segunda-feira, abril 03, 2006

Aula de mandinga IV

É necessário frisar que as aulas do mestre Pombo têm um princípio, um meio e um fim que ficam bem definidos para o aprendiz. Depois da roda, que sempre acontece em todos os treinos, o mestre conversa com os alunos comentando a aula e dando conselhos sobre a mesma, fazendo um fechamento do encontro. O mestre fala também sobre projetos extra-classe ( assunto que será abordado em outro texto).
Essa espécie de "chave de ouro" do treino é importante porque os alunos saem da aula com a sensação de que passaram por um processo que tinha um objetivo determinado, que não passaram uma hora do seu dia repetindo exercícios sem razão, que havia sentido no seu esforço. Parece que, para o mestre, a aula é como um ritual em cujo final o aprendiz sai transformado e tendo consciência dessa transformação.
A "chave-de-ouro" das aulas também é uma forma de minimizar a ansiedade do aluno quanto ao aprendizado. Dessa maneira, ele pode sair do treino com a consciência de que seu aprendizado segue uma direção. É necessário frisar também que, diferente dos teinos de academias-- onde cada aula é independente da aula anterior-- cada treino do mestre é ligado ao anterior. Isso também proporciona um sentido de unidade ao curso de capoeira do mestre Pombo.
Ao final da aula também é permitido aos alunos falar sobre como se sentiram durante a mesma. Esse direito à palavra é uma raridade no meio capoerístico. Isso é um procedimento interessante até para o próprio professor, pois, ao adotar esse recurso, ele tem uma noção de como os aprendizes estão assimilando seus ensinamentos. Isso é também uma forma de saber se os seus treinos estão satisfazendo às expectativas dos alunos.
Os capoeiristas brasileiros sabem que já existe uma associação de capoeira próxima do anarquismo na França -- os Maíra -- que não os aceitam em seu grupo. Além da disputa de mercado que gerou essa postura , existe uma demanda realista dos franceses por participação dos alunos no processo de aprendizagem, ou seja, entre outras coisas, a criação desse grupo foi uma reação a mestres de capoeira brasileiros despreparados para permitir a participação dos aprendizes na direção de seu próprio aprendizado.
Esse processo de aprendizagem, para o mestre Pombo de Ouro, não se limita apenas aos movimentos da capoeira, mas também abarca atividades como leitura de livros sobre capoeira, debates sobre documentários e visitas a rodas e treinos de outros mestres. Além disso, existe a preocupação do mestre de manter os alunos informados quanto à situação burocrática de treinamento. Por exemplo, se a direção do espaço exige uniforme, os alunos é que decidem qual indumentária deve ser adotada. Os alunos têm plena noção do que está acontecendo com seu espaço de treinamento. Ou seja, são sujeitos do seu aprendizado durante as aulas e fora delas.
Não percam a próxima postagem.

5 Comments:

Blogger Moreno capoeira said...

A "chave-de-ouro" das aulas também é uma forma de minimizar a ansiedade do aluno quanto ao aprendizado. Dessa maneira, ele pode sair do treino com a consciência de que seu aprendizado segue uma direção.
É necessário frisar também que, diferente dos teinos de academias-- onde cada aula é independente da aula anterior-- cada treino do mestre é ligado ao anterior, seu foco sendo a "zona de desenvolvimento proximal" do aluno. Isso também proporciona um sentido de unidade ao curso de capoeira do mestre Pombo.

11:24 AM  
Blogger Moreno capoeira said...

Lembrar que, como escrevi no texto de abertura da série "Aula de Mandinga", não estou procurando criar "o método" de ensino para a capoeira.
Na verdade, cada vez mais percebo que estou expondo o método com que mais me identifiquei, aquele que respondeu melhor às minhas necessidades e anseios. Talvez entre eles estejam o anseio de fazer parte de um grupo em que minhas aptidões sejam valorizadas e aproveitadas ou mesmo a necessidade de saber "por que diabos sou obrigado a repetir tantos movimentos", muitos deles estereotipados e mecanizados.
Lembro das primeiras aulas que tive com o mestre Pombo quando ele falava para eu dar aú com negativa e rolê que ele ia entrar na cabeçada. Ele me explicou que a negativa e o rolê eram a esquiva da cabeçada, todos movimentos básicos das seqüências do mestre Bimba. Não eram enfeite, não eram um simples floreio, tinham uma razão de ser. E eu levei quase dez anos, treinando em três grupos diferentes para alguém me falar isso!
Apesar disso, tenho consciência de que outros métodos de ensino vêm obtendo sucesso no mundo inteiro, vide o crescimento da capoeira pelo mundo. Tais métodos respondam a outras necessidades e anseios legítimos das pessoas: saber lidar com ambientes competitivos pode ser uma delas; outra pode estar ligada à convivência com a própria sociedade moderna, de que fala Matias Assunção, o "descolamento", "the coolness" do nosso brinquedo e da vadiação pode estar ligado ao modo de vida que o capitalismo turbinado dos dias de hoje exige.

11:56 AM  
Blogger Moreno capoeira said...

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11:56 AM  
Blogger Moreno capoeira said...

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11:56 AM  
Blogger Moreno capoeira said...

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11:57 AM  

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