sexta-feira, agosto 14, 2009

A desprogramação da capoeira

Caros leitores, a palavra-chave da postagem de hoje é desprogramação. Há alguns anos, assisti a uma palestra do mestre Luiz Renato sobre a história da capoeira. Sua apresentação começava com aquelas imagens -- já muito conhecidas no nosso meio -- da ladja na Martinica. O mestre associava tais imagens a um passado pré-sistematização da capoeira, quando ela era tida como um contraponto popular à cultura de elite e à civilização de matriz européia que eram modelos no Brasil até o começo do século passado. A capoeira não sistematizada era "subversiva".

De fato, alguns autores chegam a defender que a vadiação era um ritual temporário de inversão das hierarquias sociais, um momento em que a cooperação entre dominados e dominadores, pobre e ricos, negros e brancos era representada como frágil, podendo ser substituída a qualquer momento pela confrontação violenta e repentina. A capoeira seria, então, um ritual que desmascarava a sociedade brasileira: se fora da roda o confronto estava escondido sob o disfarce da cooperação, dentro dela, era mostrado o lado perverso da realidade: o confronto aparece como sua característica fundamental, colocando a cooperação em segundo plano. Seria algo como o ritual de tomada de consciência da própria dominação encenado pelas classes populares. Um folguedo que estaria longe de ser o ópio do povo. Uma forma simbólica de subversão da ordem.

O pertencimento da capoeira à esfera da cultura popular estaria simbolizado nos movimentos de inversão e nos momentos do jogo em que os corpos dos dois camaradas parecem se acoplar, tornando seus limites indistinguíveis. As inversões do alto e do baixo, da frente e das costas – presentes nos seus movimentos -- do sagrado e do profano, do masculino e do feminino – presente nas suas cantigas -- simbolizariam algo próximo de um potencial revolucionário da vadiação.

Existem inclusive alguns estudiosos que observam que a capoeira, depois de suas sucessivas sistematizações, perdeu seu caráter ameaçador, tendo sido domesticada. É que a sistematização, que foi essencial para a sobrevivência do brinquedo, se abriu alguns caminhos, fechou outros. A pernada e o samba duro jogados pelos malandros cariocas se extinguiram, as rodas de largo e das docas e os barracões baianos também. E não se trata de uma lamentação feita por um passado. É apenas uma constatação. Hoje somos regionais ou angoleiros, sarobas ou sarados, contemporâneos, do grupo A ou do grupo B. Grande parte de nossos treinos são repetições de movimentos marcados feitos em academias. Hierarquias e formas sutis de dominação foram trazidos para dentro da roda.

É por isso que vejo com bons olhos algumas pequenas coisas que acontecem na vadiação. Alguns treinos que desmontam o esquema ao qual estamos acostumados: uma roda onde toque não é angola, são bento grande ou outro qualquer, mas o samba de roda; onde a ginga não é aquela coisa marcada, mas os passos de dança de onde devem partir os golpes. De repente falta um pouco isso na capoeira, deixar de repetir os clichês torná-la novamente alegre, imprevisível, ou, como disse um velho mestre: "mais perigosa e menos violenta".

Foi por isso que achei interessante um vídeo recente sobre o mestre Lua Rasta: a desprogramação, a mistura e a brincadeira parecem estar vivas no modo como ele concebe o seu grupo. Capoeira, samba de roda, bumba-meu-boi, burrinha e o escambau fazem parte de sua roda. Mestre Lua se diz ridicularizado por alguns mestres, mas ele parece não se importar. É isso que parece nos faltar nos dias de hoje: uma capoeira que ridiculariza a si mesma. Pois o ridículo é uma forma de enfrentamento contra o enrijecimento sistemático.

Não vou dizer que me sinto totalmente à vontade com o rompimento da zona de conforto exigido por toda a desprogramação. Toda a novidade demora para ser internalizada, e nem sempre o é. Espero permanecer sensível ás desprogramações que existem nesse mundo, não só na capoeira, mas também fora dela.

Um abraço a todos,
Adriano

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