quarta-feira, março 05, 2014

Sobre o carnaval na Sapucaí em 2014



Lendo algumas resenhas sobre o carnaval das escolas do grupo especial do RJ, percebo que os autores adotam o ponto de vista dos jurados dos desfiles na avaliação de cada agremiação. Sendo assim, não posso deixar de dar a minha opinião, formada a partir do ponto de vista de um folião presente nas arquibancadas e com uma determinada concepção do que deveria ser um desfile de escola de samba. Para a pessoa que está vendo o desfile nessa condição, não conta muito se existe um grande espaço entre as alas devido à lentidão de um carro alegórico cujo motor está defeituoso ou a falha nas luzes de um carro alegórico. O espectador-folião percebe tais detalhes de uma forma mais difusa, através de sua influência no conjunto do desfile.
Segundo essa perspectiva, o principal defeito da Mangueira não foi a quebra da cabeça do seu lindíssimo carro alegórico, mas o fato de o samba não ter funcionado na avenida: a festança brasileira não empolgou, a escola passou linda mas sem vibração e a batida do surdo que caracteriza a escola -- se os deuses da folia me permitirem essa comparação tão desfavorável contra a mitológica agremiação -- ficou mais para cortejo fúnebre do que para carnavalesco. Foi uma grande pena, não sei se isso tem a ver com a forma como o puxador escolheu para levar o samba ou com a atuação do imponderável na transposição do hino do estúdio e do ensaio para a avenida.
Mas nem tudo foi negativo no desfile da Estação Primeira. Sua comissão de frente estava perfeita e nos desfiles do primeiro dia, apenas a do Salgueiro foi capaz de se equiparar com ela. As funções de apresentação da escola e do enredo de forma simples e eficiente foram muito bem cumpridas. E tudo isso sem apelar para os efeitos especiais. A importância disso não pode ser diminuída, dado que em muitas escolas – como na Grande Rio e sua bala de canhão humana – os efeitos acabam por ofuscar o papel daquela parte da agremiação. A comissão mangueirense encenava o contato dos índios com os portugueses e a gestação das festas populares brasileiras dentro de uma oca – que, no fim das contas, representava o próprio Brasil. Quando a oca se abria, saíam de lá as festas de boi, o forró, a parada gay e as festas barrocas da Bahia e de Ouro Preto.
Além daquela da Grande Rio, outra comissão de frente que utilizou efeitos especiais foi a da Beija-Flor, porém de uma forma mais refinada que sua coirmã de Duque de Caxias. Trazia uma visão de conjunto sobre o enredo e apresentava a escola, porém não era tão simples e eficiente quanto as da Mangueira e do Salgueiro. Talvez devido às particularidades de seu tema. Selminha Sorriso e Claudinho, seu premiadíssimo casal de Mestre-Sala e Porta-Bandeira, vinham bailando num cenário que simulava estúdio de tv; em torno deles voavam beija-flores. Atrás desse estúdio, havia um tabuleiro de xadrez -- que talvez evocasse o jogo cerebral que é a tônica dos bastidores da televisão e da própria competição pela audiência, que – convenhamos -- é o negócio do homenageado da escola, o Boni. Foi uma comissão de frente heterodoxa, criativa, porém menos telúrica que as da Mangueira e do Salgueiro.
Aliás, o adjetivo “telúrica”  serve bem para expressar qual deve ser, na minha opinião, uma das qualidades principais de uma comissão de frente e de uma escola de samba em geral: não confio em comissões que se abusam de carros alegóricos e dos efeitos especiais. Perde-se de vista a relação da escola com o “samba no pé” e a batucada, princípios que deram origem aos GRES. É por isso que prefiro uma comissão que venha com os pés no chão e que use somente um tripé de apoio para sua evolução.
Continuo a abordar o desfile da Beija-Flor e devo confessar de antemão que não gostei do enredo da escola nilopolitana. Deu-me a impressão de ser uma armação para ganhar carnaval, fazendo uma homenagem indireta à Rede Globo, maior estação de tv do país, patrocinadora e transmissora dos desfiles cariocas. A azul e branco da Baixada já havia se utilizado da mesma tática ao escolher Roberto Carlos em 2011, só que, naquele ano, o homenageado tinha mais substância cultural e tocava mais o público do que um diretor de tv, que, se teve muita importância na história da televisão, nunca foi populaer e sempre esteve muito associado aos bastidores da organização da Rede Globo e às batalhas na disputa pelo Ibope, mundos não muito afetos ao lirismo que dá o tom nos sambas que homenageiam personalidades culturais.
Acho que a própia Beija-Flor percebeu isso e acabou escolhendo uma espécie de enredo duplo: ao cantar a história dos meios de comunicação junto com a biografia do Boni, a escola buscou dar estofo ao seu desfile. Assim, o que aconteceu na avenida foi o atropelamento do tema biográfico -- e árido em termos carnavalescos -- pelo outro, histórico e muito mais fértil. A escola veio bonita, luxuosa e monumental como se exige hoje das agremiações do grupo especial, tinha uma boa levada do samba – graças ao seu quase mitológico puxador -- e boa bateria, mas tudo isso foi prejudicado pelos problemas do enredo escolhido.
É claro que não posso deixar de escrever sobre o Salgueiro, a melhor escola do primeiro dia. O samba de escola pegou nas arquibancadas, grande parte do público já sabia de cor a sua letra ou acabou aprendendo ali na hora mesmo, contagiada pela empolgação da platéia e da escola, pela beleza das fantasias e dos carros alegórico se pelo bom desenvolvimento do enredo.
O enredo foi muito bem apresentado: todos os seus momentos muito bem desenvolvidos e caracterizados por cores, alegorias e subtemas muito bem matizados. A comissão de frente veio telúrica e, ao mesmo tempo, aérea. Com os pés no chão apresentado os orixás citados no samba e levitante, invocando o tema de uma nova relação dos seres humanos com a natureza por meio da mulher que flutuava no tripé de apoio. A ligação das religiões afro-brasileiras com as do Extremo Oriente não é uma novidade nem no mundo do samba nem no mundo cultural brasileiro, mas relacionar os orixás e as forças da natureza por eles representadas à preservação do meio ambiente é algo mais criativo.
Dito isso, confesso que o desfile salgueirense não chegou a me empolgar como aquele da Portela em 2011 – para mim, a epítome do telúrico, já que suas fantasias eram fracas mas a vontade de mostrar dignidade depois do incêndio do barracão fez com que a escola pegasse fogo na Sapucaí. Talvez o Salgueiro não tenha me levado a um delírio extático por seu samba ser “de pegada” e com pouco lirismo. Ou talvez pelo próprio peso de suas lindas fantasias. Sei que o luxo tornou-se exigência para um desfile campeão no grupo de acesso há pelo menos  40 anos, mas em toda evolução perde-se alguma qualidade do estado de coisas anterior: as “super-alegorias” das “super-escolas de samba S.A.” realmente tendem a ofuscar o samba no pé. A maior organização e profissionalização dos GRES acaba por exemplo, transformando os passistas em meros preenchedores do espaço deixado pela bateria quando do seu recuo. Uma pena, pois o público acaba não apreciando a arte desses bailarinos populares e os passistas não têm espaço para executar seus passos barrocos e cativar a platéia com seus acenos e expressões corporais.
Uma pequena menção às escolas pequenas: por culpa da Gol, não cheguei a tempo de ver o “Batuk” do Império da Tijuca, que tinha um samba com a pegada tão forte quanto a do Salgueiro. Sabia que a desvantagem econômica contaria muito contra ela, mas gostaria de ver se o samba no pé compensaria de alguma forma a falta de luxo das fantasias. A São Clemente me impressionou. Seu samba tinha qualidade poética e melódica, era leve, simpático e “pra cima”. E tudo isso ficou mais ressaltado ainda no desfile. O enredo também foi muito bem desenvolvido.

1 Comments:

Blogger Moreno capoeira said...

Será possível que a Beija Flor tenha jogado às feras seu casal de MS e PB para fazer funcionar essa comissão de frente? Selminha Sorriso e Claudinho teriam sido sacrificados em nome do enredo da Beija-Flor? Foi o que aconteceu, pois o premiado casal ganhou notas baixíssimas dos jurados.

5:04 PM  

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