quarta-feira, março 11, 2009

Capoeira: esporte pós-moderno?

Lembro de ter visto há alguns anos um documentário no History Channel sobre alguns ritos de passagem em sociedades tradicionais que ainda sobrevivem, acho que na Polinésia. Achei interessantíssimo que uma das cerimônias mostradas era uma espécie de bungee jump tradicional. Era um ritual restrito aos homens da tribo: cada um deles trançava os cipós que amarrariam em seus pés para segurar a queda e pulavam de plataformas também feitas por eles ao que parece segundo sua idade e status no grupo -- quanto maior a altura da plataforma de que se pulava, maior o status do homem. Para serem considerados homens adultos, os meninos do grupo tinham que passar pela prova, saltando de alturas menores ou maiores de acordo com suas idades.

O que me deixa entusiasmado é que o bungee jump é identificado hoje em dia como um esporte pós-moderno, no sentido de que o mais importante em sua prática não é tanto a competição e a medição da performance mas a sensação de bem-estar ou de vertigem causada pelo momento de queda livre, pelas acrobacias realizadas no elástico e pelo movimento de ioiô experimentado pelo seu praticante. Como aconteceu com outros esportes originados de festas ou rituais de sociedades tradicionais, parece que a incorporação do "bungee jump" pelas sociedades modernas na forma de "esporte radical" lhe deu outro significado.

Outros esportes com as mesmas características do bungee jump estão crescendo em popularidade em todo o mundo como o skate ou o le parkour. Existe também aquele tipo de para-quedismo em que a pessoa salta de prédios em cidades grandes aproveitando ao máximo a fase da queda livre -- inclusive utilizando trajes especiais para controlá-la e aumentar a sua duração. Vi no Esporte Espetacular um dia desses um cara que quase se arrebentou no Cristo Redentor.

A expansão da capoeira não estaria também ligada a essa tendência? Como já escrevi numa outra postagem, a vertigem faz parte da natureza mesma da capoeira: autores como Dr. Decânio falam do transe capoeirano favorecido pela música; além disso, as inversões -- potenciais causadoras de perda de consciência -- estão presentes em quase todos os movimentos da brincadeira: a frente pelas costas na armada, na queixada e na meia-lua de compasso; o alto pelo baixo no aú, na bananeira e no macaco, por exemplo. E mais, na capoeira a quantificação dos resultados, apesar de já ter sido e ainda estar sendo feita em competições, é muito difícil e para grande parte dos seus praticantes, acaba por tornar o jogo mais unidimensional e pasteurizado.

O crescimento da capoeira angola a partir dos anos 80 e a resposta de grupos multinacionais com a criação de estilos como o miudinho e a benguela não podem ser interpretados como uma reação à quantificação da vadiação e à sua esportivização? Não seriam tentativas de uma interpretação pós-moderna de uma atividade corporal popular? Uma sensação irracional de bem-estar e de abandono através da música e da realização de movimentos estranhos ao dia-a-dia, além da sensação de pertencimento a um grupo e a uma história ancestral num mundo em que tudo o que é sólido desmancha no ar podem muito bem estar por trás do crescimento do brinquedo pelo mundo. A vantagem é que pelo menos não corremos o risco do para-quedas não abrir.

Um abraço a todos


Ps.: Um exemplo da aversão à competição e à quantificação por parte de um esporte pós-moderno, no caso o parkour, pode ser visto no seguinte endereço:
http://www.leparkourbrasil.com.br/base.php?pag=artigos&cod=221

1 Comments:

Blogger Moreno capoeira said...

Lembrar que o fato de a capoeira estar sendo reinterpretada nesse momento como um "esporte da vertigem" não impede que ela esteja inserida na lógica da mercadorização dos bens culturais. Tanto angola quanto miudinho e benguela podem ser consideradas "marcas" registradas de determinados grupos de capoeira. Matias Assunção, por exemplo, escreveu que o hedonismo que está por dentro da expansão da capoeira pela Europa é o novo modo de vida do capitalismo tardio.

4:14 PM  

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