quarta-feira, janeiro 24, 2007

"Esquenta-banha"



Camaradas, creio que hoje em dia a maioria das cidades brasileiras possui aquelas lanchonetes montadas dentro de trâileres. Aqui pelo Goiás e Tocantins elas são chamadas de “pit dogs”. Lembro que surgiram no começo dos anos 80, possuindo como caracteristica principal um cardápio formado por sanduíches cujos nomes sempre começam com a letra “X” e íam desde o X-bacon, o X-frango, o X-salada até o animalesco X- tudo. De lá para cá, elas fizeram muito sucesso e se espalharam pelo país.
É claro que o “X” é uma referência ao cheese que aparece nos nomes dos sanduíches das franquias americanas ou das lanchonetes brasileiras top de linha, mas não tem nenhum significado literal: o X- milho pode não conter queijo, por exemplo. Tenho amigos que dizem que isso é um reflexo da ignorância dos proprietários de pit dogs, que, vindos de classes mais baixas, não puderam estudar inglês.
Porém, "o buraco é mais embaixo", os novos nomes dos sanduíches podem também ser encarados como uma interpretação brasileira e popular dos nomes estrangeiros e bacanas que constam nos cardápios das redes de fast food. Nesse sentido, são uma inovação no campo dos menus de lanchonetes.
Algo parecido ocorre na capoeira. Já ouvi em determinadas rodas o mestre dizer: “agora é a hora do 'esquenta banha'!”, e acelerava o toque de São Bento Grande da Regional. O jogo correspondente a tal momento da roda é rápido e, geralmente, mais alto, permitindo algum contato um pouco mais violento, tanto que ao anunciar a subida do toque alguns mestres falam, num tom de desafio bem humorado: “Agora entra quem quer e sai quem pode.”
Ora, o mestre Bimba nunca poderia prever no que se transformaria o seu “esquenta banho”! Segundo relatos de seus alunos, depois de a última dupla jogar iúna o mestre encerrava a roda, pendurava seu berimbau na parede e sentava num banquinho na porta de sua academia . Os alunos, ainda com sangue quente e empolgados pela aula, começavam a se enfrentar sem berimbau, música ou roda numa espécie de vale-tudo. Tal momento foi chamado de esquenta banho porque no banheiro da academia havia apenas um cano de onde saía somente água fria.
Não deixava de ser um recurso pedagógico interessante, já que a regional se legitimava frente à angola pelo seu caráter de luta e que aquele era um momento no qual os alunos exercitavam a criatividade de seus golpes numa disputa sem muita interferência do mestre, que podia ser inibidora. Era, inclusive, a hora de os discípulos desenvolverem a malícia, testarem a efetividade dos golpes da regional contra os recursos de outras artes marciais conhecidas por eles e treinarem a capoeira como defesa pessoal. Segundo os relatos, a coisa acontecia no clima de camaradagem que imperava nas aulas, mas o “bicho pegava” mesmo.
Hoje em dia, muitos grupos interpretam o “esquenta banho” como “esquenta banha”, criando um novo momento na roda, caracterizado por um jogo alto, rápido e um pouco intempestivo que acontece no final da vadiação. Próximo a essa acepção, outros grupos criaram, com um espírito menos violento, uma forma de jogo chamada “alto-ligeiro”, nomeada dessa maneira possivelmente para não permitir a sua associação com a marcialidade evocada pelo nome de origem.
Ambos são interpretações do modelo da Capoeira Regional e que diferem, frente àquele e entre si, por corresponderem a concepções diferentes do jogo e do seu ensino. Se por um lado são o resultado de uma leitura menos competitiva e mais cooperativa da capoeira -- principalmente o alto-ligeiro -- por outro distanciam-se da visão tradicional de mestre Bimba, que utilizava o esquenta banho como uma forma de desenvolver a malícia e o aspecto de defesa pessoal da vadiação.

1 Comments:

Blogger Diogo said...

Muito bacana! Estava fazendo uma pesquisa e gostei muito do que encontrei aqui. Obrigado!

7:32 PM  

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