terça-feira, novembro 14, 2006

Ô sim, sim, sim / ô não, não, não

Depois da última postagem, mais pessoal e emotiva, segue esta, num tom mais comedido.
Tenho um colega advogado para quem a maior dificuldade na compreensão da capoeira é o seu aspecto ambíguo de luta e dança. De fato, já escreveram sobra a brincadeira: "luta de dançarinos e dança de gladiadores." Acontece que o mundo da lei é assim: exige o preto no branco, tons de cinza são difíceis de aceitar. O problema é que são eles que predominam no universo das manifestações ligadas à cultura popular.
Por outro lado, conheço um camarado militar que treinou na Curitiba dos anos 70 e foi muito marcado pelo estilo marcial do mestre Sergipe. O Coronel é daqueles que comungam com mestre Bimba -- "capoeira é malícia" -- em oposição à afirmação mais totalizante do mestre Pastinha -- "é tudo o que a boca come". Essa oposição é clássica: enquanto um privilegia um aspecto "positivo" da capoeira, o outro ressaltaria o seu aspecto "negativo", de aceitação da vida como ela é, com suas ambigüidades e contradições, com amizades, inimizades e falsidades. Para aquele meu camarada, capoeira é luta.
Mas o interessante é o criador da regional não ter dito algo como "capoeira é luta". Aliás, quando o disse foi justamente no momento em que recusou um desafio a seus alunos em 1946. Disse que a capoeira era uma luta muito perigosa até para estar num ringue. Era uma luta para a rua porque muito traiçoeira. De maneira semelhante, o mestre Pastinha dizia: "o capoeirista é aquele que corre para não bater". Ou seja, Bimba também se dava bem com as ambigüidades.
Contrastando com os dos grandes mestres baianos, os projetos cariocas de esportivização da capoeira do início do século passado íam na direção da perda de suas características africanas e populares e de sua ambigüidade. A Ginástica Nacional de Aníbal Burlamaqui suprimia a roda, a música, os instrumentos, as palmas e a ginga. Deixava apenas os golpes. Ora, era exatamente no que ficou de fora que residia a riqueza e a complexidade da vadiação.
A dualidade dança-luta, cooperação-competição, lúdico-agônico estaria presente em todos os componentes de uma roda de capoeira. A começar pela instrumentação. Por exemplo, nos três toques básicos do berimbau: o arame preso (ataque, capoeira positiva), o arame solto (defesa, negativa) e a corda semi-presa (a ambigüidade).
Na tradição do mestre Pastinha, o berimbau gunga toca angola (dom-dim) -- ataque, positivo --, o médio inverte (dim-dom) -- defesa, negativa -- e o viola repica e improvisa indo e voltando entre os dois anteriores -- a encarnação da malícia, da ambigüidade e indeterminação entre luta e dança. A traição a um padrão estabelecido.
Isso não se perde no São Bento Grande da Regional. O único berimbau funciona como se concentrasse toque, toque invertido e repique num instrumento, tendo ainda a função de chamar o jogo "prá frente". O toque tem duas partes e, em determinado momento, uma quebra de ritmo com a pedra semi-presa fazendo parte de sua estrutura, a malícia de que falava o mestre Bimba.
A mesma estrutura estaria presente no jogo físico: movimentos de ataque -- "capoeira positiva", como falava mestre Pastinha -- , movimentos dedefesa -- ou "capoeira na negativa" e ginga -- um momento de onde podem sair ataque e defesa, o momento da malícia pura, da traição aos padrões.
Cabe ressaltar que isso não é coisa de intelectual. Nos manuscritos do mestre Pastinha e em seus depoimentos gravados, ele mostra plena consciência dessa simbologia da capoeira. Ele chegou mesmo a tentar elaborar uma filosofia para a vadiação. Já mestre Bimba utilizava histórias de fatos que teriam sido vividos por ele para ressaltar a importância da malícia e de sua percepção para o capoeirista. É só dar uma lida no Dr. Decânio ou escutar depoimentos de outros de seus alunos.
Essa ambigüidade é fundamental em todas as formas de cultura popular e representa uma visão de mundo daqueles que têm consciência de que a ordem, o preto no branco, lhes é desfavorável e que, para sobreviver é necessário explorar suas brechas, negando-a através de sua submissão. A capoeira não deixa de ser uma expressão simbólica dessa visão de mundo.
Moreno

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