quinta-feira, novembro 23, 2006

"A capoeiragem no Rio de Janeiro", de André Lacê

Caros leitores, desculpem o entusiasmo desse cronista calouro que escreve quase todo dia, mas é que quero compartilhar algumas das minhas descobertas recentes no campo da história da capoeira. Atualmente, estou lendo o livro de André Lacê "A capoeiragem no Rio de Janeiro - Sinhozinho e Rudolf Hermanny" e ele realmente dá uma sacudida naquelas concepções formadas que a gente tem sobre as origens da capoeira regional.
Vale a pena citar uma passagem especial:" O nome Regional, decididamente, não foi cunhado para se contrapor a Angola, até porque ambas capoeiras eram locais, da região da Bahia; e sim para se contrapor à capoeira Nacional. Claro, em função da forte tradição da capoeira baiana e, sobretudo, do extraordinário talento de Mestre bimba, ninguém em sã consciência poderá afirmar que a Regional é cópia fiel da Capoeira praticada por Sinhozinho, Zuma e outros. Para começar, a versão regional não abriu mão nem do berimbau nem do canto, componentes que inexistem na capoeir de Zuma, Sinhozinho, Hermanny e outros." (p.89)
Apoiando-se no fato de que o Rio de Janeiro, além de ser a capital do país, também era uma metrópole que irradiava sua influência por todo o Brasil, André Lacê argumenta que a Luta Regional Baiana teve como modelo a Ginástica Nacional. E isso é sustentado por outras evidências: os primeiros alunos estudantes de medicina de mestre Bimba, principalmente o pioneiríssimo Cisnando, conheciam o método do mestre Zuma; e o próprio Manoel dos Reis Machado demonstrou que o conhecia quando deu uma entrevista, em 1936, comentando as regras que deveriam ser utilizadas quando das suas lutas com outros capoeiristas nos ringues de Salvador.
Interessantíssimas as páginas em fac-símile do método da ginástica nacional. Lacê chama atenção para o fato de que vários dos golpes catalogados tinham origem na "pernada carioca", algo próximo ao "batuque" baiano: banda de frente, banda amarrada, banda jogada, banda forçada. Esse fato, o aproveitamento dos golpes do batuque, nos era apresentado até agora como uma característica apenas da capoeira regional.
Além disso, existem indicações -- de artigos de jornais de época citados no livro -- de que já existiam no Rio de Janeiro academias da capoeiragem carioca em 1931. Ou seja, pelo menos contemporâneas do centro de cultura física do grande mestre baiano.
Outros fatos desconhecidos, pelo menos para mim, são as lutas que os "regionais" fizeram contra os "nacionais" no Rio de Janeiro em 1948. Os primeiros, representados por Fernando Perez e Jurandir, foram derrotados por Rudolf Hermanny e Luiz Aguiar, o Cirandinha. Tais derrotas teriam sido "esquecidas" pelos historiadores ligados à capoeira regional, o que teria condenado a memória da capoeira mais eficiente de Zuma e de Sinhozinho e seus alunos ao limbo.
Para completar essa resenha, devo dizer que o autor, em vários momentos, critica a ênfase dada pelos regionais da época sobre o caráter marcial da capoeira do mestre Bimba, pois tal estilo buscava se legitimar pelo discurso da eficiência, embora o caminho da folclorização e das exibições em esquetes já estivesse aberto.
Lacê também estende essas críticas aos estilos mais combativos da capoeira contemporânea que buscam se legitimar pelo uso da violência argumentando que, para provar eficiência e se atualizar tecnicamente, a capoeira que deseja ser luta deve voltar aos ringues.
Livros como esse de André Lacê trazem uma grande contribuição ao mundo da capoeira pois ajudam na desmistificação de sua história e nos fazem pensar nos embates de poder que acontecem por trás da escrita da mesma.
O livro também ajuda na compreensão da figura do grande mestre Bimba ao mesmo tempo em que torna mais claras nossas escolhas individuais no campo do brinquedo. Depois da leitura d'A capoeiragem ... fica até mais caracterizado seu projeto de modernização étnica da capoeira dentro da tradição afro-brasileira. Um projeto de capoeira-luta que teve como limitador(?) a vitalidade da vadiação baiana.
Quanto a mim... continuo hipnotizado pela dubiedade do toque da regional tal como ensinada pelo mestre Pombo de Ouro.

3 Comments:

Blogger Moreno capoeira said...

Pensando um pouco na conteúdo do livro, a gente percebe que não há demérito nenhum no fato de a regional não ser uma luta pura. Muito pelo contrário, a dubiedade luta-dança é o fator enriquecedor da mesma. Parece que a capoeira baiana, tanto angola como regional ou contemporânea, se define por essa dubiedade, enfatizando ora um ora outro e, por vezes, criando modimos. Parece que, atualmente, o discurso de legitimação da capoeira como luta está muito enfraquecido e perdeu espaço para a capoeira tida como expressão cultural.

10:00 AM  
Blogger Um brasileiro said...

Há um artigo no site Revista Capoeira em que se desmente essa influência do Mestre Zuma sobre a formação da Capoeira Regional de forma bem consistente.

O artigo mostra de forma expressa que os golpes do Mestre Zuma são diferentes dos do Mestre Bimba.

Oque não desmerece em nada um nem outro, ao contrário, evidencia a riqueza da Capoeira.

Mesdtre Bimba tinha sim conhecimento da obra do Mestre Zuma, e tanto é assim que recomenda que a forma de organização da Capoeira fosse a recomendada pelo Mestre Zuma. Mas quanto aos golpes não adotou os ensinados pelo Zuma.

4:49 AM  
Blogger Moreno capoeira said...

Caro Brasileiro, na verdade quando digo que mestre Bimba se inspirou na ginástica nacional para criar a capoeira regional não estou querendo dizer que ele copiou os golpes de Zuma, mas sim que assim como seu contemporâneo -- ou seria melhor dizer antecessor? -- carioca, o baiano Bimba, com a ajuda de seus alunos, pretendia criar uma luta brasileira a partir da capoeira. É assim que interpreto essa influência: era algo mais profundo e ideológico do que simplesmente copiar alguns golpes e movimentos.
Um abraço e obrigado pelo comentário,

11:32 PM  

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