quinta-feira, maio 18, 2006

O "parqu" e a capoeira (resposta a um fiel leitor)

Camaradas, ontem um amigo e leitor desse blog me perguntou se eu acreditava mesmo que o porquê da expansão da capoeira pelo mundo é a sua identificação com os povos oprimidos. Como contraponto a essa opinião, ele citou o exemplo do futebol, esporte criado e difundido pela Inglaterra imperialista que é hoje o mais praticado no mundo. Vou responder a ele, mas antes vou "cozinhando o jogo".
Essa coisa de cozinhar me lembrou a sopa "zurek" polonesa e os polacos praticantes do "parqu"-- entre os quais se inclui o filho do mestre Jorge. Tal esporte foi criado na França há alguns anos e consiste no aproveitamento dos obstáculos da cidade para fazer acrobacias. Esse pessoal pula de tetos de casas, salta o espaço que separa pequenos prédios, aproveita os muros da cidade para dar saltos mortais e outras loucuras mais. Por quê? Que diabos os caras querem com isso?
Uma explicação que eu tenho é a de que o "parqu" é uma forma de se apropriar da cidade, da "selva de pedra" vista como opressora do ser humano, de vencer os obstáculos que ela coloca à livre movimentação das pessoas e ainda aproveitar para fazer movimentos que os praticantes percebem como ligados à pura criatividade, à "irracionalidade", à diversão pura ao fazer algo porque se pode, e não porque um chefe manda.
O "parqu" é, então, uma espécie de vadiação européia. Penso que os mesmos motivos da expansão desse esporte valem para a da capoeira. A roda seria uma espécie de suspensão do cotidiano de um trabalho monótono, um reencontro do homem com uma fase mais livre e mais inocente de sua história. Ora, sabemos que os carregadores, estivadores e ganhadores do Recôncavo Baiano e da cidade do Rio de Janeiro jogavam entre um serviço e outro.
Assim, a expansão da capoeira não está ligada diretamente à luta contra a opressão, mas a um intervalo de um trabalho pesado. Hoje em dia, grande parte das pessoas trabalham em atividades repetitivas e monótonas, sentadas em frente a um computador. A capoeira seria uma forma de reencontro de uma hipotética natureza humana primitiva. A própria valorização do "baixo corporal" -- pés, pernas e quadris -- frente à cabeça, ao tronco e às mãos ilustra uma inversão do mundo cotidiano e racional, como escreve Letícia Reis.
Então, a capoeira pode ser, hoje em dia, uma válvula de escape para a vida moderna, estando mesmo ligada à manutenção da integridade psíquica das pessoas no contexto do capitalismo avançado. Este, inclusive, é um dos aspectos apontado por Mathias Assunção para a expansão da capoeira pelo mundo. A capoeira seria como que um estabilizador social nos países desenvolvidos.
Isso não quer dizer que estou substituindo a idéia de uma capoeira essencialmente libertária pela de uma capoeira essencialmente conformista. Pelo contrário, acho que muito coelho pode sair da cartola da capoeira nessa época de globalização, pois cada grupo social pode conferir a ela sentidos diferentes dependendo de sua realidade, e tais sentidos nem sempre introjetam a dominação.
Moreno

5 Comments:

Blogger Moreno capoeira said...

em outro nível, qual seja, o do cotidiano, a capoeira pode apresentar uma certa subversão dos valores da sociedade circundante á roda. Por exemplo, ser negro numa roda de capoeira é extremamente valorizado, é visto como um privilégio e, na cabeça dos participantes da roda, confere uma legitimidade à vadiação que está rolando.
Em Lisboa, pude presenciar o angolano assumindo o papel de autoridade na roda devido à sua origem e à sua cor. Assim, um imigrante ilegal passou ser uma autoridade em meio a alunos portugueses bem-nascidos.
Esta seria a dimensão revolucionária e subversiva da capoeira: permitir que indivíduos de meios culturais e sociais diferentes interajam dentro de um quadro de relações diferente daquele da sociedade circundante à roda.

5:50 PM  
Blogger Moreno capoeira said...

Lembro ao ilustre leitor L.C. que a expansão do futebol só aconteceu porque dele se apropriaram as classes populares brasileiras e, dentro dela, os negros, que deram a tal esporte algumas de suas feições. No Brasil, Gilberto Freyre e Mário Filho escrevem como o negro se apropriou do futebol. Toda uma visão de mundo afro-brasileira estaria encarnada no drible, por exemplo. O enganar, o atrair para ludibriar, o deixar o adversário dar o bote primeiro para depois pegá-lo no contra-pé, seria, para tais autores, a malícia do negro brasileiro aplicada ao futebol. O fundamento do drible teria aberto espaço para que uma parte do universo negro brasileiro se exprimisse no relvado.
Meu fiel leitor, esporte não é só negócio e entretenimento e profissionalismo e olimpíadas. Existe muita coisa por trás disso...

6:10 PM  
Blogger Moreno capoeira said...

Para ser mais exato, Mathias Assunção argumenta que o hedonismo dos praticantes da capoeira corresponde ao sistema de valores exigido pelo capitalismo avançado num mundo descrente das utopias sociais coletivistas.

11:39 PM  
Blogger Moreno capoeira said...

Desculpem, senhores, a grafia certa é "le parkour".

10:53 AM  
Blogger Moreno capoeira said...

Desculpem, senhores, a grafia certa é "le parkour".

10:53 AM  

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