terça-feira, outubro 09, 2007

Um pouco mais sobre a Regional e sobre o mestre Pombo

A seguinte postagem é a primeira versão de uma mensagem que eu mandei para o Cego, lá do Tocantins. Por alguma razão, publiquei uma versão menos pessoal; porém, dando uma relida, vi que ficou muito boa e que eu não poderia deixar de colocá-la no blog.

Fala Cego, tudo bem? Por aqui estamos um pouco tristes, pois ficamos sabendo que o mestre vai se mudar de Brasília dentro em pouco, indo para o Recife. Apesar disso, parece que continuaremos a existir como grupo.

Interessante a questão que você levantou: será que as seqüências da Regional ainda são válidas para o ensinamento da capoeira? Não creio que eu esteja preparado para dar uma opinião definitiva nessa questão. (E talvez, nem tão racional e objetiva, como você verá.) Até porque, como você mesmo escreveu, aprendia-se e ensinava-se capoeira muito antes da existência do mestre Bimba. Ele próprio disse que aprendeu "de oitiva", ou seja, imitando o que os mais experientes faziam na roda.

Porém, ele também disse que teve um mestre africano que o ensinou. Como seria o método de Bentinho? Existem crônicas de capoeiristas cariocas de fins do século XIX que dão conta de que as maltas possuíam locais em que realizavam treinamentos. Em Salvador, o mestre Canjiquinha disse que seu mestre começou a ensiná-lo a jogar ... jogando. Ele falava para o menino: "Abaixa aí que lá vai o pé!", e soltava a meia-lua. Outro mestre famoso disse que aprendeu vendo.

Talvez as seqüências da Regional tenham servido para, entre outras coisas, fazer com que as camadas médias da sociedade baiana se familiarizassem com os gestos e movimentos da vadiação, desconhecidos para eles. Grande parte foi educada em outra cultura corporal, que devia ser mais influenciada pelos gestos europeus. Lembro que Marcel Mauss, um antropólogo importante do começo do século XX, intuiu essa ligação entre a sociedade, cultura e o jeito de se movimentar quando percebeu que não conseguia ficar de cócoras como os nativos neozelandeses, pois em seu país de origem tal posição era repreendida nas pessoas adultas.

Será que algo assim acontecia nas classes médias das cidades brasileiras dos anos 30?

É claro que, depois de algum tempo de treinamento, a utilidade da seqüência parece ser outra, deslocando-se para os aspectos técnicos do jogo: complementaridade, tempo de golpe, técnicas de execução, golpes contra e a favor... e por aí vai.

Além disso, o treino parecia não ser apenas formado pelas seqüências, havendo algo a mais por trás delas: os princípios tradicionais do "olhar também aprende" e do aprender fazendo ainda eram utilizados. Parece que a preocupação do mestre Bimba com a escolha das duplas era um sinal de que ele levava outras coisas em consideração que não apenas os aspectos técnicos de cada aluno. Parece que as "parábolas" do mestre também faziam parte de uma pedagogia tradicional do africano.

E mais, será que o mestre dava conselhos técnicos aos seu discípulos durante o jogo? Aqui, o mestre Pombo faz isso com a gente e eu acho este um grande diferencial, além do carinho e da consideração do aluno como um todo.

Nos anos 60, o grupo Senzala criou um novo método de treinamento baseado no isolamento e na repetição de cada golpe fora do contexto da roda. Cresce a ênfase na estética da ginástica olímpica (movimentos esticados), na velocidade e na força. Como nota Alejandro Frigério, perdeu-se um pouco a noção da complementaridade -- do jogo "com" e não "contra" -- e da malícia. A pedagogia tradicional é abandonada, pois os garotões porradeiros de classe média de Ipanema simplesmente não tinham condições de adotá-la, ainda que tivessem toda a boa vontade do mundo (e tinham!).

Porém, sabemos que as repetições também eram utilizadas pelo mestre. O treinamento dos golpes em frente a uma cadeira fazia parte do ensinamento aos alunos novatos, como escreve o mestre Itapoã. As próprias seqüências são movimentos isolados realizados fora da roda.

O que eu penso é que, mais importante que tudo isso -- as seqüências, a cadeira, os balões, o esquenta banho -- era o clima que envolvia e articulava todos esses momentos, criado num contexto específico por um indivíduo carismático e muito envolvido na cultura da afro da vadiação baiana. Daí a regional ser virtualmente irrepetível.

Dou o exemplo do que acontecia conosco aqui nos trienos com o mestre Pombo.

Antes de aprender as seqüências com o mestre Pombo, eu já jogava capoeira. Sempre ouvia falar em mestre Bimba e seu método de ensino que abriu as portas para a difusão da vadiação pelo Brasil e pelo mundo. Só que, em todos os grupos por que passei, nenhum ensinava as seqüências; ou quando ensinava era muito apressado, modificado e sem muita explicação do motivo de cada movimento. Assim, o ensino das seqüências pelo mestre Pombo respondeu a uma curiosidade de historiador que eu tinha sobre o desenvolvimento da metodologia da brincadeira trazido pelo mestre Bimba.

Mas não foi só isso. Me lembro da primeira aula com o mestre Pombo e na insistência com que ele me pedia para fazer aú com rolê, um movimento básico que eu já sabia. Aí ele foi dar uma cabeçada no meu aú e me mostrou para que servia aquele movimento que eu tinha treinado de forma tão mecânica durante anos e em alguns grupos diferentes. Foi algo novo para mim. Nunca ninguém tinha se preocupado em mostrar para que serviam alguns movimentos básicos.

Depois percebi que ele enfatizava o aú com rolê porque era o movimento que fecha todas as seqüências. Notei, então, que havia um sentido e um porquê em cada insistência do mestre. Que eu não treinava "solto", que cada aula era um degrauzinho que eu subia a mais num plano de curso já bem sistematizado. Para mim, isso foi fundamental. Foi aí que o mestre me conquistou.

Estava acostumado a um sistema de treinamento no qual uma aula não tinha rigorosamente nada a ver com aquela que a antecedera. Um método de treino fragmentado que não deixa o aluno perceber um sentido para seu aprendizado e a sua própria evolução, pois toda a aula é solta.

Senti-me amparado em todos os momentos das aulas, mesmo naqueles em que não conseguia fazer os movimentos, porque parecia haver a mão invisível do mestre indicando um sentido. Parece até que ela me seguraria depois de cada queda de uma tentativa de bananeira...

É claro que meu entusiasmo pode ter a ver com características pessoais muito minhas -- certa carência de afeto paternal, por que não dizer? Mas quem foi que disse que o carinho não pode estar presente numa metodologia de ensino?

Além disso, o mestre tinha uma visão bem realista do meio capoeirístico: repleto de disputas de poder, onde cada declaração de cada mestre tinha um fundo político cujo objetivo era marcar posição e, se possível, aumentar sua influência. É claro que ele mesmo não está excluído nessa dinâmica, mas a visão de capoeira que eu tinha anteriormente era muito simpilsta: meu grupo era o melhor porque não praticava a violência; angola e regional eram apenas estilos de jogo e não escolas diferentes, sendo possível até que os dois estilos fossem ensinados pelo mesmo grupo.

O mais legal é que ele me mostrou isso nem sempre de forma direta de conversas,mas também pelos livros que me indicava e por visitas a outros grupos. (O que me marcou mais foi a ida ao grupo de angola do Baiano na UnB).

O interessante de saber do maquiavelismo por trás da vadiação não é fazer fofoca, mas saber em qual terreno se está andando, ter consciência da própria posição nesse mundo de cobras criadas, ter uma identidade.

O que eu quis dizer com tudo isso é que, de repente, importam as seqüências e tudo o mais. Mas elas são como que a ponta do iceberg. O mais importante pode estar num nível mais profundo.

Um abraço camarada.

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