domingo, maio 14, 2006

Lisboa e a capoeira



Caros leitores deste modestíssimo blog, perdão pela ausência. É que me apaixonei e me separei do ser amado. Apaixonei-me por Lisboa, pelas reentrâncias d’Alfama e pelo balanço das barcas do Tejo, pelas tascas da Cidade Baixa e do Chiado, pelo sabor do licor de ginginha às seis da tarde perto do Rossio, ponto de reunião dos angolanos da cidade.

Se conheci os recônditos da cidade em Alfama, bairro antiquíssimo, travei contato com suas profundezas no Oceanário, em sua parte novíssima. Quando pensei estar íntimo, tive de ir embora. Resultado, senhores e senhoras: hoje estou na fossa. Só me resta ouvir a voz de Carlos do Carmo e me lembrar: “Lisboa, menina e moça, menina/cidade por minhas mãos despida/ teus seios são as colinas, varinas(...)/cidade-mulher da minha vida”.

Hoje me pergunto: “poderia eu ser feliz em Lisboa?”. Parece que muitas pessoas fizeram essa mesma pergunta para si mesmas e a responderam afirmativamente. Minha viagem foi para visitar um amigo que está clandestino em Portugal. Assim, pude ter contato próximo com a realidade difícil dos “brazucas” – termo pejorativo que designa os brasileiros imigrantes que vivem em Portugal. Cheguei a ficar um pouco deprimido na cidade: a paixão parecia ser doentia.

Porém, havia os momentos de alegria: as imperiais geladas e as doses de bagaceira nas tascas da Baixa-Chiado acabavam por integrar, de alguma maneira, brasileiros, portugueses, tchecos, angolanos e alemães. A cidade, afinal, seduzia vários grupos.

Aliás, o assunto para essa postagem é justamente um angolano que conheci em Lisboa. Fui a uma aula de um pequeno grupo de capoeira num local que era um misto de centro cultural, academia e restaurante. O mestre, um baiano cinquentão, não pareceu estar muito comprometido com o desenvolvimento de seus alunos portugueses. Deixou o berimbau na mão do angolano e ficou conversando com um funcionário da direção da academia. Para mim, ficou evidente que lhe faltava fundamento para mestrar uma roda. Mas não vou me ater a isso. Vou destacar dois pontos interessantes na condução de roda desse angolano.

Primeiro, em determinado momento, ele começou a cantar uma música cuja letra eu não entendia direito e num ritmo desconhecido para mim: pensei: é uma música angolana! Se o mestre vacilar, daqui sai outra coisa que não é capoeira!

O segundo aspecto é mais interessante: em outro momento da roda o cara puxou: “Vou me embora, vou me embora/Vou me embora pra Angola”, cantiga muito conhecida na voz de João Grande. Porém, quando chegou a hora, o cidadão hesitou e trocou Angola por Bahia. Pensei na hora: “o cara não quer voltar para seu país!”. Sua terra está longe daquela que foi idealizada pelos afro-brasileiros que vadiavam na Salvador do século XIX, ele não tem muitas ilusões sobre ela! Para ele era melhor viver ilegal em Portugal e no andar de cima de uma academia do que voltar para lá!

Esse acontecimento é interessante porque faz a gente pensar como é que um africano que vive a diáspora no período da globalização do século XXI vê a capoeira. Se de um lado, ele cantou uma canção luso-angolana na roda, por outro, ele se recusou, pela omissão da letra, a mitificar sua terra, como a tradição exigiria. Em dois momentos ele reinterpretou a capoeira da sua maneira.

Sabemos que os grupos de ativistas negros nos EEUU já criaram e sistematizaram uma concepção de capoeira. A brincadeira seria uma forma de atravessar o “Kalunga”, o Atlântico, a barreira que existe entre o mundo dos mortros e o mundo dos vivos, a África e a América.

Por outro lado, alguns poloneses com quem conversei, se identificam com a ética da malandragem da capoeira por que também foram dominados em toda a sua história, e para sobreviver também tinham que viver nas brechas de um sistema hostil.

Surge então a questão: de que forma a capoeira seduz angolanos, portugueses, poloneses, checos e outras gentes e como eles a interpretam? Talvez, como a minha cidade-mulher, a capoeira seduza toda a gente, por características que nem ela mesma saiba que tem tocando inocentemente finas cordas de sentimentos (como as das guitarras portuguesas) em todas elas.

Ó pá, isto é assim: acabou. Mas sigo um pouco melancólico, por ter me separado de Lisboa e por ter cada vez mais a consciência de que, como disse uma colega de capoeira: “ essa coisa (a capoeira) já não é mais só nossa (dos brasileiros)”. Tento me consolar com ajuda de Carlos do Carmo: “Se deixaste de ser minha/ não deixei de ser quem era/ por morrer uma andorinha/não se acaba a primavera.” E vou vivendo...


1 Comments:

Blogger Moreno capoeira said...

A relação do angolano com a capoeira pode ser vista também em outros aspectos: o fato de o mestre deixar o berimbau na sua mão revela que ele possui um certo status dentro daquele contexto. A capoeira, então, torna-se um meio de o imigrante angolano obter uma posição social melhor, pelo menos dentro da academia.

11:01 PM  

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