sexta-feira, setembro 15, 2006

Notas sobre a palestra do mestre Luiz Renato

Muito interessante a palestra do mestre Luiz Renato a respeito da tensão existente entre o ethos do capoeirista e aquele do profissional de capoeira, entre a tradição da malandragem na capoeira e o mundo do trabalho na sociedade moderna. Chamou muito minha atenção seu comentário segundo o qual toda tradição deve ser interpretada, pois é fruto de determinadas lutas acontecidas em determinado contextos de disputas -- de poder mesmo! --sobre o que era ou o que devia ser a capoeira.
Tentar adaptar uma tradição a um contexto muito diverso daquele em que ela foi criada pode fechar muitas portas profissionais aos professores de capoeira da atualidade. E isso alimenta outra tradição do meio : a atribuição do fracasso não à falta de visão do profissional, mas à perseguição à capoeira, ao racismo e a outros bodes expiatórios. Dessa maneira, aquilo que o mestre chamou de "complexo de vitimização do capoeirista" é reforçado dentro do meio da capoeiragem.
Na parte do debate, surgiram questões sobre a possibilidade de a capoeira romper com os aspectos mais perversos da lógica da modernidade. O mestre frisou que escolhas devem ser feitas pelos professores de capoeira e pelos próprios grupos. Ganha-se de um lado, perde-se de outro. Mas cada grupo pode lidar de maneiras diferentes com a lógica do mercado. Vários já se transformaram em franquias, por exemplo.
Seria esse o único meio de adaptação? E mais, seriam todas as franquias iguais? Sabemos que a relação mestre-aluno e o modo como o mestre constrói a relação aluno-aluno são elementos importantíssimos e dependem muito da formação e da personalidade de cada mestre. Em tese, então cada grupo -- no limite, cada mestre -- teria uma forma de estruturar essas relações.

1 Comments:

Anonymous Mestre Luiz Renato said...

Obrigado, Adriano, pela sua presença e pelo interesse que você demonstra pelo tema. Parece-me muito importante mesmo direcionar nossos debates para os temas da atualidade, e a profissionalização representa, para o capoeirista de formação tradicional (sobretudo o não-acadêmico), um desafio. Não temos respostas prontas, mas discutir as características do mercado de trabalho e aspectos do perfil profissional do capoeirista para os novos tempos pode ser um bom começo. Sigamos em frente.
Abraço,
Luiz Renato

6:54 PM  

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