segunda-feira, julho 23, 2012

Mestre Bimba e mestre Cabecinha: uma pré-história da capoeira regional?

Camaradas, há algumas semanas venho escutando o programa de rádio Barracão da Cultura, transmitido pela Cultura FM 100,9 aqui de Brasília todos os sábados de 10h a meio dia, apresentado pelo Miojo, com o apoio do Cadete. Aliás, recomendo fortemente o programa aos capoeiristas da nossa cidade.
Pois bem, há dois sábados -- e justamente no dia da entrevista do mestre Pombo de Ouro -- o programa colocou no ar uma gravação de mestre Bimba datada de 1940 de cuja existência eu já tinha ouvido falar mas que nunca tinha escutado: nela, o mestre canta as cantigas da capoeira regional acompanhado por um berimbau que soa como se tocasse São Bento Grande de Angola (que a partir desse ponto do texto passa a ser substituído pela abreviatura SBA). Foi o camarada Cego lá de Palmas/TO que me indicou o link para o blog que possibilita baixar o disco inteiro. É este aqui: http://voltanomundocapoeira.blogspot.com.br/2009/07/mestre-cabecinha-e-mestre-bimba-1940.html. Nesse blog, ficamos sabendo que dois grandes pesquisadores estadunidenses estudiosos das culturas afro-americanas passaram por Salvador entre 1940 e 1941 e fizeram gravações com os mestres Bimba e Cabecinha.
Nessas gravações, mestre Bimba canta várias quadras e corridos com a entonação e o ritmo que já conhecemos do disco "Curso de Capoeira Regional" -- mas com uma diferença: o toque do berimbau não é o da regional, mas algo que soa muito próximo ao SBA. É para esse fato que eu gostaria de chamar atenção nessa postagem e a partir dele apresentar a seguinte hipótese: a criação do toque de São Bento Grande da Regional (a partir daqui SBR) é um processo que ainda não estaria completo no começo dos anos 1940. Além disso, arrisco afirmar que esse processo teria como ponto de partida a adaptação do SBA ao ritmo e ao estilo das quadras e corridos tal como eram cantados por mestre Bimba.
Camaradas, à primeira vista, o berimbau da gravação parece tocar um SBA aceleradíssimo. Porém, se vocês escutarem atentamente vão perceber que, em 1940, mestre Bimba tende a transformar as duas semi-presas do SBA (tch tch dim dom dom) em uma só (tch dim dom dom) -- "comendo" um pequeno intervalo de tempo do toque. E isso não acontece só porque cantasse mais rápido, mas principalmente por querer criar uma atmosfera mais belicosa nas rodas que mestrava. De fato, a supressão de um toque chiado ajusta o SBA à entonação e ao tempo da voz de Manoel dos Reis Machado, bem como ao pandeiro que a acompanha, criando uma "quebrada" no ritmo -- ausente no SBA -- resultando em um toque mais seco que evoca um jogo mais duro.
Ao mesmo tempo, essa variação do toque valoriza o chiado que o arame faz quando dele aproximamos a pedra, apresentando-se aqui uma característica do berimbau da capoeira regional: a valorização da semi-presa e do chiado emitido pela aproximação da pedra ao arame folgado do berimbau grave. Assim, o que se escuta nessa gravação é uma espécie de proto-SBR. A minha hipótese é a de que mestre Bimba desenvolve seu toque mais característico a partir dessa inadequação do SBA ao seu estilo de canto.
Ou seja, podemos afirmar que a capoeira regional ainda estava em processo de construção nos anos 40 do século XX, pois uma de suas principais características -- os toques de berimbau -- ainda não tinha sido formatada pelo seu criador. Na verdade, talvez seja possível dizer que o próprio toque SBA não tivesse ainda adqurido uma forma fechada, possibilitando a sua interpretação por mestre Bimba.
Outra observação importante pode ser feita a partir das gravações: o formato e a entonação das cantigas e mesmo os toques de berimbau de mestre Cabecinha são muito semelhantes aos de mestre Bimba. Segundo a apresentação feita no início de cada gravação, ficamos sabendo que o grupo de mestre Cabecinha chamava-se "Esperança Angola", o que o coloca na categoria "angoleiro"-- que, na época, abarcava todos os mestres que não tinham aderido à cademia de mestre Bimba. Mas não custa nada perguntar das relações entre os dois: teriam desenvolvido essas semelhanças por acaso? ou mestravam alguma roda juntos? foram alunos do mítico e lendário Bentinho?
Sobre esse assunto, ficamos apenas no campo da especulação, mas gosto de levantar essas dúvidas para combater a idéia de que mestre Bimba teria criado a capoeira regional a partir de uma idéia genial que lhe teria vindo pronta e acabada e de que, portanto, ela não teria uma história. Essa concepção da completude da Regional serve muito às disputas por espaço e prestígio no campo da capoeira, mas prejudica o entendimento do fenômeno humano que compreende a sua sistematização.
Um abraço a todos,

Adriano "Moreno"

1 Comments:

Anonymous Daniel Mioju said...

Adriano, muito obrigado pela referência. Fico muito feliz de ter "apresentado" esse registro fonográfico para você. Mestre Bimba foi um gênio, e como todo gênio, foi um homem de seu tempo, que soube - como só os gênios sabem - receber a influência de seu meio e fazer disso uma herança da grandeza que é a Regional. Sua reflexão é muito interessante. O processo de concepção e sistematização da Regional não é o tipo de coisa sobre a qual se pára pra pensar. Ela parece mesmo nascer de uma ideia iluminada. Imagino que isso aconteça com outras manifestações culturais ou linhas da própria capoeira. Sua conclusão é cabal. Parabéns, camarada!

1:28 PM  

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