivido nos arredores do Rio da Prata. Como pode, então, ter uma alma buenairense?
Só depois fui entender o raciocínio de meu camarada: a alma não tem que ver com a herança genética ou o lugar onde a pessoa nasce. Segundo a lógica dele, todos nós podemos possuir "almas" de diferentes tipos: portenhas, afro-brasileiras ou orientais.
Levando um pouco mais adiante esse raciocínio, é possível dizer que tais almas podem nascer e se desenvolver a partir das atividades corporais de uma pessoa: já escrevi nessa coluna que vários estudiosos descrevem a capoeira como um jeito brasileiro (ou afro-brasileiro) de estar no mundo. Da mesma forma, o próprio tango pode ser considerado como um produto e um produtor de uma "alma" portenha -- e até mesmo afro-portenha, pois os seus passos foram criados pelos compadritos de origem africana (os malandros platinos), muito numerosos na região do porto em meados do século 19.
É claro, talvez eu esteja sendo um pouco simplista, já que tanto a capoeira como o tango já estão inseridos na cultura popular global e já são vendidos como mercadoria há muito tempo. Sabemos que no mundo de hoje, até as almas estão à venda. Mas se não fosse assim, como poderíamos entrar em contato com elas?
É claro que essa concepção de capoeira como uma característica de uma alma brasileira não é partilhada por todos os mestres de capoeira; e por motivos tão compreensíveis quanto legítimos. Tal visão pode descambar para um enfoque quase religioso ou místico do ensino da brincadeira, que pode redundar em fanatismo; ou ainda, pode se transformar num argumento que defenda a reserva de mercado do ensino da capoeira no exterior só para brasileiros. Parece que uma espécie de laicização vem sendo defendida por professores que privilegiam o aspecto esportivo do brinquedo, e com muita propriedade.
Isso nos leva a pensar que até a capoeira possui várias "almas": mais esportivas ou artísticas, africanas ou brasileiras, globalizadas ou locais dependendo do enfoque seguido por cada mestre ou grupo.

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